Na manhã desta quinta-feira (31), cerca de 50 agricultores fizeram o que o casal Jaime e Elisabete Matté precisaria de quase 20 dias para terminar sozinho. O hectare e meio de um parreiral da variedade de uva bordô foi todo podado e amarrado por vizinhos solidários à situação da família.
Em junho, Jaime, 53 anos, descobriu um tumor na cabeça. Identificado pelos médicos como um glioma de grau 2, a doença comprometeu, em poucos dias, sua fala e reduziu a atuação na propriedade que mantém com a esposa na comunidade de São José, na 4ª Légua de Caxias do Sul.
— Começamos a perceber que uma palavra ou outra não saíam direito. Quando passou a se enrolar mais fomos investigar. Procuramos o neurologista e um dia antes da consulta ele travou enquanto trabalhava. Fomos voando e internaram. Não encontraram nada nos exames e foi feita a biópsia em uma área muito delicada que só poderá ser curada com as radioterapias — contou Elisabete.
O tratamento começa na próxima segunda-feira(4) e, junto da fisioterapia e fonoaudiologia, deve demandar todas as atenções da família, que tem ainda parreirais e hortas para cuidar. O sustento vem da terra, com salsa, temperos, rúcula e radicci cultivados em estufas e vendidos para supermercados. Tem ainda os parreirais que aguardavam pela poda realizada sempre no inverno e que garante a brotação na primavera.
— Os vizinhos já sabiam da nossa situação. Enquanto estávamos no hospital, não precisava nem chamar ou pedir. Eles ligavam e diziam para que não nos preocupassem. Só pediam o que tinham que fazer e eles faziam — lembra a agricultora.
Ajudar quem mora perto faz parte da cultura da 4ª Légua que é formada ainda pelas comunidades de São João, São Victor, São Paulo, São Brás e Mirambel. Quando a família Basso viu cair os parreirais com o vento em uma safra passada, por exemplo, 60 pessoas foram até a propriedade para ajudar a erguê-los novamente.
Pois na manhã desta quinta, era o agricultor Alcides Basso, 56, quem estava trabalhando em uma colônia que não era a sua:
— Todo mundo sabe o trabalho que dá e como tem que fazer. Esse é o verdadeiro motivo da comunidade, são todos voluntários e quando vêm, vem com tudo. Esperávamos ficar todo o dia, mas não precisou, em uma manhã terminamos o serviço.
Enquanto trabalhava, o ex-colega de escola de Jaime, Odacir Pianegonda, 55, listava os motivos que o levavam a estar ali:
— É o tipo de coisa que não escolhe idade, nem profissão, nem nada. Estar aqui faz bem para nós que estamos ajudando e faz bem também para ele em saber que tem amigos e quem faça por ele. É melhor ajudar do que ser ajudado e na próxima sei que é ele que vai estar me ajudando.



