
De 4 a 7 de agosto, a Serra será palco para demonstrações de como a tecnologia pode fazer a diferença na cadeia produtiva moveleira da América Latina. É que, nessa data, ocorre a 17ª Feira Internacional de Fornecedores da Cadeia Produtiva de Madeira e Móveis, a Fimma Brasil, no Parque de Eventos de Bento Gonçalves.
Além do protagonismo continental, os organizadores projetam movimentação de R$ 1,74 bilhão em negócios e a visitação de 15 mil profissionais. A feira reunirá, em uma estrutura de 58 mil metros quadrados, mais de 300 marcas nacionais e internacionais que pulsam tecnologias para projeção, fabricação e venda de móveis.
Um dos destaques desta edição será a Praça de Inovação, que irá evidenciar startups, especialistas, influenciadores e soluções imersivas voltadas à transformação digital do setor. O posto ficará no pavilhão A, em um espaço de 400 metros quadrados.
O diretor de Inovação da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs), Renato Bernardi, adianta que serão realizadas mais de 20 palestras gratuitas — confira a programação — sobre automação, inteligência artificial, sustentabilidade, design e novas formas de produção:
— Teremos conteúdo interativo, tratando de pelo menos três tendências de inovação dentro da cadeia produtiva moveleira, espaço de convivência e uma recepção, que terá dois robôs recebendo as pessoas.

A feira também será carbono neutro: toda a energia utilizada terá origem 100% renovável, com rastreabilidade garantida por meio de certificação internacional emitida pela Ludfor, empresa responsável pela neutralização de carbono do Parque de Eventos de Bento.
— É um incentivo para a utilização de energias renováveis, para que empresas utilizem energias eólica e solar nas suas atividades. Expositores abordarão esse tema. Todo o resíduo da feira terá um destino adequado para não gerar mais poluentes na atmosfera. Não me recordo de tamanha representação de empresas que tratam do assunto da energia renovável em feiras anteriores — garante Bernardi.
Gerenciamento de estoque com robôs

Em atualização ao histórico trabalho artesanal, o setor moveleiro vive um cenário de digitalização de processos e operações com robôs e inteligência artificial. Ao menos são as tecnologias que estarão em evidência na Fimma a partir da participação de empresas como a Homag Brasil.
A companhia de máquinas para fabricação de móveis alemã — também presente em países como Polônia, Espanha, China, Índia, Estados Unidos — apresentará uma solução exclusiva para gerenciamento de estoque, denominada Storeteq P-500 Dual.
O sistema automatizado trabalha com duas pontes que se movimentam em alturas diferentes, transportando chapas em um espaço interno. Com largas dimensões, o equipamento chegará pela primeira vez ao Brasil até o fim do ano, para uma companhia do Paraná.
O gerente comercial da Homag Brasil, Christian Büscher, explica que a Storeteq tem controle sobre as pilhas de chapas via computador, em que um robô se movimenta para levá-las entre pontos diferentes do estoque, como linhas de corte, furações e colagem.

O sistema permite um aproveitamento maior das chapas, por exemplo, ao controlar e dar destino produtivo para as sobras de materiais. Há ganhos, inclusive, em períodos do dia sem expediente humano.
— O cliente pode, por exemplo, deixar à noite vários pacotes na entrada da máquina e a máquina trabalhar sozinha durante o 'turno fantasma', sem ninguém operando. Ela organiza as chapas, deixa tudo mais próximo de cada equipamento para que, no dia seguinte, quando começar a produção, as chapas já estejam na ordem certa. O ganho é muito grande em produtividade e controle de estoque do cliente — aponta Büscher.
A inteligência artificial da Storeteq também aprende com o fluxo da companhia, entendendo quais produtos têm mais saídas do que outros para adaptações no armazenamento.
— Tudo isso é para otimizar ao máximo a produção de um cliente. Em uma produção de grande escala, qualquer minuto que se perde é dinheiro que se perde — adverte o gerente comercial.
"Toda a obra pode ser previamente modelada e visualizada em 3D"

Quem também traz novidades ao polo moveleiro da Serra é a Gabster, sediada no Parque Tecnológico da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo.
Por ela será apresentada uma nova plataforma que une inteligência artificial, modelagem 3D e integração em tempo real com o parque fabril. O objetivo é estreitar os laços entre arquitetos, especificadores e indústria com agilidade, personalização escalável e antecipação de eventuais intercorrências.
Para isso, segundo o CEO e cofundador da Gabster, Cleandro Nilson, os produtos são modelados dentro da plataforma em software com cálculos automáticos de orçamento e tradução das informações do projeto diretamente às máquinas da produção, evitando interferências humanas e reduzindo até 80% dos problemas da obra.
— Um dos pontos é a metodologia BIM (Build Information Model): significa que todas as informações da construção de um projeto vão estar dentro de um modelo 3D que pode ser trabalhado por todos os participantes. Tudo que acontece dentro de uma obra pode ser previamente modelado e visualizado em 3D. Você tem condições de fazer a predição, correções de problemas que aconteceriam na obra, mesmo antes do canteiro de obras estar pronto — argumenta Nilson.

Na prática, ela potencializa vendas: orçamentos que demorariam duas semanas podem cair para um prazo de dois dias, de acordo com o CEO da Gabster.
— Temos o arquiteto como grande ganhador, mas também a indústria que vai produzir produtos em grande escala. Tudo é Just-in-Time, só produz o que foi vendido e consegue ter muito valor agregado. É o que antes se cobrava, porque o produto ia ter que ser personalizado para o cliente. Agora, você consegue fazer isso com poder de escala — complementa.
Conforme Nilson, empresas da região, como Todeschini, BonTempo e SCA levaram a tecnologia da Gabster aos seus parques fabris. Ele também cita aumento no faturamento de marcenarias.
Com 80 funcionários, a Gabster, que já participou de outras edições da Fimma, almeja dobrar as receitas pelo segundo ano consecutivo. No estande da feira, a promessa é de mostrar em tempo real o uso da plataforma.
— A Fimma deixou de ser um ponto de venda do software em si para um local próprio para disponibilizar conteúdo e sensibilizar os profissionais e a indústria de que muito do retrabalho e desperdício que é feito no dia a dia pode ser minimizado ou até eliminado com a tecnologia — observa.
Reflexos do tarifaço
Em meio às boas expectativas para o evento, o setor moveleiro de Bento vê a paralisação de negócios após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a aplicação, a partir de agosto, de tarifa de 50% para produtos brasileiros importados ao país.
Segundo o Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), os EUA representam quase 17% das exportações do polo moveleiro desde o início do ano — cerca de US$ 4,5 milhões (ou quase R$ 25 milhões) gerados. Equivale quase a metade do que o município exporta ao país norte-americano.
Euclides Longhi, presidente da Movergs, considera o cenário como atípico, espera uma negociação entre os governos dos dois países e garante que não haverá impactos negativos sobre a Fimma:
— É um prejuízo muito grande para as empresas, para o RS e para o Brasil. Os EUA não são mercado-alvo dos fornecedores da cadeia produtiva da madeira e móveis. Eles são importadores, não exportadores.



