
O Centro Pop Rua é a porta de entrada dos serviços de atendimento às pessoas sem teto em Caxias do Sul. É a partir de lá que quem nada tem pode tomar um banho, comer, lavar roupas, receber ajuda para obtenção de documentos, ter auxílio de psicólogos e assistentes sociais e ser encaminhado a uma casa de passagem.
O caminho para deixar a sombra das marquises e os pedidos por trocados nos semáforos, contudo, não é uma via reta. Pelo contrário, é um trajeto sinuoso, com idas e vindas. Um levantamento da Fundação da Assistência Social (FAS) demonstra que o tempo médio de permanência nos refúgios oferecidos é de um a 15 dias.
— A principal dificuldade é o morador em situação de rua aderir ao serviço de acolhimento. As casas têm regras e eles não conseguem cumprir. Trabalhamos com o convencimento. Se ofertamos e eles não querem, não temos como obrigar — confessa Samara Bristot, gerente do Centro Pop Rua.

Pelo menos três condições costumam endurecer a missão: dependência química, problemas de saúde e transtornos mentais e a identificação com a rua.
— Quanto mais há identificação com a rua, mais difícil é resgatar aquela pessoa. Tem pessoas que verbalizam que não têm interesse em sair das ruas, que ficar num espaço fechado é tortuoso, impossível. Nesses casos, eles já criaram um mecanismo de vida na rua — aponta a diretora de Proteção Social Especial de Média Complexidade da FAS, Cristiane Oliboni.
Caxias conta com três casas de passagem e um pernoite — veja endereços abaixo —, além de três centros de atenção psicossocial (Caps), que possuem vagas limitadas, geridas via SUS.
Entre as normas de convivência nos abrigos estão cumprir horários de entrada, refeição e atividades; não consumir drogas, com exceção do cigarro; proibido qualquer tipo de violência, de verbal a física; e vedado o uso de armas ou itens que possam ferir outra pessoa.
As regras são explanadas aos usuários durante os chamados grupos de regulação de vagas, no Centro Pop Rua. No caso de descumprimento das diretrizes, o usuário é suspenso dos serviços por 15 dias. Segundo a FAS, essa determinação foi debatida e acordada em assembleia pelas equipes com os próprios frequentadores das casas.
— Tudo ocorre mediante conversação com equipes técnicas: tem assistente social e psicólogo que fazem um plano de atendimento individual para a saída das ruas. A partir da entrevista, pensamos juntos as possibilidades. Precisa de documentação? Precisa de capacitação para entrar no mercado de trabalho? — detalha a diretora.
Quanto mais há identificação com a rua, mais difícil é resgatar aquela pessoa
CRISTIANE OLIBONI
Diretora de Proteção Social Especial de Média Complexidade da FAS
As pessoas que vivem na rua podem chegar por conta no Centro Pop ou direcionadas por meio da abordagem social de equipes da FAS, que ocorrem pela manhã, tarde e noite, de segunda a sexta. Nos fins de semana e feriados, a atuação é por sobreaviso.

Como não há uma contagem oficial desse público, a prefeitura trabalha com dois dados: uma média mensal de 520 pessoas diferentes que acessam o serviço e o registro de 1.047 usuários com status de morador de rua no Cadastro Único (CadÚnico).
— Há um número expressivo de pessoas que chegam em Caxias. É o único município da Serra com Centro Pop Rua e os municípios vizinhos acabam demandando devido à rede que dispomos. Mas cada município tem que pensar em suas políticas públicas. Caxias tem estrutura, mas arca com mais de 95% do valor destinado para a assistência social — pondera a diretora da FAS, referenciando que o órgão conta com cerca de R$ 3 milhões de verba do município.
A batalha de Eduardo
Nas esquinas do bairro São Pelegrino, é comum ver Eduardo Cardoso, um homem de 32 anos que vive em situação de rua e que costuma circular pela região. Geralmente ele é visto na Rua Feijó Júnior, entre as ruas Bento Gonçalves e a Vinte de Setembro, e na Vinte de Setembro com a Coronel Flores.
Eu era hiperativo, não conseguia ficar quieto
EDUARDO CARDOSO
Morador de rua
Recentemente, rodaram pelas redes sociais imagens dele detido por populares, em uma noite de fim de semana, após ter quebrado a janela de um carro na Feijó. A atitude agressiva é recorrente, segundo moradores e comerciantes da região.
— Ele está sempre por aí, para lá e para cá. Ele pede dinheiro e, quando não recebe, fica bravo. Mulher motorista, principalmente, quando não dá dinheiro, ele quebra o espelho do carro — relata um taxista, que não quis se identificar.

Ele é acompanhado por equipes de acolhimento desde maio de 2016, de acordo com a FAS. O órgão da prefeitura informa que Eduardo frequentemente demonstra resistência em aceitar ofertas para ir ao Centro Pop Rua ou para uma casa de acolhimento.
Por vezes, aceita os convites de assistentes sociais para tomar café da manhã e cuidar da higiene pessoal, mas interrompe a continuidade do atendimento. Ainda conforme a FAS, Eduardo apresenta transtornos psiquiátricos. Recorda-se de dormir na rua desde os 17 anos. Apesar de ter nascido em São Francisco de Paula, se mudou para Caxias com os pais quando ainda era criança.
— Quando eu tinha 10 anos, meu pai morreu trabalhando e minha mãe morreu por causa de um câncer — conta ele, explicando, enquanto fumava um cigarro cedido por um pedestre, que chegou à adolescência sob cuidados de um dos irmãos.
Na escola, enfrentou problemas desde cedo:
— Fui expulso de vários colégios por incomodar. Eu era hiperativo, não conseguia ficar quieto.
A justificativa para a reação contra o vidro que quebrou em um dos carros é a falta de respeito, alega:
— É que às vezes me xingam muito. Naquele dia, o cara (motorista) me ofendeu e eu avancei nele. Eu só peço dinheiro, e faz anos que peço.

O homem afirma que é ajudado por equipes da prefeitura, mas que não se encaixa com o regramento das casas de passagem, como a Carlos Miguel dos Santos.
— Na última casa que fiquei, briguei com um cara que já estava lá e nos botaram para fora. Faz uns quatro meses. Mas lá é legal por causa do café da manhã — considera.
Ainda que receba ajuda, Eduardo confessa que não consegue superar a dependência química. Mas não por falta de tentativa, segundo ele.
A diretora da FAS, Cristine Oliboni, salienta que a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) pode autorizar uma internação compulsória. Entretanto, apenas em casos extremos, quando o cidadão se coloca em risco. Cada situação precisa ser avaliada, conforme ela:
— A questão do Eduardo é de saúde. É uma pessoa que conhece nossos serviços, já frequentou, mas não consegue permanecer pela dificuldade tanto da dependência química quanto pelo transtorno mental.
A redenção de Anderson

— A pessoa precisa colocar na mente que deu. Não adianta a família, amigos, ninguém. Tu não tem que parar pelos outros, tem que parar por ti, irmão. É tu e Deus. Tem que dar um basta.
O ensinamento acima é de Anderson Pezzi Vieira, 37, que contabiliza uma experiência de cerca de seis anos vivendo em situação de rua. Seu maior inimigo foi a dependência química, que iniciou ainda na juventude: o álcool e o crack.
É caxiense, viveu riscos desde o nascimento prematuro, com seis meses de gestação. Sem a presença dos pais, foi criado pelos avós Verônica e Albino. Estudou apenas até a sétima série.
— Só que eu fui muito mimado, meu avô me dava tudo. Sempre tive o que eu queria e na hora que eu queria. Com a morte dele, comecei a usar drogas mais vezes na semana — conta.
Aos 31 anos, relembra que saiu de casa pela primeira vez para viver sem um teto. Começava então uma jornada que incluiu passar dias sob efeito de entorpecentes na Praça Dante Alighieri, sem comer ou dormir. Ou, ainda, de ócio atrás do Fórum, perto da União das Associações de Bairros (UAB).
— Vai fazer dois anos que cortei o vício. Na noite de um sábado eu estava atrás do Fórum com um amigo, o Johnny. Eu tinha R$ 20 no bolso, comprei uma pedra de crack para ele e uma pra mim, a última da minha vida. No domingo, eu já não quis mais nada. Na segunda-feira fui no Centro Pop Rua e pedi acolhimento — descreve.

No ano passado, na segunda e última passagem pelo serviço de acolhimento, a FAS aponta que Anderson apresentou-se mais disposto ao processo de reorganização pessoal. O acompanhamento das equipes e o esforço somaram-se para a superação das ruas e o retorno ao mercado de trabalho.
É preciso largar totalmente das drogas. Dependentes químicos não podem colocar uma gota de álcool na boca porque um chama o outro. Você fuma um cigarro e vai querer automaticamente beber. Eu cortei tudo, não me faz falta.
ANDERSON PEZZI VIEIRA
Caxiense que viveu na rua durante seis anos
Hoje, ele trabalha na Stok Center, em Caxias, há mais de um ano. Tem a função denominada Operador nível 3, em que cuida do centro de distribuição e acompanha trocas de produtos quebrados e o recebimento de mercadorias. A empresa também o capacitou com um curso para operação de empilhadeira.
— Eu gosto do meu trabalho, sou grato. Três vezes entreguei currículo aqui. Na terceira, vim pessoalmente conversar com o RH. Preenchi o formulário para o emprego e me disseram: "você não tem endereço". Eu respondi: "pois é, eu moro na rua, mas faz três meses que estou sóbrio, preciso de uma oportunidade, quero sair dessa vida" — relata ele, que é reconhecido pela dedicação: chega todos os dias duas horas antes do início do expediente.
De carteira assinada, Anderson alugou uma casa e comprou um carro. Mas não pretende parar por aí. Revela que quer se capacitar ainda mais profissionalmente e seguir sonhando:
— Meu objetivo maior, para meu coração ficar tranquilo, é conquistar minha casa. Quero ver a minha avó dizer: "o Anderson comprou a casa dele".



