
Nos registros científicos ela é chamada de Tyto furcata. Popularmente, é conhecida como coruja-das-torres, coruja-de-igreja ou suindara, entre outros nomes. Para o caxiense Fernando Sozo, 52 anos, a companheira de hábitos noturnos é apenas Zaya, nome escolhido por significar algo como "aquela que brilha" ou "luz da lua".
Na tarde da última quinta-feira (9), no Parque Cinquentenário, Zaya de fato brilhou, diante do olhar curioso e encantado de quem a via no ombro do tutor. Talvez por serem raras as ocasiões em que deixa a casa da família, a ave devolvia olhares igualmente curiosos aos passantes e batia as asas assustada diante de algum barulho inesperado.
A coruja chegou à casa de Sozo em janeiro de 2018, com apenas 28 dias de vida. Mas sua chegada era aguardada desde 2014, quando o caxiense descobriu, ao assistir uma reportagem, que era permitido criar alguns animais silvestres, como aves de rapina.

— Fiz contato com a produção do programa para ir atrás do criadouro, que ficava em Minas Gerais. Embora eu não crie para reproduzir, porque nem tenho essa permissão, queria uma fêmea. Até 2018 esperei por uma outra espécie, a coruja-orelhuda, só que não nascia. Foi só então que busquei outro criadouro, onde me ofereceram a Zaya. É um ramo onde as pessoas trabalham muito sério e com muito respeito pelos animais — conta Sozo, que mora no bairro São Caetano e administra uma fábrica de lareiras.

Além das taxas para reunir a documentação requerida pelo Ibama e dos trâmites junto aos criadores, o caxiense investiu também num curso de manejo e teve outros gastos menores para poder abrigar Zaya, como o poleiro e o gradeamento das janelas, além do kit para atrelamento - para que as saídas ocorram em segurança, sem fugir do alcance do tutor.
Tendo roedores como base da alimentação, diariamente ela come entre 50 a 70 gramas de carne, servida na primeira hora da manhã. Mesmo sendo criado como um animal doméstico, respeitar a cadeia alimentar é fundamental para evitar problemas de saúde:

— Além da carne, ela precisa engolir pelos e ossos para regurgitar e fazer a limpeza estomacal. A maioria dos criadores prefere comprar os ratinhos já mortos e congelados, mas eu prefiro saber a procedência da alimentação dela, por isso eu mesmo crio. E dou para ela só o filé. Como ela come muita proteína, o hálito já não é muito agradável. E ela passa bastante tempo no meu ombro, né? Se comesse também as vísceras, ia ser difícil de aguentar o bafo.
Zaya passa todo o tempo solta dentro de casa e gosta de voar e de piar à noite, honrando os hábitos noturnos da espécie. Por ser uma ave territorial, que tende a ficar onde se sente segura e alimentada, o risco de fuga sequer é considerado. Houve uma vez, apenas, em que ela escapou e quase virou jantar para dois rottweilers de um vizinho no bairro, se não tivesse sido encontrada e resgatada a tempo.
Além de levar o pet à bênção dos animais, no Dia de São Francisco de Assis, outros passeios costumam atender a convites bem específicos, como uma festa de aniversário da filha de uma amiga que teve a temática de Harry Potter (o famoso bruxinho tinha Edwiges, uma coruja-das-neves). Sozo reforça que não cria o animal visando exposição ou arrecadar dinheiro. Pelo contrário, atende gratuitamente a solicitações que envolvam educação ambiental, que são frequentes:

— É comum me pedirem para falar em escolas do interior, onde as crianças têm mais contato com corujas, só que muitas vezes as maltratam. Por isso eu tento conscientizar sobre a importância delas na natureza, como elas ajudam a proteger a lavoura, já que um único casal de corujas pode eliminar até mil ratos num ano. Isso também ajuda a desfazer o misticismo de que a coruja é um animal de mau agouro, que traz má sorte. Tem gente que já deixou de ir na minha casa por causa disso. Por mim tudo bem. A verdade é que as corujas são animais muito sociáveis e parceiros.
Quando entregue à própria sorte na natureza, a expectativa de vida de uma coruja vive em média 15 anos. No ambiente doméstico, porém, pode viver 25 anos ou mais. É o que Sozo espera para sua companheira:
— Pela maneira como ela é criada e com a saúde perfeita, meu sonho é que ela viva até 40 anos, quem sabe até mais.


