
A rede municipal de ensino de Caxias do Sul registra em 2025 um total de 2.020 estudantes naturais de outros países matriculados. Do ano passado para cá, a presença de imigrantes nas escolas geridas pelo governo local cresceu 12,4% — antes, eram 1.796 crianças. A escola municipal Basílio Tcacenco, no bairro Esplanada, é a que tem o maior número de estudantes imigrantes na cidade (leia abaixo). Os dados são da Secretaria Municipal da Educação (Smed).
A nacionalidade mais evidente é a venezuelana. Entretanto, também há pessoas que vieram do Haiti, da Argentina, de Cuba e de outros países. Esse público representa menos de 5% do total de matrículas, que é de cerca de 46,7 mil.
O primeiro acolhimento às famílias no âmbito escolar ocorre, naturalmente, pela Central de Vagas (Rua Ernesto Alves, 1.535). Segundo Marta Fattori, titular da Smed, em torno de cinco famílias, entre migrantes (brasileiros que deslocam-se de outros municípios ou Estados) e imigrantes procuram o local todos os dias, com dois a cinco filhos.
Em parceria com o Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), o município oferece conhecimentos sobre migração, refúgio, terminologias, direitos e estereótipos por meio do Letramento Migratório e Proteção Internacional.
A secretária também cita formações aos docentes, como o projeto Mais Alfabetização, que possibilita atender estudantes imigrantes sem proficiência em Língua Portuguesa que apresentam dificuldades de aprendizagem. A Smed registra que mais de 3,2 mil, entre brasileiros e imigrantes, foram atendidos pela iniciativa.
— Os professores participam de momentos formativos organizados pela assessoria pedagógica da Smed, principalmente com especialistas da Língua Espanhola, que contribuem para o trabalho com os estudantes hispanofalantes. Estamos ainda engatinhando em algumas coisas, mas fazemos o possível. São investimentos que temos que fazer — afirma Marta.
Ainda, o Centro Municipal de Atendimento Pedagógico Especializado (Cemape) recebe estudantes de outros países com dificuldades de adaptação à Língua Portuguesa. O encaminhamento é feito pelas escolas municipais. Atualmente, 62 pessoas são atendidas pelo serviço, que também oferece atividades pedagógicas para valorização de habilidades, interesses e necessidades específicas de cada um.

Basílio Tcacenco concentra maior número de imigrantes
Com o maior número de estudantes imigrantes entre as escolas municipais, a Basílio Tcacenco tem 37 anos de história e possui 962 alunos, do pré ao 9° ano, dos quais 121 nasceram em países como Venezuela, Cuba e Haiti.
A designação aos estabelecimentos de ensino é feita pela proximidade com a casa da família e a disponibilidade da vaga, conforme a Smed. A vice-diretora do turno da tarde na Basílio, Ciana Oliveira, 32 anos, aponta que houve um incremento significativo de crianças vindas de fora a partir de 2021 e 2022, no contexto da pandemia de covid-19.
— Começou com um ou dois por turma e hoje temos turmas com seis estudantes venezuelanos. Às vezes eles fazem grupinhos e precisamos dar uma chamada: "ó, vocês estão sendo alfabetizados na Língua Portuguesa, vamos falar português", porque senão eles falam rápido, com dialetos e a gente não acompanha — conta a gestora, que também é professora de Artes.
O pequeno Adam Smith Parada Montilla, sete, começou os estudos no local neste período. Ele mora em Caxias há três anos com os pais, duas irmãs e o irmão Brian, que também frequenta a Basílio.
Ciana conta que Adam teve uma adaptação difícil ao novo ambiente escolar. Ele sofria crises de choro e pedia pela mãe na sala de aula. Como resposta, entrou em ação uma característica tradicional da instituição: o acolhimento. A vice-diretora levava o menino até a sala dela, transmitia os conteúdos e ajudava com as dificuldades.
— Fazíamos uns acordos: "essa atividade você faz comigo e depois fica um pouco em sala de aula" — relembra a docente.
Entretanto, uma barreira ficou evidente: o idioma. A vice buscou seus meios para não deixar ninguém para trás.
— Comecei a notar, nas aulas e com Adam, que metade das coisas eu entendia e metade não entendia. Fiz então um contato com uma colega que é professora de espanhol e comecei a fazer aula com ela duas vezes na semana durante três meses. Depois, conforme o Adam foi se adaptando, outras crianças vieram e receberam colo — afirma.
Ciana aponta que há um bom respaldo da Smed aos profissionais que estão na linha de frente do atendimento aos imigrantes. Segundo ela, outro ponto que costuma ser delicado é quando a criança chega na escola sem estudo prévio algum:
— Esses demoram mais para acompanhar, o que pode gerar alguma repetência. E não só por não atingir a nota, mas para dar um tempo maior de adaptação à criança, para ela assimilar a língua, ir compreendendo o ambiente.
Por outro lado, há estudantes que levam na bagagem conhecimentos essenciais de matemática, ciências da natureza e humanas, e precisam dar conta apenas da compreensão do novo idioma. Para os professores, o Google Tradutor se tornou um aliado nas aulas, além do interesse por entender o contexto e a história das famílias que se instalam na cidade.
— Trabalhamos para as crianças, seja o Adam, o João ou a Maria. Está mal vestido? Chegou molhado da chuva? Está com fome? Vem cá e vamos resolver. Estamos atentos para acolher — complementa Ciana, que ressalta a participação dos próprios imigrantes veteranos na escola nos processos de acolhimento aos novatos.

A professora dos segundos anos da manhã e tarde na Basílio Denise Regina Lunardi, 49, revela que o "friozinho na barriga" do início foi solucionado com trabalho e adaptação. A docente, que convive diariamente com Adam, por exemplo, destaca a possibilidade de aflorar trocas culturais e vivências em sala:
— Sempre buscamos a inclusão de todos. As crianças especiais ou com dificuldades em diferentes processos e os imigrantes. As crianças normalmente são muito receptivas. Quando você conta uma história, trabalha com atividades lúdicas, de amizade, de carinho, de chamar para perto, eles compram a ideia e ajudam. As famílias imigrantes estão buscando construir a vida delas aqui, batalhando, com crianças que estudam e são focadas.
Tímido, de poucas palavras, mas com sorriso genuíno, Adam garante que hoje se sente bem na Basílio, na parceria dos professores e também das amizades:
— Eu brinco de pega-pega, jogo futebol e pulo corda.
Torcedor do Real Madrid, da Espanha, ele sonha em ser jogador de futebol.
A Basílio possui quatro quadras para atividades físicas, além de um parquinho. São cerca de 30 salas ao todo, das quais 19 são voltadas às aulas diariamente. A escola recebe estudantes, em sua maioria, dos bairros Monte Carmelo, Consolação, Esplanada, Salgado Filho, Kayser e São Caetano.
Ampliação de vagas para 2026
Em setembro, o prefeito Adiló Didomenico e a secretária Marta Fattori estiveram na sede da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), em Porto Alegre, para uma conversa com a titular da pasta, Raquel Teixeira, com o objetivo de ampliar a oferta de vagas no Ensino Fundamental de Caxias em 2026.
Marta explica que as séries finais, do 6° ao 9° anos, são compartilhadas com o Estado, por isso é solicitada a cedência de espaços em escolas estaduais na cidade, como Evaristo de Antoni, Apolinário ou Cristóvão de Mendoza, que passa por reformas. O pedido da Smed foi vinculado a uma "demanda crescente, sobretudo pelo alto número de alunos imigrantes".
— A nossa preocupação é com a língua, como vamos ajustar o português com o espanhol, como vamos preparar os professores. Temos que abrir espaços no Cemape para trabalhar esses alunos que têm distorção de série/idade. Isso é um impacto, mas não o número de alunos. O número de alunos, seja no município, seja no Estado, será apoiado — salienta a secretária.
A titular da Smed também considera a ampliação no número de matrículas de pessoas que chegam de outras cidades gaúchas após desastres climáticos, por exemplo, ou mesmo de outros Estados — referenciadas como migrantes.
— A gente não tem como prever o fluxo. As famílias vão chegando no tempo delas. Não tem como dizer "o fluxo vai ser 500, 300, 400", não tem como saber. Todo o pessoal que procura, seja migrante, imigrante ou que venham da rede particular, a gente acolhe. Tendo vaga nas escolas, a gente dá a matrícula, vê o zoneamento e coloca os alunos. Até o momento, conseguimos colocar todos os que procuraram a Central de Matrículas — garante.
Em nota, Adiló aponta que as escolas do município estão com as salas de aula lotadas. De acordo com o chefe do Executivo, a 4ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) foi recomendada pela Seduc a verificar quantas turmas das séries finais é possível absorver no próximo ano letivo.
— Estamos há tempo buscando ajuda do Estado para viabilizar o espaço físico. A gente se preocupa, busca alternativas e sempre vai acolher. E tem que deixar bem claro: os migrantes e imigrantes sempre foram muito bem recebidos em Caxias e sempre serão, como nós também fomos recebidos um dia — declara.





