Tranquilidade, segurança, contato com a natureza e oportunidades de emprego e de fazer negócios: essas características têm em comum o fato de serem citadas por moradores de Gramado como o motivo de terem ido morar lá - ou o motivo de nunca terem saído. Para a Marta Strahl, empresária de 48 anos, os motivos são todos esses e mais um: os canteiros floridos o ano todo.
— Eu trouxe meu marido de Taquara pra morar comigo na zona rural de Gramado há mais de 20 anos. A gente ama esse contato com a natureza, essa tranquilidade mesmo estando em uma cidade bem estruturada e que te entrega tudo que tu precisa, mas pra mim o mais charmoso são as flores. Os canteiros estão sempre bem cuidados e renovados, eles mostram um capricho que a gente tem com aquilo que é nosso — afirma ela.

De acordo com a prefeitura, só neste ano foram plantadas cerca de 1,2 milhão de mudas de flores na cidade - sem contar as milhares de mudas de hortênsias que são distribuídas gratuitamente a famílias do interior todos os anos. Essa beleza na decoração e na arquitetura reforça um imaginário de Gramado como um lugar perfeito para fotos turísticas. Para o fotógrafo Douglas Larry Flores, de 33 anos, significa ainda mais: um lugar onde os sonhos podem ser realizados. Ele não pensou duas vezes quando saiu da casa dos pais, em Canoas, na Região Metropolitana, e decidiu vir para Gramado para construir uma nova vida:

— Eu morei em outros três estados brasileiros antes de vir pra cá. Hoje, só vou embora se for pra sair do Brasil. É uma cidade com custo de vida mais alto? Sim, mas compensa pelo que nós usufruímos na segurança, na saúde pública e na qualidade de vida. Aqui, conquistei minha independência financeira e minha liberdade pessoal, e sabe que até esse frio se torna aconchegante com o tempo? — afirma, enquanto edita fotos de casais que resolveram eternizar a visita a Gramado em um ensaio romântico.
Quem também gosta do frio da cidade, mas por outro motivo, é a Claudicéia Oller, que veio de Sorocaba (SP) com o marido e o filho, em 2017. Ela é gerente de uma loja que aluga roupas de inverno para turistas:
— Antes, eu vinha como turista, gostei tanto que acabei ficando. Gramado conquistou meu coração, uma cidade limpa e acolhedora.

A ‘Clau’, como é chamada pelos colegas de trabalho, atende turistas do Brasil inteiro todos os dias, mas age como legítima gramadense quando comenta que o desconto para moradores em restaurantes poderia ser maior. Hoje, quase todos os estabelecimentos da cidade praticam um desconto médio de 10% ao morador. Como empreendedora, ela entende que os finais de semana são diferentes na cidade:
— O gramadense curte os bares e parques durante a semana, porque a partir de sexta-feira a gente trabalha ainda mais e o turista é que se diverte — complementa ela.
Outro morador que percebe a diferença antes e depois das sextas-feiras é o açougueiro Graciano Gabriel, de 40 anos. Ele viveu a vida toda na cidade, e conhece quase todos os clientes que atende durante a semana:
— Já nos finais de semana, eu atendo mais turistas, pessoas que de repente eu vou atender uma vez na vida… então não sei quem vai entrar pela porta. Por isso, nos finais de semana preparamos cortes mais variados pra agradar públicos diferentes — comenta ele.

O Graciano mora no centro da cidade e afirma que, às vezes, o estacionamento é um desafio. De acordo com a prefeitura, existem 1165 vagas na área central hoje, e um projeto de lei já foi aprovado na câmara para criar mais 203 vagas ainda este ano.
— Especialmente em datas comemorativas, a cidade fica ainda mais movimentada e é difícil achar vagas, mas por outro lado, vemos nessas horas que Gramado consegue se manter uma cidade limpa e segura até nesses momentos — complementa, enquanto pesa um corte de acém bovino.
E foi justamente o estacionamento rotativo das vagas disputadas do centro de Gramado que proporcionou uma nova vida ao Jocemar Mello, que trabalha como monitor de estacionamento de dia, mas se ‘transforma’ no Capitão Rodrigo aos finais de tarde, trajado com a típica indumentária gaúcha para tirar fotos com turistas.
Ele saiu de Santa Maria, na Região Central, aos 27 anos de idade e veio pra Gramado para buscar qualidade de vida. Hoje, aos 57, o ex-policial militar afirma que não trocaria a cidade por nenhum outro destino:
— As pessoas me vêem pilchado e me tratam bem, mas me respeitam ainda mais quando estou trabalhando monitorando o estacionamento dos carros, porque sabem que isso faz parte do cuidado com a cidade e faz parte da cultura de manter a educação que existe aqui. As pessoas em Gramado têm uma elegância e um modo diferente de lidar, e eu valorizo muito isso pro turista e pro morador — comenta.
Isso não é só impressão. Segundo a Secretaria Municipal de Turismo, foi na década de 1970 que Gramado começou a investir em cursos preparatórios para qualificar os trabalhadores do turismo - e até abordar o tema em disciplinas de ensino fundamental e médio das escolas. O empresário Bernardo Bazzan, de 35 anos, lembra como era estudar ‘turismo’ na terceira série:
— Até hoje pergunto às pessoas se alguém estudou turismo na escola (risos). Aqui, a gente desde pequeno já aborda isso nas aulas, essa questão do atendimento, do servir bem, do tratar bem, do acolher — comenta Bernardo.

A família dele sempre trabalhou com gastronomia e hospedagens na cidade, e hoje ele transformou o que era um antigo restaurante da avó em um conjunto de apartamentos para alugar:
— O turismo está cada vez mais forte aqui. O público que busca aluguel ainda varia muito de acordo com a época do ano, mas de janeiro a dezembro a gente tem trabalho, tem renda e podemos andar tranquilos na rua pra curtir tudo isso. Essa segurança é o que me faz não querer sair daqui — complementa ele.
Onze anos mais jovem, mas também gramadense desde sempre, o recepcionista Rafael Dezordi também enxerga no turismo o passado, presente e futuro da cidade:
— Aqui, todos trabalham com turismo, direta ou indiretamente. Para trabalhar e crescer, tem que se adaptar, tem que aprender a receber e atender as pessoas dos mais diferentes perfis — observa ele, que fez uma especialização em atendimento turístico para ficar melhor colocado no mercado da hotelaria.

Apesar de estar acostumado com o frio serrano desde a infância, Rafael comenta que o único ‘defeito’ de Gramado é não ter uma praia:
— Tem noites no inverno que a gente fica na base da lareira, do cobertor e da calefação (risos), e é nessas noites que eu penso, por um segundo, em morar na praia no futuro — brinca.
E quem veio de uma região mais quente e hoje dá risada do frio do inverno é a Sandra Dias da Silva, vigilante de 45 anos que trocou Pelotas por Gramado em 2012:
— Vim buscando oportunidades de emprego, eu sabia que aqui todos podiam achar emprego e vontade não me faltava. Hoje, tenho minha casa própria, que era meu grande sonho, meu grande objetivo quando vim pra cá. Tanto na rua quanto no meu trabalho, percebi que aqui as pessoas são mais solidárias e acolhedoras, não é só com o turista. Se tem emprego e qualidade de vida, é onde minha família vai ficar — afirma ela, que enaltece as qualidades da cidade com orgulho.


