
A morte de uma menina de 11 anos no Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul, nesta quinta-feira (10), voltou a chamar atenção para os riscos envolvidos em passeios por áreas naturais como trilhas e cânions. A criança teria caído de uma altura de aproximadamente 70 metros. O local é um dos principais atrativos do Parque Nacional da Serra Geral, visitado por milhares de turistas todos os anos.
Apesar do impacto do caso, este não é o primeiro acidente grave registrado em cânions no Rio Grande do Sul. Tragédias semelhantes já aconteceram na região, reforçando a necessidade de cuidados redobrados em locais com desníveis, bordas expostas e trilhas mal sinalizadas.
De acordo com o secretário de Turismo de Cambará, Andrews Mohr, não há histórico de quedas desse tipo no Cânion Fortaleza. O que já ocorreu, segundo ele, são acidentes envolvendo pessoas que adentram no local para fazer a chamada travessia — que consiste em entrar no início da fenda onde o cânion começa e percorrer o interior dos paredões. Essa prática é proibida.
O caso mais emblemático até então ocorrido no Cânion Fortaleza foi em 2003, quando o escoteiro Marcos Pinto Jardim, de 17 anos, desapareceu após fazer uma trilha. Seus restos mortais foram encontrados apenas em outubro do ano seguinte.
Confira abaixo os casos registrados no RS:
Julho de 2017: Pico Monte Negro, em São José dos Ausentes
No dia 5 de julho de 2017, a psicóloga Mariá Boeira Lodetti, à época com 26 anos, aproveitava a tarde ensolarada com uma amiga e a mãe para visitar um ponto bastante conhecido entre turistas: o pico Monte Negro, em São José dos Ausentes, ponto mais alto do Rio Grande do Sul.
A dupla rolava entre o pasto próximo ao pico do cânion, como uma brincadeira de criança. Enquanto a amiga de Mariá rolou na direção contrária do cânion, a psicóloga seguiu em direção ao precipício. Com o impulso, ela despencou em queda livre por cerca de 80 metros. Dois casais de turistas, a mãe e a amiga avistaram a cena e acionaram socorro. A jovem parou em um ponto com vegetação, o que teria amortecido a queda.

Bombeiros de Vacaria, São Joaquim e Blumenau foram acionados. Um bombeiro de Vacaria desceu com cordas, simulando um rapel, para prestar os primeiros socorros, até a chegada do helicóptero catarinense Arcanjo 03. O helicóptero, então, desceu em meio ao cânion e resgatou a mulher e os bombeiros que prestavam socorro.
Mariá foi resgatada logo depois das 17h30min. Ela foi conduzida até o Hospital Pompéia por um helicóptero porque estava entrando em estado de hipotermia. Ela sofreu apenas lesões leves.

Dezembro de 2012: Pico Monte Negro, em São José dos Ausentes
No mesmo local, em 23 de dezembro de 2012, o adolescente Sidharta Arderius, de 16 anos, desapareceu no cânion. Ele havia sumido no começo da tarde daquele dia nas proximidades do pico, onde estava acampando com o pai e um amigo.
O jovem foi encontrado morto dois dias depois, no interior do cânion. O corpo foi localizado por um grupo de montanhistas que ajudava nas buscas, junto com bombeiros e familiares. A suspeita é que ele tenha caído de uma altura de mais de 100 metros.

O resgate foi feito por meio de cabos e cordas, com técnicas de rapel. O pai, natural de Porto Alegre, relatou aos bombeiros à época que o adolescente saiu para caminhar após o almoço, enquanto eles foram descansar no acampamento. Como o jovem demorou a voltar, eles acionaram o socorro. A mãe, de Caxias do Sul, também acompanhou as buscas.
Ponto turístico nos Campos de Cima da Serra, o Pico do Monte Negro, que abriga o cânion Monte Negro, tem 1.403 metros de altura. É o ponto mais alto do Rio Grande do Sul. A borda do cânion fica a cerca de 45 quilômetros do centro da cidade.

Março de 2011: Cânion Itaimbezinho, em Cambará do Sul
Em 7 de março de 2011, o casal Márcia Müller, então com 33 anos, e Klaus Müller Listo, com 35, moradores de Canela, desapareceram no cânion Itaimbezinho, entre Cambará do Sul e Praia Grande (SC). O casal ficou sumido por cinco dias, desde que tentaram cruzar uma trilha no Parque Nacional dos Aparados da Serra.
Durante as buscas, bombeiros encontraram pistas indicando que os dois teriam seguido uma trilha desativada para uso público desde 1998. A forte chuva do dia 9 fez o Rio do Boi subir em média um metro e ficar com forte correnteza, o que dificultou as buscas. Os dois teriam descido um vértice do cânion que tem um paredão de 300 metros de altura e seguido pela margem do rio. Descer o paredão era possível apenas com o uso de técnicas de rapel.

O casal foi encontrado com vida por volta das 8h do dia 11. Eles estavam a dois quilômetros do fim da trilha do Rio do Boi. Somente depois das 14h30min chegaram ao final da trilha. Klaus apresentava sinais de hipotermia e Márcia estava com os tornozelos inchados, mas lúcida.

Fevereiro de 2010: Cânion em Maquiné, no Litoral
Em 14 de fevereiro de 2010, dois casos chamaram a atenção dos gaúchos, em Maquiné. No primeiro, o empresário catarinense Juliano Romancini, então com 38 anos, praticava canionismo com esportistas na Serra do Umbu e fazia uma expedição em um cânion, quando sofreu um acidente.
O empresário teve o quadril esmagado por uma pedra de 100 quilos. As equipes de socorro demoraram duas horas para resgatá-lo. A chuva e o mau tempo prejudicaram o resgate. A pedido da Brigada Militar, o carro da reportagem de Zero Hora auxiliou no salvamento, pois o terreno era muito íngreme, e a ambulância não conseguiu subir os 12 quilômetros da estrada de chão batido. O empresário foi imobilizado na maca e içado para fora.

No mesmo dia, Gomercindo Daniel Filho, à época com 55 anos, e Diego Ennes Lima, com 26, se separaram dos colegas na descida do cânion. Eles acabaram se perdendo na mata. No dia seguinte, caminharam quilômetros em uma trilha que os afastou ainda mais da saída. Eles decidiram seguir o leito do rio até chegar numa estrada onde conseguiram avistar moradores e pedir ajuda. Eles ficaram sem comer por 43 horas e tiveram que beber a água do rio.

Dezembro de 2003: Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul
No dia 10 de dezembro de 2003, o escoteiro Marcos Pinto Jardim, de 17 anos, natural de Porto Alegre, desapareceu no Cânion Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral, na divisa dos municípios de Cambará do Sul e Jacinto Machado (SC).
O jovem havia iniciado três dias antes, sozinho, a travessia do Cânion Fortaleza, e não havia mais se comunicado com a família. À época, bombeiros relataram que a chuva poderia ter tornado a travessia perigosa. Todas as tentativas de resgate, com auxílio de bombeiros e helicópteros, foram frustradas. No dia 4 de janeiro de 2004, as buscas foram encerradas sem sucesso.
Depois de 32 dias vasculhando a área do cânion, a família do rapaz mudou o rumo e começou a realizar buscas por todo o território brasileiro. Já em fevereiro daquele ano, familiares retomaram a busca na área de mata. Apenas em outubro, quase um ano depois do desaparecimento, uma ossada humana foi encontrada por duas pessoas que percorriam a trilha no cânion Fortaleza, juntamente com um boné do rapaz. A ossada estava a cerca de 320 metros da Pedra do Segredo, abaixo de um paredão de 100 metros utilizado por praticantes de rapel.
Um exame de amostras de DNA confirmou que a ossada era de Marcos. A principal hipótese apontada pelo polícia na época era de que Marcos tenha caído depois de amarrar uma corda de rapel em uma árvore que não suportou seu peso, fazendo com que ele despencasse de um penhasco de 75 metros.




