
O ar sopra de forma leve. No alto, as copas das árvores se misturam em texturas, formando um tapete verde. Plantas brotam e crescem em ramificações entre as rochas. O canto dos pássaros se mistura com o som contínuo de uma cachoeira. O cenário descrito induz a imaginação até um local remoto, mas este santuário natural fica no interior de Veranópolis.
Após um levantamento do projeto SOS Mata Atlântica apontar a cidade como uma das líderes em desmatamento, devido aos deslizamentos de terra no ano passado, um projeto de preservação ambiental privado desponta como referência na Serra na recuperação do bioma.
A cerca de 15 quilômetros do centro de Veranópolis, uma antiga área agrícola, cortada pelo Rio Jaboticaba, está sendo transformada. Em atividade desde 2023, o Serra Parque Jaboticaba tem influenciado a população local a apoiar a preservação.
A história do parque está intimamente conectada a Juliano Holderbaum, idealizador do projeto e apaixonado por Veranópolis. Após anos dividindo a rotina entre a Serra e São Leopoldo devido ao trabalho, precisou passar por um transplante de fígado. A cirurgia aconteceu durante a pandemia e o levou a ficar 49 dias hospitalizado.
— Enquanto lutava pela vida, decidi que quando saísse do hospital ia realizar todos os meus sonhos. Um deles era viver perto da natureza. Três meses depois da minha alta, descobri um câncer no intestino. Passei por uma cirurgia do intestino grosso, fiz quimioterapia e, então, comecei a procurar áreas, até que encontrei o lugar que hoje é o Serra Parque Jaboticaba — conta.

Ainda sem ideia de transformar o local em uma área de preservação, Holderbaum passou a se deparar com animais silvestres na propriedade. A partir disso, se dedicou a um estudo da região. Além de descobrir ser um antigo espaço de cultivo, no passado a área do parque teve as araucárias dizimadas. Com isso, decidiu comprar 150 sementes da árvore para plantar no local. No entanto, ao fazer exames de rotina, teve o diagnóstico do retorno do câncer.
Quando as sementes chegaram, fiquei pensando no que fazer. Se colocasse elas em um viveiro, poderia não estar vivo para plantá-las quando estivessem maiores. Decidi espalhar elas pelo solo da mata. Foi um processo de aceitação que estava vivendo intensamente ali, com o desejo de cuidar daquele lugar
Meses depois, preparado para fazer novos procedimentos, repetiu os exames e descobriu a remissão espontânea do câncer. Após quatro meses, os tumores haviam sumido. Foi nesse momento que Holderbaum decidiu transformar os seis hectares que comprou em uma área de preservação e criar um projeto de conservação.
— Não tive dúvidas em tomar essa decisão. Encontrei a minha cura cuidando deste lugar. Para mim, o Serra Parque é mais do que uma propriedade: é meu legado para um mundo melhor. Quando a minha passagem por aqui terminar, sei que esse espaço vai seguir existindo e sou muito grato por ter sido o guardião dele — se emociona.
O Serra Parque Jaboticaba e o Projeto Gralha Azul
Dos seis hectares que compõem a área, cinco foram reconhecidos pelo governo, em abril deste ano, como unidade de preservação federal. No entanto, há três anos o Serra Parque Jaboticaba está em atuação.
Considerado um corredor ecológico, o parque é fundamental para a manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica na região. Isso porque os chamados “corredores” são espaços de transição dos animais entre áreas de mata. Por ser cortado pelo Rio Jaboticaba, o parque atrai diversas espécies de mamíferos, anfíbios e aves.
A biodiversidade do local é mapeada por quatro universidades parceiras, que utilizam o parque como objeto de estudo. As armadilhas fotográficas instaladas no local já flagraram tamanduás-mirins, iraras, graxains, quatis e veados circulando na área. Outros aspectos do local estão em estudo, como a qualidade do ar e da água, além dos impactos dos deslizamentos no parque após maio do ano passado.
Outra ponta de atuação da unidade está relacionada ao Projeto Gralha Azul. A ONG instituída dentro do parque atua na recuperação da área com o plantio de mudas nativas, sobretudo a araucária.
Ainda, o projeto é uma referência regional no acolhimento, reabilitação e soltura de animais silvestres. Só neste ano, mais de 40 animais já passaram pelo projeto. Atualmente, a ONG aguarda ser atendida pelo Ministério Público em uma seleção para receber verba e poder construir viveiros de aves no próprio parque.
— A ideia é que tenhamos um espaço de reabilitação e adaptação desses animais resgatados. Assim que eles estiverem recuperados, queremos devolvê-los para a natureza ali mesmo, no Serra Parque — explica Juliano.
Experiências imersivas em meio à mata
Trilhas, passeios em veículos 4x4 e banhos no Rio Jaboticaba estão entre as atividades abertas ao público oferecidas pelo parque. Aqueles que apreciam o contato direto com a natureza podem se organizar em pequenos grupos e agendar as visitas no Serra Parque Jaboticaba. Os agendamentos devem ser feitos pelo site do parque.
Ainda, para diversificar as experiências e obter renda para as atividades do Projeto Gralha Azul, uma cabana para hospedagem está sendo construída próximo da unidade de preservação. A previsão é de que o espaço esteja aberto aos visitantes dentro de 30 dias.
O parque também busca parcerias com empresas para fomentar a preservação e custear as atividades. Contatos podem ser feitos diretamente com Juliano Holderbaum pelo número (51) 98140-4098. Pessoas físicas podem contribuir com as atividades via Pix, pela chave 57.672.165/0001-27.




