
No alto dos seus 92 anos, o padre Mário Benvenuto Pedrotti contempla a imagem da Pietà com o olhar sereno e fixo. A escultura que está posicionada à esquerda de quem entra pela porta principal da Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul, não é apenas uma réplica da obra-prima de Michelangelo. Conforme o pároco emérito, a cena em que a Virgem Maria sustenta o corpo de Jesus recém tirado da cruz trata-se de um símbolo profundo da espiritualidade de uma comunidade marcada pela imigração italiana e pela esperança. E neste ano ela celebra 50 anos.
—Ela sempre nos acolhe no colo, como acolheu o seu filho Jesus — diz, emocionado, ao recordar a escultura que, desde 1975, tornou-se símbolo de devoção em Caxias do Sul.
A Pietà da paróquia de São Pelegrino não é apenas uma escultura de mármore de Carrara. É uma réplica fiel da obra-prima de Michelangelo, esculpida entre 1498 e 1499, e exposta na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Por ocasião do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul, em 1975, o papa Paulo VI presenteou Caxias do Sul com essa obra carregada de simbolismo.

O sonho de ter uma réplica de Pietà começou a ganhar forma dois anos antes das comemorações, sob a coordenação do Dr. Oswaldo Goidanich, jornalista e um dos pioneiros do setor do turismo no RS. Ali nasceu a ideia de solicitar ao Vaticano a doação da escultura. O pedido foi encaminhado e recebeu parecer favorável do Papa.
A execução e idealização foram coordenadas pelo brasileiro Deoclecio Redig de Campos (1905–1989), natural de Belém do Pará, historiador de arte e diretor dos museus e galerias do Vaticano à época. Foi ele quem tornou possível a vinda da peça para a Serra, reforçando a ligação espiritual e cultural entre a Santa Sé e a comunidade italiana no Brasil. Os artistas italianos que produziram a réplica foram Ulderico Grispigni, Luciano Ermo e Ennio De Santis.
A cerimônia de entronização (colocação da imagem no altar) e bênção ocorreu no dia 20 de maio de 1975, em uma celebração solene presidida por dom Carmine Rocco, então núncio apostólico no Brasil. Uma multidão se reuniu para ouvir as palavras de Rocco, que evidenciou a força das mulheres nos primeiros tempos da imigração: “As primeiras mães italianas que aqui chegaram e sofreram é motivo para a justa homenagem da Pietà neste centenário da imigração.”
O olhar visionário do padre Giordani
Entre as memórias que ainda vivem na fala pausada de Mário Pedrotti, sobressai a figura do padre Eugênio Ângelo Giordani (1910-1985), pároco da comunidade por décadas. Foi ele quem trouxe da Itália a cruz alpina que atualmente está erguida no jardim da casa paroquial. E foi ele também quem sonhou em colocar em São Pelegrino símbolos universais da fé cristã.
— Quando ele viu a imagem da Pietà no Vaticano, disse: "lá na minha igreja eu tenho a Via Sacra. Eu vou levar a cruz onde Jesus morreu, e vou levar a imagem da Pietà que acolheu Jesus depois que desceu da cruz". E dito e feito, o grande padre Giordani trouxe para cá esses símbolos. Em outra ocasião, ele encomendou também o Santo Sudário, o lençol que cobriu Jesus do túmulo, hoje preservado no interior da igreja — recorda Pedrotti.
Aos pés da escultura estão os restos mortais de Giordani, cuja lápide traz a inscrição em latim “Sacerdos Crédidit” — "O sacerdote que acreditou".
Conforme Pedrotti, cinco décadas depois de sua chegada, a imagem continua a atrair devotos, visitantes e estudiosos da arte sacra.
— Quem passa por São Pelegrino se detém diante da imagem, em silêncio, buscando conforto, esperança ou agradecendo uma graça alcançada. Dificilmente alguém entra na igreja sem ir rezar uma Ave-Maria diante da Pietà — afirma.
No Brasil, apenas três réplicas são oficialmente reconhecidas pelo Vaticano e cada uma foi oferecida com intenção pastoral e histórica. Além da que está na Igreja de São Pelegrino, em Caxias, também há uma na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Urussanga (SC), doada pelo papa Paulo VI, em 1978, e outra na Catedral Metropolitana de Brasília (DF), doada pelo papa João Paulo II, em 1989.
"É uma devoção que a gente acompanha até hoje”, diz casal que presenciou chegada da Pietà
Aos 82 anos, com 61 de casamento, Noemi e Dionísio Bedin guardam na memória uma das cenas mais marcantes de suas vidas: a chegada da Pietà à Paróquia de São Pelegrino, em 1975. Testemunhas do momento histórico, eles recordam com emoção a solenidade que marcou a comunidade.

—Foi uma honra muito especial pra gente. Como somos muito da Igreja, de Deus, aquilo comoveu bastante. Foi muito emocionante podermos estar presentes naquela hora — lembra Noemi.
Bedin complementa:
— Naquele dia foi uma homenagem grande, a cidade em peso estava aqui. Não tinha lugar para o pessoal, de tanta gente. Eu vi quando ela chegou no aeroporto também, naquela caixa enorme. Todo mundo queria ver. Foi uma homenagem muito grande pra São Pelegrino e pra Caxias.
O casal, atuante na comunidade desde a juventude, não apenas presenciou a entronização da imagem como também ajudou a escrever parte da história da paróquia. Cinco décadas depois, a fé do casal diante da Pietà permanece firme.

— Eu sempre entro na igreja e venho aqui rezar para ela. Agradeço pela vida, pela família, pela saúde. Tenho netos, bisnetos, e só tenho a agradecer — afirma Noemi.
Para Bedin, a ligação com a arte e a fé vai além. Ele acompanhou de perto o trabalho do artista Aldo Locatelli na igreja, ainda quando era criança.
— Eu via ele subir e descer a escada para pintar. Ele fez uma obra linda. Conheci também o padre Giordani, que começou tudo. E sobre Pietà, é uma devoção que a gente acompanha até hoje — resume Bedin.
"Queremos manter essa devoção às novas gerações”
Maria Beatriz Spier Vargas, 73 anos, fala da Pietà não apenas como uma imagem que atravessou 50 anos de história em São Pelegrino, mas como uma devoção profunda que molda a vida pessoal e comunitária. Coordenadora geral da catequese há mais de três décadas, ela encontrou em Nossa Senhora da Pietà — também conhecida como Nossa Senhora das Dores — um exemplo de fortaleza e consolo.
— A devoção à Pietà inclui meditar nas sete dores de Maria. E as dores de Maria são as dores de todo ser humano. Ela nos ensina a passar pelo sofrimento com fé, confiança e fortaleza. Quando nós nos confiamos a ela, sentimos que não estamos sozinhos, porque ela já sofreu e nos compreende — explica.

A experiência de 32 anos na vida paroquial tornou-se missão para Maria Beatriz: propagar a devoção às novas gerações.
— Queremos divulgar mais essa devoção tão bonita, que pode nos ajudar tanto. Nesta semana, por exemplo, as crianças e os jovens da catequese vieram até a Pietà, rezaram, entregaram suas preocupações e suas famílias. Foi um momento de aprendizado e espiritualidade. É uma devoção lindíssima, que queremos manter viva para as novas gerações.
Como a réplica de Pietá foi feita
Um documento datado de 15 de janeiro de 1975 e disponibilizado pela comunicação da paróquia de São Pelegrino detalha como foi confeccionada a reprodução da imagem da Pietà de Michelangelo pelos artistas Ulderico Grispigni, Luciano Ermo e Ennio De Santis:

Tradução do documento:
- Foi adotado o sistema do molde em argila.
- O molde foi feito com blocos de argila e todo o conjunto foi revestido com gesso e tela de juta, reforçado com armação de madeira e ferro.
- O molde foi seccionado em oito partes: duas do lado esquerdo, duas do lado direito (chamadas de laterais), três na parte posterior e uma na parte anterior.
- As partes em gesso foram destacadas uma por uma, deixando os blocos de argila sobre a estátua; uma vez retirados da estátua, foram recompostos em suas oito seções em gesso. Nessas oito seções, com seus respectivos blocos, foi vertida uma camada de gesso reforçado com tela de juta.
- Terminada a fundição, foi feita a montagem de todas as oito seções entre si, fixadas internamente por uma camada de gesso e tela de juta, e uma armação de madeira de forma a constituir um corpo único.
- Concluída a fase de fundição, foi feito o trabalho de retoque e depois a patinação.
- Para realizar o trabalho de patinação, foi aplicada uma tinta de base argilosa e várias camadas de cor preparadas com cola, a fim de obter as mesmas características do original.
- Concluída essa fase do trabalho, a peça foi polida com cera.
Imagens históricas
Nesta semana, a comunicação da Paróquia São Pelegrino divulgou fotografias inéditas da produção da réplica da Pietà, da sua chegada à igreja e da missa de entronização em 1975. As imagens estavam em negativos antigos e foram digitalizadas. Confira:
Festa do Cinquentenário da Pietà
A comunidade da paróquia São Pelegrino se prepara para um momento histórico neste sábado (13), quando será celebrada a Festa do Cinquentenário da réplica da Pietà. O pároco, padre Oscar Chemello, destaca que a imagem representa não apenas a paróquia, mas toda a Diocese de Caxias do Sul, por carregar a memória dos imigrantes italianos e simbolizar fé, solidariedade e esperança.
— É uma alegria cuidarmos dessa imagem que resgata a história da imigração, mas que também inspira o presente e o futuro. A Pietà nos lembra das dores, mas também da esperança que acompanha o nosso povo e acolhe as diferentes culturas que hoje fazem parte da Serra gaúcha — afirmou o padre.

A programação deste sábado começa com a missa festiva, às 17h, seguida da Procissão das Sete Dores, no pátio da igreja, e da bênção do altar, em frente ao relógio floral. À noite, às 19h30min, ocorre o jantar comemorativo no salão paroquial, com cardápio típico de festas italianas.
Os ingressos para o jantar estão à venda: R$ 90 para adultos e R$ 45 para crianças de 6 a 12 anos.
Programe-se
- O quê: Festa do Cinquentenário da Pietà
- Onde: Igreja de São Pelegrino (Av. Itália, 54, bairro São Pelegrino, Caxias do Sul)
- Quando: sábado (13)
- 17h: missa festiva
- 18h: procissão das Sete Dores
- 18h45min: bênção do altar
- 19h30min: jantar festivo



