
Santa Lúcia do Piaí celebra neste domingo (28) o centenário do distrito de cerca de 3,5 mil habitantes. A comemoração contará com desfile temático da comunidade, feira com produtos da localidade, missa especial e um almoço típico. Cerca de 800 pessoas são esperadas.
Para marcar a festa, a comunidade também inaugurará a revitalização da Praça Cristóvão de Mendoza, que foi pensada como marco do centenário. O investimento foi de R$ 665 mil (R$ 354 mil do Fundo Municipal do Meio Ambiente, R$ 100 mil de emenda da deputada federal Denise Pessôa (PT) e R$ 213 mil com recursos da comunidade).
— Acredito que conseguimos manter a questão do pertencimento. Tanto que a escola, as pessoas que moram aqui e que vêm para cá, têm o interesse. E não é uma coisa que é forçada. É uma coisa que acontece naturalmente — celebra o professor e diretor do Centro de Memória e História de Santa Lúcia do Piaí, Jorge Andreazza, 51 anos.
Um outro exemplo dessa participação da população é o Natal Comunitário de Santa Lúcia, que completou 30 anos em 2024.
História além dos 100 anos
A data marca o ato de quando a chamada vila de Faria Lemos, que pertencia a Nova Petrópolis, se tornou o 7º Distrito de São Sebastião do Caí. Ou seja, é a celebração de quando a localidade foi alçada à categoria de distrito.
O nome de Santa Lúcia do Piaí viria a surgir em 1937, quando foi criado um decreto do Estado que não permitia distritos com nomes iguais (Faria Lemos, de Bento Gonçalves, era mais antiga). Já décadas depois, em 1944, a região passaria a pertencer a Caxias do Sul.
Nos últimos cem anos, a história do distrito foi marcada especialmente pelo desenvolvimento social e econômico, além da pesquisa sobre a ocupação indígena. A localidade é o lar do Sítio Arqueológico Antônio Vergani, um patrimônio cultural do RS, ligado aos índios das tribos Kaingang e Xokleng.
Na propriedade privada estão casas subterrâneas que foram construídas por índios. Pesquisas indicam que elas datam entre 300 a.C. e por volta de 1700.
As origens de Santa Lúcia do Piaí também escondem episódios históricos, como o assassinato do padre jesuíta Cristóvão de Mendoza ou o milagre de Barbara Maix. Por óbvio, o distrito é mais um com forte cultura religiosa. Uma prova disso é que são 12 capelas no território (uma para cada comunidade) e duas delas são mais antigas que a fundação do distrito.
— A capela, por exemplo, da Linha São Maximiliano, de pedra basalto, é de 1914. Temos também a capela na beira do Rio Caí, da Sertória Baixa, também em 1910, que é muito desconhecida ainda por algumas pessoas. Mas são centros históricos importantes — contou o historiador Éder Dall'Agnol dos Santos, 35, que também atua como diretor do Centro de Memória da comunidade.
Assim, as histórias estão marcadas em pontos do distrito que podem ser visitados. Além das capelas, há a fonte de Água Azul. Ao mesmo tempo que fundamentam a importância histórica do distrito, conectam-se com o potencial turístico que é descoberto pelo município, também pelas belezas naturais do distrito, como as paisagens observadas pela Estrada João Eduardo Jung.

Origens
As origens de Santa Lúcia do Piaí estão na ocupação indígena. Depois, por volta de 1800, iniciou-se a imigração de europeus. Primeiro, como conta o historiador Dall'Agnol, com os açorianos. Depois, inicia-se um forte movimento migratório. Primeiro, com alemães em 1824, e em 1886, a forte presença de italianos, que viria marcar o território.
— O que muitos desconhecem é que tivemos famílias de holandeses em Santa Lúcia também, entre 1850 e 1870, e também poloneses que deixaram ali uma pequena contribuição, uma pequena cultura ali, que, infelizmente, essas famílias não têm hoje ali representações ou descendência — contou o historiador.
Já Andreazza relembra que uma das décadas marcantes do distrito foram os anos 1930. A população chegou a ser de 5 mil habitantes, quando Caxias tinha cerca de 60 mil moradores. Santa Lúcia fazia parte de uma rota de comércio:
— Aqui era uma rota de comércio dos Campos de Cima da Serra, de Bom Jesus, Vacaria e Porto Alegre. As tropas de gado passavam por aqui. Depois, em 1942, quando abriu a BR-116, essa rota se deslocou para Caxias do Sul.
Fé, beleza natural e vocação para o turismo
Hoje, a principal atividade do distrito é a agricultura. Segundo Andreazza, entre as principais culturas estão o morango e o tomate.

Ao mesmo tempo, Santa Lúcia do Piaí tem roteiros ligados a fé. Ela faz parte do Caminhos de Caravaggio, em que os peregrinos percorrem 200 quilômetros entre Canela e Farroupilha. Há também, a rota Caminho da Fé, própria do distrito, com 14 marcos separados em 30 quilômetros.
O roteiro se inicia em frente à Igreja de São Luiz da 6ª Légua e termina no Parque Água Azul, no local em que o padre Cristóvão de Mendoza foi martirizado.
— Hoje, o forte mesmo é ainda a agricultura. Mas, Santa Lúcia está começando a se abrir ao turismo. Temos ali a rota do Caminhos da Fé, onde muitos trilheiros passam pela localidade. Santa Lúcia, vamos dizer assim, que foi pioneira nisso — descreveu Dall'Agnol.
Atualmente, os peregrinos contam com o Seminário Divina Providência, da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, para serem acolhidos ao passarem no distrito. Para fortalecer ainda mais o turismo, Jorge Andreazza opina que faltaria uma hospedagem na localidade:
— Hoje temos assim os Caminhos de Caravaggio, que tem o seminário, nós temos comida também. O que faltaria seria uma hospedagem. Alguém com um know-how econômico.
A morte do padre e a origem da Água Azul
Uma das histórias mais conhecidas de Santa Lúcia do Piaí data de 1635, quando passava na região o padre jesuíta Cristóvão de Mendoza - considerado também o introdutor do gado no Estado. Como recorda Dall'Agnol, há diferentes versões da história que são passadas de geração em geração, mas o ponto central é que Cristóvão de Mendoza foi martirizado por indígenas e teve o corpo jogado em um córrego.
No local em que o padre foi encontrado, a água ficou azul. Assim nasceu a comunidade de Água Azul e o ponto turístico com a fonte.
O milagre em Santa Lúcia do Piaí
Outra história marcante do distrito é sobre um milagre da beata austríaca Bárbara Maix, fundadora da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. No inverno de 1944, um morador do distrito, Onorino Ecker, então com quatro anos, teve queimaduras de terceiro grau depois uma brincadeira com os irmãos dar errado e a água quente, que estava em uma panela, cair sobre ele.
A criança foi carregada até o hospital em um pano, fixado em duas varas (o conto do milagre está representado no monumento que existe no distrito). O trajeto até o atendimento era de 15 quilômetros e foi feito a pé. Chegando no local, o médico afirmou que apenas um milagre poderia salvar o menino. A irmã de Onorino, Amélia, e a enfermeira enfermeira Dulcidia Granzotto, convocaram que todos orassem pelo menino em uma novena, invocando a intercessão de Bárbara Maix. Em 20 dias, o menino não tinha nenhuma chaga no corpo.

Ecker viveu até 2019, aos 79 anos, no município de São Lourenço do Oeste (SC).
Dall'Agnol relembra que também existe um segundo milagre creditado a Barbara Maix.
Em 2018, Noeli Dall'Agnol Camelo estava fazendo sabão. O processo precisa derreter a gordura no fogo. Na hora em que ela foi utilizar álcool, soda e gordura junto, a mistura explodiu e pegou fogo. Ela foi toda tomada pelo fogo, teve queimaduras principalmente na parte superior do corpo e teve uma parada cardíaca. Não havia muita esperança dos médicos no caso, como recorda o historiador.
Contudo, novamente a população de Santa Lúcia do Piaí suplicou à bem-aventurada Bárbara Maix. Em 15 dias, Noeli deixou o hospital. Ela está viva.

UBS que já foi hospital
O hospital que existia no distrito, inclusive, é a atual Unidade Básica de Saúde (UBS) de Santa Lúcia do Piaí. Segundo Dall'Agnol, o padre João Marquesi, idealizador da Catedral de Canela, foi quem levantou a campanha para que a comunidade tivesse a própria estrutura hospitalar. Foi o primeiro distrito de Caxias a ter um, o que facilitava os diversos atendimentos de acidentes rotineiros, como de picadas de cobra, na região.
Antes do hospital, um padre, que era o único morador do distrito com um carro, é que levava os moradores ao antigo Hospital Carbone. O hospital funcionou até por volta dos anos 1980. Como recorda Dall'Agnol, o doutor Virvi Ramos (fundador do Hospital Virvi Ramos) estagiou na localidade.





