
O canto dos pássaros ecoa pela mata. O sol, tímido no céu nublado, ilumina a trilha tracejada por pedras. Poucos metros adiante, um pequeno córrego surge no caminho. Pode parecer cenário de histórias, mas o espaço descrito fica no Parque Ecológico Municipal Honorato Toniolo, em Guaporé. É ali, entre as árvores, em contato com a natureza, que um grupo de crianças começa a rotina.
Há uma década, a área de preservação municipal foi cedida e se tornou a sede de um projeto educacional: a Cidade Escola Ayni. Aberto à comunidade desde 2018, o espaço acolhe 28 crianças e suas famílias no contraturno escolar.
Guiado por um programa de educação que une a agroecologia, relações intrapessoais, respeito à natureza e às pessoas, o espaço combina os conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com experiências práticas, livre de direcionamentos por parte dos educadores.
— A gente trabalha um modelo de educação em que a criança é protagonista do aprendizado. Ao lado delas, as famílias são convidadas a participar e vivenciar a Ayni — explica o idealizador e fundador do projeto, Thiago Berto.
A metodologia adotada na Ayni não prevê planejamento de aulas, cronograma de conteúdos, trabalhos ou provas. As crianças são livres para escolher o que querem fazer, tudo com o acompanhamento dos educadores.
— A BNCC determina as habilidades e conhecimentos que as crianças precisam aprender, mas não indica como isso deve ser feito. O ensino tradicional traz esse conceito de aulas com provas, mas isso não significa que esse seja o único formato de educação — pontua o educador Allan Farah.
Outro aspecto considerado fundamental pela da Ayni é o acolhimento gratuito. Em 10 anos de atuação, nenhuma família que participou das atividades teve que arcar com contrapartidas financeiras. Desde que abriu as portas o projeto vem sendo custeado por formas alternativas de renda.
— O custo mensal da Ayni é de R$ 50 mil. Para manter o projeto temos um hotel, no centro de Guaporé, que toda a renda é revertida para a escola. Ainda, vendemos cursos em uma plataforma digital, realizamos visitas e somos patrocinados por empresas de São Paulo, Santa Catarina. Os pais podem fazer doações, se assim quiserem, mas por essência não temos esse vínculo financeiro com as famílias — explica Berto.
Como funciona a Ayni
O dia começa entre 8h e 9h, quando as crianças chegam acompanhadas pelos pais, atravessando o bosque até a estrutura física da Ayni. O espaço conta com três salas principais, chamadas de ateliês, que funcionam como referência para os alunos. Um deles é voltado para crianças de quatro a sete anos, outro para as de sete a 12. O terceiro é de uso coletivo.
Nesses ambientes há uma variedade de materiais pedagógicos — livros, jogos, brinquedos, ferramentas, utensílios de cozinha, computador e até impressora 3D — que estimulam a curiosidade e o aprendizado. A proposta é que, tanto nos ateliês quanto no bosque, as crianças encontrem motivações para explorar temas e atividades de forma espontânea.
A reportagem chegou à Ayni numa terça-feira, às 9h30min, e encontrou as crianças divididas em pequenos grupos. Risadas se misturavam ao som de marteladas: eles estavam construindo um varal de roupas. Naquela manhã, também acenderam uma fogueira, fizeram pipoca e utilizaram ferramentas para criar outros objetos. Em todas as atividades, havia educadores presentes, garantindo segurança e apoiando os processos. A rotina na Ayni é guiada pelas próprias crianças, que decidem quando comer, descansar ou se envolver em alguma atividade.
— A gente promove oficinas, realiza atividades como plantio na agrofloresta, mas elas são livres para escolher participar ou não. E é isso: as coisas acontecem de forma genuína — detalha Allan.
Segundo ele, a proposta da Ayni está fundamentada em três pilares: economia consciente, cuidado com a terra e educação. A partir das vivências, as crianças desenvolvem habilidades de reconhecimento do ambiente, do corpo e do outro, além de aplicarem conhecimentos adquiridos na escola tradicional, que frequentam no turno da tarde. Todo o processo é documentado com fotos, vídeos, áudios e relatórios, e contempla também as competências previstas pela BNCC, integrando aprendizado formal e experiências práticas.
Predileção para a vida
Apesar do projeto não cobrar mensalidade, uma série de combinados é estabelecida com os pais e responsáveis. Além da frequência mínima de 60%, as famílias devem realizar trabalho voluntário no espaço a cada 15 dias; os pais devem visitar a Ayni ao menos duas vezes no ano; participar das reuniões coletivas e individuais; receber a equipe da Ayni em casa, uma vez no ano; e adotar as práticas em casa.
Combinados esses que parecem simples para quem escolheu cruzar o país só para garantir uma vaga na Ayni. É o caso de Alexandre Paiva, 64 anos, e Kelly Lemos, 47, que há seis anos trocaram o Rio de Janeiro por Guaporé. O motivo foi proporcionar uma experiência de educação diferenciada ao filho Luigi, hoje com nove anos.
— Ficamos uma semana aqui, em uma experiência que era chamada Vivência, isso lá em 2018. Um ano depois nos mudamos. O Luigi começou a frequentara a Ayni com três anos e hoje é o aluno mais antigo. Aqui, ele sabe que os adultos irão respeitá-lo, vão escutá-lo e dar limites. Acho que a escola tem muito disso: limites fortes, mas liberdade muito forte também. Outra coisa linda que vemos aqui é a forma como as crianças são ensinadas a lidar com conflitos — aponta Kelly.
Quem também passou por uma mudança para se juntar à Ayni foi Fernanda Dahmer, 24, e Luísa, de sete. Ela conta que a decisão de deixar Santa Catarina aconteceu em 2021, em meio a uma rotina que a impedia de ter uma convivência próxima da filha. Atualmente ela integra o grupo de educadores do projeto.
— O que nós vivemos aqui é o reflexo da nossa rotina. A Ayni reforça um estilo de vida que eu já considerava importante, que busca o relacionamento respeitoso, entender o outro, se conectar com o espaço. Acredito que é importante para a Luísa ter essa vivência para decidir como ela quer se relacionar com o mundo, como ela vai enxergar a vida — explica Fernanda.
Os passos da próxima década
Com uma década de atividades, celebrada no próximo dia 22, a Ayni se prepara para uma nova fase. A instituição planeja deixar o contraturno escolar para se tornar uma escola formal de Educação Infantil. A ideia é que duas turmas sejam criadas, com 15 crianças cada, uma na manhã e outra de tarde.
O processo de abertura de novas escolas Educação Infantil é regrado pelos Conselhos Municipais de Educação. Em Guaporé, quem lidera o grupo é Simone Vieira Cardoso. Segundo ela, assim que a instituição protocolar o pedido, uma comissão é formada para analisar a documentação.
Dentro de um ano, a instituição proponente deve apresentar o Projeto Político Pedagógico e o Regimento escolar, que será submetido a avaliação da comissão. Ainda, a infraestrutura da escola deverá estar adequada à Portaria SES RS nº 940/2022 e à Resolução CNE/CEB 01/2024. Entre vários aspectos, essas legislações regulamentam como deve ser a infraestrutura das escolas.

Ainda, a Ayni busca parcerias com empresas para finalizar uma área na entrada do bosque, onde deverá ser a biblioteca, recepção e uma loja de produtos para os visitantes. A escola oferece o naming rights (direito de nome) para quem se interessar em finalizar a obra. A ideia é que a estrutura esteja completa até 2035, quando a administração será repassada para a Secretaria Municipal de Educação de Guaporé.
A municipalização é parte do projeto que deu origem à instituição. Em 2015, quando a Ayni foi concebida por Thiago, o município concedeu a área para a escola pelo período de 20 anos. Em 10 anos, quando a cedência é finalizada, o espaço retorna para a prefeitura, com a estrutura e a comunidade escolar inclusa.
— Conceber e ver a Ayni em pleno funcionamento é uma bênção. Sempre digo que foi Guaporé que escolheu a escola. Vivi aqui minha infância e minha adolescência na cidade. Quando chegou o momento de tirar o projeto do papel, lembrei do bosque e foi ali que tudo nasceu. Então, daqui 10 anos nós devolveremos o espaço para o município com a estrutura, com uma referência de educação e muitas crianças e famílias beneficiadas. Fizemos de Guaporé uma referência e isso me realiza e deixa meu coração contente — completa.
À reportagem, o secretário municipal de Educação, Gustavo Marques, acenou que se a prefeitura assumisse a Ayni hoje, teria problemas em realizar a manutenção na estrutura, devido às "construções quase únicas". Ainda, a atual administração da prefeitura indicou a possibilidade de renovar a cedência. Contudo, a decisão possivelmente será tomada no futuro.





