
Pouco mais de um ano depois que parte substancial da mata nativa da Serra foi destruída pela chuva de maio, um programa que envolve cinco universidades, o governo gaúcho e uma organização social prepara ações para restaurar a Mata Atlântica perdida na região e o Pampa em outras localidades do Estado.
Lançado em março, o Projeto Reflora prevê a recomposição de florestas danificadas pelo aumento do nível de rios, desmoronamentos ou enchentes. Para isso, mais de 6 mil mudas de 30 espécies nativas serão estudadas, desenvolvidas em viveiros e plantadas em regiões afetadas que serão previamente mapeadas (veja a lista das árvores selecionadas abaixo).
Dividido em três fases, com um ano de duração cada, o projeto será executado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).
O anúncio da parceria com as instituições ocorreu no final de julho. As equipes das quatros universidades serão as responsáveis por ir à campo, reconhecer os locais atingidos e colher amostras das árvores que serão estudadas e desenvolvidas em viveiros. As saídas estão previstas para ocorrer entre agosto e setembro.
De posse das amostras, as equipes universitárias passarão a utilizar tecnologias desenvolvidas pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), de Minas Gerais, para preparar as mudas para o plantio. Essa fase está prevista ao longo de 2026.
O plantio das árvores deve ocorrer apenas em 2028. Contudo, caso os processos se antecipem, há chance das primeiras mudas serem integradas à natureza ainda no próximo ano.
O projeto conta com aporte financeiro de R$ 7,5 milhões, destinados pela multinacional chilena CMPC, que produz celulose, pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e pela UFV.
Todas as ações estão sendo organizadas pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), em parceria com as universidades.
Tecnologia aplicada na recuperação de Brumadinho, agora na Serra e em todo RS
Árvores que levam uma década para florescer, se desenvolvendo em cerca de seis meses. A tecnologia criada pela UFV, com base na indução do florescimento precoce, é a grande aposta para recuperar mais rapidamente as áreas de Mata Atlântica e Pampa destruídas pela chuva e enchente de 2024.
O engenheiro florestal e pesquisador da universidade mineira, Gleison dos Santos, explica que essa técnica é baseada em um conjunto de hormônios que são inseridos nas mudas, fomentando o crescimento acelerado.
— Dessa forma as árvores fazem a transição da fase juvenil para a adulta mais rapidamente. Começam a dar flores e frutos, atrair a fauna local. Os animais que se alimentam dessas sementes espalham esse material, que vai originar novas árvores. Assim, o ecossistema se restaura de forma muito mais rápida — detalha.
Essa tecnologia, desenvolvida e patenteada pela UFV será compartilhada com as quatro universidades gaúchas, para ser implementada de forma inédita no Estado. Segundo Santos, a técnica é implementada há seis anos na recuperação das áreas atingidas pelo rompimento das barragens de Brumadinho e Mariana. Nesse período mostrou resultados positivos nas mais de 30 espécies testadas.
— Claro que o Rio Grande do Sul tem diferenças no solo e no clima, é mais frio do que os lugares que já estamos usando a técnica. Mas o projeto tem três anos para que possamos analisar tudo. Mesmo assim, as perspectivas são muito altas. A gente acredita que a técnica vai funcionar muito bem.

Mais do que uma ação ambiental, um grande laboratório de pesquisa
Concebido como um plano de recomposição da Mata Atlântica e do Pampa, o Projeto Reflora também irá fomentar a pesquisa científica sobre os biomas locais e a adaptabilidade das técnicas nas diferentes regiões do Estado.
As pesquisas sobre o desenvolvimento das 30 espécies nativas deverão gerar bolsas de iniciativa científica, além de teses de mestrado e doutorado nas quatro universidades parcerias.
Ainda, conforme o coordenador do projeto pelo governo estadual, Jackson Brilhantes, um banco de DNA das plantas está previsto para ser criado a partir dessas pesquisas. O material genético será usado para a conservação e o melhoramento.
— Essa ação é essencial para construirmos um banco de sementes, que por sua vez serão usadas para o desenvolvimento de árvores. Essas plantas nativas serão usadas para restaurar locais que poderão ser atingidos por futuras enchentes e para atender os requisitos legais de propriedades rurais — aponta.
O coordenador indica que as mudas coletadas nas áreas de mata, como galhos, serão encaminhadas para um pomar de Santa Maria, onde há o Centro de Pesquisas do governo do Estado. É lá que uma parte das equipes universitárias irá trabalhar para aumentar a oferta de sementes, multiplicando as mudas e aperfeiçoando a qualidade delas.
Porque é necessário recuperar a mata nas áreas atingidas por deslizamentos
Dados da SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados em maio deste ano, colocam o Rio Grande do Sul como líder no desmatamento do bioma Mata Atlântica em 2024.
A alta taxa de perda da mata nativa, mais de 1,6 mil hectares desmatados, é relacionada com os desmoronamentos ocorridos no ano passado. Na Serra, três cidades lideraram o desmatamento: Cotiporã, Dois Lajeados e Veranópolis. Juntos, os municípios somam 582 hectares de flora perdidas.
Conforme a especialista em florestas e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sandra Muller, ouvida pela reportagem meses depois da chuva, enchentes e deslizamentos de terra, a recomposição da mata nativa é uma medida essencial para manter a estabilidade nas regiões afetadas.

— Considerando que tenha um entorno florestal, a regeneração natural pode ocorrer em quatro ou cinco anos. Mas a cobertura arbórea vamos começar a perceber em uns 10 anos. Por isso, implementar ações de recuperação são imprescindíveis – reforça.
Segundo a professora, enquanto o solo fica exposto ao clima, o risco de novos deslizamentos ocorrerem é real, assim como a possibilidade de a área degradada aumentar e gerar mais perda de solo e de mata.
Ainda, os detritos que caem das encostas, como pedras, solo e troncos, contribuem para o assoreamento dos rios da região, situação que pode se agravar em caso de novos episódios de chuvas intensas. Isso porque os rios podem aumentar de nível rapidamente, causando mais perdas de mata e problemas na estrutura viária.
Árvores nativas selecionadas para o Projeto Reflora
- Eugenia involucrata - Cerejeira
- Paraptadenia rígida – Angico vermelho
- Plinia peruviana – Jabuticaba de cabinho
- Blepharocalyx salicifolius - Murta
- Myrcianthes pungens - Guabijú
- Casearia sylvestris – Chá de bugre
- Campomanesia xanthocarpa - Guavirova
- Myrsine umbellata - Capororoca
- Myrsine coriacea – Capororoca ferrugem
- Lueha divaricata – Açoita-Cavalo
- Tetrorchidium rubrivenium - Canemaçu
- Citharexylum myrianthom – Tarumã-Branco
- Cordia trichotoma – Louro-pardo
- Handroanthus albus – Ipê-Ouro
- Myrocarpus frondosus - Cabreúva
- Myracrodruon balabsae – Pau-Ferro
- Gochnatia polymorpha - Cambará
- Patagonula americana - Guajuvira
- Ilex paraguariensis - Erva-mate
- Cedrela fissilis - Cedro
- Erythrina falcata - Corticeira da serra
- Acca sellowiana - Goiabeira serrana
- Psidium cattleyanum - Araçá amarelo
- Psidium cattleyanum var. purpuraceum - Araçá vermelho
- Inga marginata - Ingá-feijão
- Eugenia uniflora - Pitangueira
- Erythrina crista-galli - Corticeira do banhado
- Cabralea canjerana - Canjerana
- Enterolobium contortisiliquum - Timbaúva
- Handroanthus heptaphyllus – Ipê roxo
- Mimosa scabrella - Bracaringa
- Apuleia leiocarpa – Grápia
- Sebastiania commersoniana - Branquilho
- Peltophorum dubium - Canafístula
- Eugenia pyriformis – Uvaia



