
Mais de 2,5 mil imigrantes trabalhando formalmente em seis cidades da Serra. Esse é o saldo de vagas geradas (admissões menos demissões) segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), referente aos dois primeiros meses de 2025 em Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Farroupilha, Flores da Cunha, Garibaldi e Vacaria.
Argentinos, cubanos, haitianos, paraguaios, senegaleses e venezuelanos estão entre as principais nacionalidades encontradas na região. O destaque fica com os paraguaios, que acumulam 398 contratações entre janeiro e fevereiro deste ano.
Os números expressivos representam um recorte do atual cenário do mercado de trabalho gaúcho, em que a mão de obra imigrante ganhou espaço e se tornou essencial em setores estratégicos como agricultura, indústria e comércio.
Conforme dados do Caged, desde 2022 esses segmentos têm aumentado a absorção da mão de obra estrangeira na Serra gaúcha. Frigoríficos e produções de frutas estão entre os principais contratantes, sobretudo nos períodos de colheita.
Essa nova configuração do mercado é apontada pelo diretor-presidente da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), José Scorsatto, como um reflexo do novo momento que a Serra e o Rio Grande do Sul vivem:
— A perspectiva nos dois, três primeiros meses deste ano em relação ao ano passado demonstram um quantitativo superior, que deve aumentar a médio e longo prazos. Os números indicam que os imigrantes estão ocupando cargos que gaúchos ou brasileiros não conseguem mais suprir por um fator simples: o envelhecimento da população.
Na avaliação de Scorsatto, a inversão da pirâmide etária no Estado coincide com períodos de instabilidade em países latinos e caribenhos. Os cenários distintos acabaram impulsionando a entrada destes imigrantes no mercado de trabalho regional há 15 anos, quando os haitianos chegaram à região.
— Os empresários já perderam o receio inicial e têm encarado com bons olhos esta oportunidade. Não é nenhum favor receber e empregar estas pessoas. Elas são necessárias e precisamos delas aqui para movimentar alguns segmentos, como os da transformação e agricultura — defende.
Conforme o coordenador do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), Adriano Pistoleiro, apesar das vagas se manterem semelhantes, o perfil dos imigrantes tem mudado nos últimos anos.
— Se antes eram os haitianos que chegavam, agora vemos, majoritariamente, venezuelanos. Muitos deles entram no país e se dirigem direto para a Serra, por saberem que aqui tem um polo industrial e oportunidades de trabalho — revela.
Essencial para a produção de proteína
Só o setor de abate de aves, os frigoríficos, conta com 30% de trabalhadores vindos de outros países. Essa é a estimativa da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação, Agroindústria, Cooperativas de Cereais e Assalariados Rurais (Contac).
Conforme o presidente da entidade, José Modelski Júnior, o setor possui um histórico de demanda por colaboradores. Antes da chegada dos imigrantes haitianos ao Brasil, em 2010, as vagas nos frigoríficos da Serra eram preenchidas por trabalhadores de todo o país.
— Houve um período em que os colaboradores percorriam até cem quilômetros entre as cidades que moravam para ir e voltar dos frigoríficos. A partir disso, as empresas procuraram a mão de obra que pudesse se fixar próximo das empresas, sobretudo em outros Estados. Em meio a esse processo começou a imigração haitiana e a contratação dessas pessoas. Pode-se dizer que a chegada deles foi o ponto de partida dessa movimentação no setor — explica.

Desde então, além dos haitianos, argentinos, colombianos e venezuelanos passaram a integrar as produções do abate de aves na região. O ingresso desse grupo no setor se tornou tão expressivo que, atualmente, Modelski Júnior acredita serem essenciais para a continuidade dos negócios:
— O Brasil é o maior exportador de frangos do mundo e a região sul é, de longe, a maior produtora do país. Gradativamente, os haitianos foram saindo dos frigoríficos, mas praticamente ao mesmo tempo chegaram os venezuelanos. Sem esse grupo de imigrantes, sem dúvidas teríamos uma crise que iria inviabilizar que as fábricas continuassem trabalhando.
A previsão do presidente do Contac é de que as empresas de abates de aves abram mais oportunidades para os imigrantes, além de oferecem benefícios para que permaneçam na indústria. Isso porque o perfil dos imigrantes venezuelanos é de se manterem nas empresas por longos períodos.
Reforço na alimentação
Quando decidiu deixar Cuba, José Enrique Frometa Piedra, 42 anos, já sabia que o destino dele e da família no Brasil era Caxias do Sul. Em maio do ano passado, em meio à intensa chuva que atingiu o Rio Grande do Sul, os Piedra chegavam na Serra.
Foi a indicação de amigos cubanos, que já viviam em Caxias, que fez ele, a esposa e os filhos cruzarem o país para começar uma nova etapa da vida. A promessa de qualidade de vida e oportunidades de emprego não foram em vão. Isso porque há 11 meses José Enrique é um dos chapeiros do La Fabbrica Juventus mais elogiados pela agilidade, comprometimento e determinação.
— Moro perto do Juventus, então apresentei meu currículo aqui. Alguns dias depois, me chamaram para trabalhar. Cheguei aqui sem falar nada de português. Todo mundo teve muita paciência para me ajudar, interagir comigo. Em Cuba trabalhava como bancário, mas aqui tive uma boa oportunidade de ter uma vida melhor — conta.

Atualmente o Juventus conta com seis colaboradores de outros países – são cinco cubanos e uma haitiana. As contratações, que começaram em 2016, tiveram um salto a partir de 2021, quando a empresa firmou uma parceria com a prefeitura de Caxias do Sul para servir de estágio prático dos cursos de auxiliar de cozinha.
Desde então, a quantidade de imigrantes que buscam uma oportunidade na empresa saltou: a cada 20 currículos recebidos pelo Juventus, cinco são de pessoas de outros países.
— A gente vê esse crescimento gradativo e forte. Apesar da empresa não ter um curso específico para receber os imigrantes, nos dedicamos mais ao treinamento com paciência e muita empatia. A gente entende que de nada adianta a cidade receber muitos imigrantes se as empresas não oportunizam que eles fiquem na cidade — comenta a analista de RH da empresa, Gilcelia Araújo.
Peso da mão de obra imigrante na indústria
Em 2021, a Dedeka, indústria de confecções infantil, em Caxias do Sul, admitiu duas colaboradoras vindas de Cuba e Venezuela. A partir da experiência, que, conforme a sócia proprietária Débora Cambruzzi da Rosa, foi extremamente boa, a empresa ampliou oportunidades para trabalhadores de outros países.
Hoje, cerca de 20% dos funcionários da empresa são cubanos ou venezuelanos, atuando em praticamente todas as etapas da produção da roupas infantis.
— A gente avaliou mais a questão do perfil profissional e da vontade de querer trabalhar. De um modo geral, essas pessoas vêm com muita garra, vontade e ânimo. A chegada deles também está relacionada com as indicações. Os próprios funcionários indicam conhecidos que estão no Brasil para as vagas — explica.

Conforme Débora, a rápida emissão de documentos tem facilitado a contratação desses trabalhadores. Em alguns casos, a pessoa está na região há menos de uma semana e já consegue ser admitida.
Rosa Amélia Noa, 53, chegou na Dedeka em julho do ano passado por indicação da filha, que já trabalhava na empresa. Desde então, a venezuelana, que tinha experiência como costureira, trabalha como auxiliar de confecção:
— Está sendo uma adaptação. São muitas coisas que a gente enfrenta aqui, estar longe da família, a saudade, mas as pessoas são muito amigáveis e acreditam em nós, apesar de não sabermos direito o idioma.


