
Há relações no futebol que afrontam a lógica e escapam à frieza das estatísticas. É uma paixão que brota sem explicação, floresce tímida e, com o rodar ponteiros do relógio, lança raízes profundas que tomam conta do peito e chegam a própria alma. Assim é o elo entre Renato Ubirajara Formoso Pires, conhecido como Caçapava, e o Caxias.
A saudade que o ex-volante guarda dos tempos de gramado ecoa como as notas suaves da Bossa Nova de Tom Jobim. Sem ter entrado em campo pelo Caxias, talvez ele não tivesse a alegria que guarda no coração. Afinal, como já dedilhava o violão de João Gilberto: "Vou te contar, os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender. Fundamental é mesmo o amor... é impossível ser feliz sozinho."
A história do atleta que mais vezes vestiu a camisa do Caxias começou por obra do acaso. Em 25 de agosto de 1982, o jovem meio-campista vivia a fase de transição dos juniores. Recomendado pelo capitão Dutra, diretor do departamento amador colorado, o jovem foi indicado ao Juventude, onde seria avaliado por Luiz Felipe Scolari, então treinador da base alviverde.
Ao desembarcar na rodoviária de Caxias do Sul em uma tarde de segunda-feira, Caçapava caminhou até o Estádio Alfredo Jaconi, mas encontrou os portões trancados. Sem rumo imediato, lembrou-se dos amigos que moravam nos alojamentos do Estádio Centenário e decidiu fazer uma visita.
Ao cruzar os portões da casa Grená por volta das 11h, o destino mudou sua rota. Os dirigentes e atletas do Caxias o convidaram para almoçar. Naquela mesma tarde, como o elenco profissional não tinha compromisso, ele foi testado em um treino coletivo. Caçapava atuou adiantado, marcou dois gols e convenceu a comissão técnica no ato: "Não, não... esse aí fica aqui."
— Minha estreia oficial aconteceu em abril de 1983, contra o Aimoré, em São Leopoldo, em um empate por 1 a 1. No jogo de volta, no Centenário, entrei no segundo tempo e ali comecei minha trajetória. Naquele mesmo ano, fui promovido com 19 anos ao grupo principal pelo técnico Ortiz, ex-goleiro do Atlético Mineiro, que passou a dar oportunidades para a gurizada da base — relembrou o ex-jogador.
Os números
Com a memória afiada, Caçapava guarda cada marca de sua trajetória com o orgulho de quem desde cedo entregou força e competitividade em campo pelas cores do Caxias.
— Durante os nove anos em que vesti essa camisa, tive a honra de fazer o primeiro gol do Caxias na história da Copa do Brasil. Sou o único jogador a disputar 34 clássicos Ca-Ju. Enfrentei a dupla Gre-Nal mais de 40 vezes. Fui quatro vezes campeão do interior e um vice-campeão gaúcho. No meu último ano, em 1990, fui o artilheiro da equipe no Campeonato Brasileiro. Quando o Caxias vencia por 1 a 0 ou 2 a 1, o gol era do Caçapava — contou.
Quase uma década em casa

O caminho para se consolidar como titular absoluto exigiu sacrifícios. De baixa estatura para os padrões físicos da época, Caçapava teve que superar a concorrência dos atletas mais altos na força do treinamento individual.
— Levei quase dois anos, até 1985, para me firmar na equipe. Comecei a me destacar pelo vigor físico, explosão, velocidade e pelo jogo aéreo. Eu fazia treinos específicos por conta própria ao fim de cada atividade: vestia um colete de peso de 20 quilos para subir e descer as escadarias do Centenário. Com esse mesmo colete de 20 quilos, treinava o salto e o tempo de bola — recordou o ex-atleta.
Quando diz que o Estádio Centenário foi a sua casa, o ex-volante não recorre a figuras de linguagem. Ele morou literalmente nos alojamentos situados sob as arquibancadas do estádio, do lado direito dos vestiários visitantes, da arquibancada geral.
— Comecei no Caxias com 19 anos e só saí aos 28. Quando se tem um objetivo na vida, supera-se tudo: o frio e a distância da família. Tínhamos diretores fantásticos que davam estrutura, mantendo convênio com supermercados para garantir a nossa alimentação. Nós mesmos éramos os cozinheiros do alojamento, arrumávamos as camas e mantínhamos tudo limpo. Foi uma das melhores gerações da base grená — refletiu.
Das lembranças às lágrimas

Para Caçapava, a motivação para deixar a vida em campo vinha da janela do seu alojamento na concentração.
— Eu via da concentração o torcedor grená chegando pelo portão, tirando o dinheiro do bolso para pagar o ingresso. Naquele momento, eu entendia que tínhamos a obrigação de fazer algo a mais. Além de jogar futebol e ter tática, era preciso ter garra, raça e vestir a camisa do Caxias com a alma — destacou.
Entre as 289 partidas disputadas, duas goleadas marcantes por 4 a 1 permanecem cravadas em sua mente: a vitória avassaladora sobre o Grêmio no Gauchão de 1990 e o clássico Ca-Ju de 1986.
— Ganhamos do Grêmio por 4 a 1 em 1990, quando fomos vice-campeões estaduais. Jogamos um futebol impecável que fez o Estado voltar os olhos para o Caxias. Não era qualquer time que goleava uma equipe com Mazzaropi, Adilson e Baidek. Lembro que o próprio Mazzaropi virou para mim no campo e disse: "Caçapava, manda tocar, manda valorizar, segura um pouco". Outro jogo inesquecível foi o 4 a 1 no Ca-Ju. Tivemos atuação para fazer muito mais, mas paramos por ali — afirmou.
Ao concluir as recordações do período de ouro, o ex-jogador — acostumado a parar os ataques adversários com firmeza — não conseguiu conter a emoção. A voz embargou, o olhar marejou e as lágrimas superam a marcação:
— É isso que o torcedor quer: que o atleta vista e lute por essa camisa. Para mim... olha... Ah, desculpa (pausa emocionada com lágrimas)... É só isso o que eu tenho a dizer. Eu vesti essa camisa com o coração. Obrigado, torcedor grená, por se lembrar de mim até hoje — se emocionou Caçapava.
O tempo, o asfalto e a paixão intacta

O Bairro Marechal Floriano passou por muitas transformações desde que as primeiras estruturas de concreto do Centenário foram erguidas. O antigo arvoredo deu lugar ao urbanismo, aos comércios e aos pequenos prédios residenciais. O chão batido cedeu espaço ao asfalto. A Avenida Bento Gonçalves transformou-se em uma das principais artérias de trânsito de Caxias do Sul, por onde circulam diariamente milhares de veículos ao lado do Gigante Grená.
— A grama antigamente era só na área do escanteio. O resto do campo não tinha gramado pleno. Não tínhamos centro de treinamento nem campo suplementar; às vezes, precisávamos ir à Linha 80 para treinar. Acabávamos treinando no próprio gramado do Centenário e nos acostumamos com aquela realidade — relembra Caçapava.
Hoje, aposentado dos gramados, o eterno camisa 5 grená acompanha de perto o Caxias. Ele prefere sentir a pulsação do estádio da forma mais tradicional, na arquibancada, ao lado de quem muito gritou seu nome.
— Sempre me convidam para ir às cadeiras ou aos camarotes, mas eu prefiro ficar no meio do povão, na arquibancada. É ali que o futebol acontece de verdade. Você vê o torcedor xingando, acompanhando o bandeirinha pela linha lateral. São essas coisas genuínas do futebol que só acontecem dentro do estádio. E, no final, ainda como um cachorro-quente e uma pipoca — conclui o ídolo, com um sorriso no rosto.


