
Professora de Língua Portuguesa aposentada, a caxiense Verônica Tomasi, 71 anos, revisita os dias de sala de aula em sua casa, no bairro São Ciro, repassando com a neta, Rafaella, nove, a conjugação de verbos e de outras matérias escolares. A dupla até revisa um pouco de tabuada, porém a idosa reconhece que os números não são sua especialidade. Neste Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, Verônica conta que o convívio com a neta, no entanto, ganhou ainda mais diversão desde que a música entrou na vida de ambas.
Cinco anos atrás, Verônica começou a fazer aulas de piano. Era a realização, enfim, de um sonho que estava guardado devido ao trabalho, que às vezes chegava a ocupar três turnos. À medida em que as primeiras melodias reverberaram pela casa, a neta – que já tocava um pouco de violão por influência do pai, além de flauta – passou a se interessar também pelas músicas da avó. Há cinco meses, passou a ter aulas com a mesma professora.
– A Rafaella era bem pequena e gostava de passar os dedos pelas teclas. Comecei a tocar para ela o Bifinho (como ficou conhecida a música tema do iogurte Danoninho nos anos 1980) para que tentasse cantar as notas no mesmo tom. Desde cedo deu para ver que ela teria facilidade para aprender música – conta a avó.

As primeiras músicas que Verônica aprendeu são as mesmas que a neta já arrisca tocar, apesar do pouco tempo de estudo: peças como Os Noturnos, de Frédéric Chopin, e Danúbio Azul, de Johann Strauss. A diferença, diz a avó, é que a neta tem mais facilidade para memorizar as notas:
– Eu não consigo tocar sem tirar os olhos da partitura. A Rafaella lê uma vez só e já decora.
Enquanto os pais se dedicam à produtora audiovisual da família, é nos pequenos momentos cotidianos que Rafaella e a avó cultivam uma relação marcada por cuidado, carinho e diversão. A menina chegou a frequentar atividades de contraturno escolar, mas há dois anos os pais optaram por deixá-la mais tempo sob os cuidados dos avós. Além da música, os dias são preenchidos com leitura, brincadeiras com o gato da casa e passeios para fazer algumas comprinhas. E, como professora aposentada, Verônica não esconde o orgulho pela neta ter ótimas notas na escola.
– Essa menina é o “dodói” da vovó – derrama-se, apertando com carinho a bochecha da neta.
Paixão antiga, renovada por gerações

Apaixonado por carros, o caxiense João DalPonte, seis, só não dirige porque a idade não permite. Mesmo assim, é capaz de identificar a marca e o modelo da maioria dos veículos que vê. Nos encontros de automóveis antigos que frequenta com a família, gosta de tocar nos exemplares clássicos e pede para entrar para conhecer o veículo por dentro. O carro que ele mais gosta, contudo, a ponto de ter uma réplica feita em madeira, é o furgão modelo Fordson do avô, Irineu Dal Ponte, 69.
Como parte da família, o automóvel fabricado na Inglaterra em 1950 pela Ford tem até apelido: Chimbica. Embora fique guardado na garagem a maior parte do tempo, em 36 anos com os Dal Ponte o veículo já experimentou dias de estrelato, participando até de desfiles cênicos da Festa da Uva. Irineu conta que só foi possível comprar o automóvel sob a promessa feita ao proprietário anterior de que não iria se desfazer dele na primeira oportunidade.

– Eu “namorava” o carro sempre que o via, até o dia em que convenci o proprietário a me vender. Eu soube que a esposa dele queria um Fusca e me ofereci para comprar um Fusca e trocar pela caminhonete. Ele aceitou, com a condição de que pudesse continuar a ver o carro até o dia em que morresse À época eu tinha outro carro de fabricação inglesa, um Austin de 1948, mas me desfiz para ficar com apenas um para cuidar – relata.
O avô diz sentir um misto de orgulho e alívio ao ver a paixão pelas relíquias automotivas passando de geração dentro da família:
– Assistir ao meu neto demonstrar desde tão novo esse interesse pelos carros antigos e esse carinho em particular pela minha caminhonete me deixa tranquilo por saber que posso deixar essa herança sem receio. Acredito que ele não irá querer se desfazer da Chimbica.
"Todo nosso tempo é para o neto"

Além de ser um porto seguro de carinho e afeto infinitos para os netos, os avós também representam, especialmente para suas filhas, segurança.
– Meus pais são a minha rede de apoio. Sem eles, eu não daria conta – comenta Maica Frainer, mãe de Lucas, de cinco anos.
É na casa dos avós, Valdir, 74, e Sueli, 78, que Lucas passa as horas mais divertidas do dia. São horas que passa andando de bicicleta sob a supervisão do vô, pintando livros de colorir sob o olhar da avó ou brincando com a cadelinha Molly. Nos dias de sol, os avós levam o menino para andar de balanço na Lagoa do Rizzo, perto de casa. Sem abrir mão dos benefícios da vida de aposentados, Valdir e Sueli gostam de viajar em excursões junto a outros casais conhecidos para resorts com águas termais. Dois anos atrás foram a um destes em Santa Maria. Neste ano foram a outro, em Machadinho. Em ambas as viagens, levaram o neto.

– O tempo que nos faltava como pais para a gente dar atenção às filhas, por estar ocupado com o trabalho, agora a gente consegue oferecer para o nosso neto. Todo o nosso tempo é dele – declara o avô.
Sendo uma relação pautada essencialmente pelo afeto não faz com que os avós possam, contudo, descuidar da saúde do neto Lucas. Sueli brinca que, mesmo que eventualmente permita a ele comer alguma guloseima a mais do que a mãe acharia saudável, como o churros que o menino experimentou pela primeira vez alguns dias atrás, nada é feito escondido:
– Às vezes ele pede um chocolate ou algum doce e eu dou, mas é importante que a mãe dele esteja a par, porque a saúde dele vem sempre em primeiro lugar.
Dias cheios na calmaria de Santa Lúcia do Piaí

Os irmãos Guilherme e Miguel Ramme, de sete e 14 anos, moram em Gramado. Bernardo, seis, mora em Caxias. Entre uma cidade e outra fica o distrito caxiense de Santa Lúcia do Piaí, que é onde está o ponto de encontro preferido dos primos: o sítio do avô Guido, 72, e da avó Carmem, 74.
Seja aos finais de semana ou nas férias, não tem dia de tédio quando o trio está reunido. Nem entre eles, muito menos para os avós, que veem a rotina na casa mudar radicalmente com a energia infantil multiplicada por três. Haja tempo para fazer tanta coisa: pescar no açude e fazer trilhas pela floresta com o vovô, recolher os ovos das galinhas ou ajudar a preparar o pão com a avó.
- Nem mesmo na hora do sono tenho sossego, porque é só descuidar e um faz cócegas nos meus pés, outro sai de dentro do roupeiro para me dar um susto. Mas depois que cansam eles adoram dormir junto com a avó -diverte-se Carmem.

Os meninos também são parceiros para com o avô até a vila, para o jogo de cartas entre amigos. Entre um sorvete e outro, eles assistem, ainda sem entender as regras, às animadas rodadas de 66 (no qual vence o primeiro jogador a somar 66 pontos). Guido já ensinou ao neto mais velho a jogar pife e canastra, bem como aprendeu com os meninos a jogar Uno – mais popular entre os mais jovens.
Para o casal, os netos preenchem o sítio de vida e os seus dias de disposição. Difícil é quando os netos vão embora.
– Depois que os filhos se tornaram independentes e seguiram seus caminhos, nossa vida passou a ser dedicada aos netos. Quando eles vão embora, a gente sente muita falta e até estranha o silêncio – resume o avô.
POR QUE 26 DE JULHO?
- O Dia dos Avós tem origem religiosa e está relacionado à tradição católica. A data foi oficializada pelo Papa Paulo 6º (cujo papado foi de 1963 a 1978), em homenagem a Sant’Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. Reconhecidos como padroeiros dos avós, os dois simbolizam fé, sabedoria e cuidado familiar.
- A escolha da data, 26 de julho, não foi aleatória: é o dia dedicado a Sant’Ana no calendário litúrgico. Com o tempo, a celebração ganhou força nos ambientes religiosos, ao mesmo tempo em que se tornou uma ocasião para valorizar os vínculos entre avós e netos em diversos países, como Brasil e Portugal.
- Em 2021, o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Avós e das Pessoas Idosas, a ser celebrado no quarto domingo de julho pela comunidade católica, a fim de tornar a data mais acessível para as reuniões familiares, como já ocorre com o Dia das Mães e com o Dia dos Pais, no segundo domingo de maio e de agosto, respectivamente.


