
Entender como lidar com as próprias emoções no dia a dia é um desafio que se apresenta também no ambiente de trabalho. Prevenir reações impulsivas, construir relacionamentos saudáveis e ter a capacidade de tomar decisões sob pressão — atributos altamente desejáveis no mercado — estão reunidos em um tópico: inteligência emocional.
No ambiente organizacional, ela pode ser entendida como uma soft skill: as competências que dizem respeito ao comportamento — ética e empatia são outros exemplos. É diferente das hard skills, relacionadas ao conhecimento técnico.
A psicóloga e vice-presidente de Desenvolvimento da ARH Serrana, Débora Brandalise Bueno, aponta que a demanda por esse requisito tem crescido especialmente após a pandemia de covid-19.
O cultivo da inteligência emocional, entretanto, não é somente dever de cada colaborador. As empresas estão entendendo que precisam apoiar o processo.
— A inteligência emocional é muito pessoal. Pode ter treinamento, vivências para autoconhecimento, mas não há inteligência emocional que suporte ambiente de trabalho tóxico, onde acontecem assédios, cobrança excessiva e não existe diálogo. O ambiente saudável é onde as pessoas se sentem bem e conseguem enxergar sentido no trabalho delas — explica a especialista.
Quando acontece o match, os ganhos são visíveis principalmente em produtividade e engajamento, conforme Débora. Os benefícios ultrapassam, inclusive, os limites das companhias:
— Se consigo lidar com adversidades no trabalho, isso vai se estender no trânsito, em um encontro pessoal, em uma conversa difícil em casa.
A psicóloga pondera que não há receita para aperfeiçoamento da capacidade de inteligência emocional, já que cada empresa tem sua cultura.
Professora na Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a psicóloga Maria Beatriz Rodrigues reforça que o exercício de autoconhecimento é de cada um:
— A definição de inteligência emocional é a capacidade de autoconhecimento. No momento em que: eu me conheço, eu conheço as minhas reações, eu tenho controle das minhas emoções, então eu consigo empatizar melhor. É um conceito individual. Pode ser trabalhado ou ser desejado em determinadas funções, com muitas pessoas e, de alguma forma, reverberar na organização.
Confira, abaixo, duas companhias da Serra que trabalham iniciativas voltadas ao bem-estar emocional nos respectivos quadros de colaboradores.
"Com pessoas seguras, há inteligência emocional"
A Cyncly (antiga Promob), em Caxias do Sul, aposta em treinamentos para lideranças, expediente em modelo híbrido, espaços de bem-estar — como alimentação, jogos e lazer — e benefícios no contrato de trabalho para colher o melhor das equipes. A empresa, presente em 43 países, desenvolve softwares especialmente para o setor moveleiro e conta com cerca de 450 funcionários na cidade. A sede local, de 3,1 mil metros quadrados, fica no bairro Cinquentenário.
— Temos treinamentos para comportamento de lideranças e suporte aos funcionários. Trabalhamos com feedback contínuo, com processo de avaliação de performance, onde o gestor senta com o funcionário para dar feedback. Temos políticas de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e parceria com aplicativos voltados à saúde mental e para academia — lista a diretora de RH, Lívia Valente.
Como exemplo, ela cita o programa de imersão, denominado Rise, que trabalha conteúdos comportamentais durante três dias. O alvo são as lideranças da empresa. A iniciativa busca estimular o autoconhecimento, autodesenvolvimento, relacionamento com pares e superiores, comunicação não violenta e carreira.

Além do bem-estar em si, a ideia é lapidar colaboradores para atingir resultados: capacidade de negociação e resolução de conflitos, pensamento estratégico, adaptabilidade e resiliência.
— Isso tudo dá segurança, e quando as pessoas se sentem seguras, a inteligência emocional vem — assinala Rubia Mara Peruchin, consultora interna de RH.
Um dado que sustenta a eficácia da gestão, segundo Lívia e Rúbia, é que no ano passado foram jubiladas em torno de cem pessoas, que completaram de cinco a 30 anos de vínculo empregatício com a Cyncly.
"A empresa me ouviu, hoje sou aluno de mestrado"
O desenvolvedor de software Leonardo Martelli Oliveira, 24 anos, é um dos próximos a serem homenageados ao completar os primeiros cinco anos de empresa. Bacharel em Ciência da Computação, ele relata que o seu ofício possui níveis de estresse e de responsabilidade elevados. Porém, o setor de recursos humanos dá o suporte necessário, considera o colaborador:
— Temos autonomia para fazer nosso trabalho e as lideranças são transparentes. A empresa está sempre com ações ativas para minimizar a pressão e o estresse, seja com benefícios ou culturalmente. Um dos principais motivos para eu estar há tanto tempo na empresa é o impacto do nosso trabalho, dentro da empresa e para os clientes.

Ao concluir a graduação no fim de 2023, Oliveira observou uma demanda dentro da empresa que o motivou a dar início ao mestrado em Computação Aplicada na Universidade de Caxias do Sul (UCS). A Cyncly acolheu a proposta do jovem e dá subsídios ao projeto.
— A empresa me ouviu, hoje sou aluno de mestrado em uma parceria com a empresa. O resultado desse trabalho será utilizado para o cliente final — afirma.
O jovem também destaca iniciativas da companhia como auxílio-idioma — espanhol e inglês, que é a língua oficial da empresa — e flexibilidade no horário de trabalho.
— O principal retorno que temos é o engajamento: em produtividade, em entrega para os clientes e em resultado — complementa a diretora de RH.

Enchente como gatilho para cuidado mental
A unidade caxiense da Palfinger, empresa quase centenária que serve soluções para movimentação de cargas e pessoas, também investe em saúde mental. Recentemente foi feito um treinamento de 15 horas, divididas em cinco sessões, com a participação de mais de 50 funcionários.
Os encontros tiveram como foco experiências e informações para conscientização sobre transtornos mentais, emergências psicossociais e situações que impactam a saúde mental.
O gatilho para colocar o programa em prática, de acordo com a gerente de RH da empresa, Tatiane Chilo, foi a enchente do ano passado, que afetou colaboradores da Palfinger e exigiu ações de suporte.
— A ideia é preparar a gestão, porque quando temos algum tipo de questão que envolve saúde mental ou inteligência emocional, as primeiras pessoas a serem procuradas são os líderes. Queremos um ambiente de trabalho saudável, inclusivo e acolhedor. O colaborador precisa se sentir apoiado e fortalecido para alcançar o seu melhor desempenho profissional e pessoal — aponta.
Tatiane revela que a Palfinger recebeu, pelo sétimo ano seguido, o selo Great Place to Work (GPTW), que é concedido a empresas que possuem ambientes positivos para se trabalhar. A sede na cidade fica no bairro Salgado Filho e possui 519 colaboradores ativos.

