
No amanhecer do futebol brasileiro, as praças de esportes erguiam-se acanhadas, desenhadas na modéstia das arquibancadas de madeira e de seus tradicionais pavilhões. O tempo tratou de substituir as tábuas pelos tijolos e pelo cimento. Mais tarde, pela força do aço e do concreto armado. Hoje, a modernidade impõe uma certa frieza das arenas pré-moldadas. Contudo, em Caxias do Sul, ergueu-se um estádio cujo alicerce principal foi moldado por uma matéria-prima inacessível ao comércio, a paixão.
O Estádio Centenário, casa do Caxias, foi edificado por um desbravador que desafiou a cronologia e a razão. Francisco Stedile construiu um gigante de concreto em oito meses de obras — uma epopeia até para os recursos tecnológicos dos dias atuais. O Centenário não foi construído do zero, ele aproveitou parte da estrutura do antigo Estádio Baixada Rubra. Nascido em 1922 e falecido em 2006, o patrono grená deixou cravada na terra a sua assinatura eterna.
— Meu pai foi até a Confederação e pleiteou uma vaga no Campeonato Brasileiro. Naquela época, a inclusão não seguia os critérios de acesso de hoje. O então presidente da entidade fez um desafio: 'Se você construir um estádio para 25 mil pessoas, a vaga é sua'. Ele voltou de lá com a pasta embaixo do braço e, conhecendo a força de Caxias do Sul, bateu de porta em porta. Fez-se um mutirão de doações. O somatório de esforços de toda a cidade realizou o Estádio Centenário — recorda o filho, Franco Francisco Stedile.
A casa grená não foi erguida apenas com pedra e argamassa, mas com o suor de centenas de operários e voluntários que transformaram o canteiro de obras em um símbolo de união comunitária, sempre sob o olhar atento do seu idealizador.
— Eram diversas equipes trabalhando simultaneamente. O desafio era monumental. Meu pai ia diariamente à obra para acompanhar cada detalhe, e os construtores se dedicavam. Tornou-se um desafio para a cidade — completa Franco.
O visionário

Franco recebeu a reportagem na antiga sala onde o pai despachava. O escritório permanece intocado, funcionando como um verdadeiro memorial da indústria de Caxias do Sul. Nas paredes e na estante, misturam-se homenagens, comendas, páginas amareladas do Jornal Pioneiro e objetos pessoais de Francisco — entre eles, a inconfundível pasta de couro, guardada dentro do armário.
— Ele recebia desafios, não só no lado do futebol, como nas indústrias, que ele também era do grupo Francisco Stedile. E todos os momentos da vida dele foram esses, de desafios inusitados, de desafios de construir motocicleta, caminhões, tratores e tudo mais. Ele aceitava isso com naturalidade e não deixava por menos até o fim — destaca o filho.
Com o estádio pronto e a promessa cumprida, o Caxias fez história ao entrar em campo pelo Campeonato Brasileiro de 1976, tornando-se o primeiro clube do interior do Rio Grande do Sul a disputar a elite do futebol nacional. A estreia ocorreu diante do Santos, fora de casa, no lendário Estádio do Pacaembu. A primeira partida no novo Centenário foi no dia 12 de setembro, contra o Inter, jogo que terminou com vitória Grená por 2 a 1. Naquela edição, reunindo 54 clubes, o Caxias encerrou sua participação em um honroso 15º lugar, somando 25 pontos. No ano seguinte, manteve a regularidade ao figurar na 23ª posição entre 62 participantes.
O auge viria em 1978: em um torneio gigantesco com 74 agremiações, o time grená alcançou a 10ª colocação geral, roçando as portas das quartas de final da Série A.
O Desbravador da Indústria

A visão estratégica de Francisco Stedile estendia-se muito além dos gramados. Homem de apurada sensibilidade para as demandas do mercado, ele compreendeu precocemente a importância da autossuficiência industrial. Sua trajetória começou na boleia de um caminhão. Naquela época, ter um veículo de carga significava ser um negociador itinerante. Francisco comprava madeira nas matas de Lagoa Vermelha e Vacaria, transportava a carga até Porto Alegre e realizava a venda.
Segundo o filho, o pai tinha um comércio na Rua Sinimbu e percebeu a escassez nacional de tambores de freio. Movido pela coragem, embarcou em um navio rumo à Itália em busca da tecnologia de fundição. Foram 30 dias de travessia marítima. Ao desembarcar no destino, contudo, deparou-se com uma exigência financeira que superava o seu capital inicial.
Sem o dinheiro necessário para a tecnologia dos tambores, retornou ao porto e descobriu que havia perdido o navio de volta — o próximo embarque ocorreria apenas um mês depois. O imprevisto transformou-se no grande divisor de águas da sua vida.
— Quando ele saiu do encontro e voltou para o porto, o navio já tinha ido embora, e o navio era de 30 em 30 dias. Assim, ele começou a andar nas cidades, aguardando os 30 dias. Ele passou em uma casa de peças e falando com o proprietário recebeu a resposta que não eram mais os tambores de freio que gastavam, e sim as lonas de freio que vão dentro do tambor, porque os tambores modificaram a sua liga, e a peça de desgaste agora são lonas de freio — recordou Franco.
Conversa vai e conversa vem, ele foi até uma fabricante de lonas que ficava próximo e já se acertou com o empresário italiano e assim nascia uma gigante da Serra:
— A Fras-Le, que inicialmente se chamava de Fran-Le, de Francisco, e Le de Stedile, e que mais tarde se transformou em Fras-Le, até hoje é uma das maiores fabricantes de material de fricção do mundo — afirmou.
Anos mais tarde, informado pelo governo estadual sobre a situação crítica da fabricante de tratores Agrisa, instalada em Sapucaia do Sul, Francisco negociou a transferência das máquinas para Caxias do Sul. Inicialmente produzindo motocultivadores de duas rodas, a empresa evoluiu para os tratores de quatro rodas, transformando-se na Agrale.
— Ele era um desbravador que agia pelo feeling e pela percepção do que o mercado necessitava pois não tinha nacional. Chegava às reuniões e anunciava: 'Comprei uma fábrica de tratores, vamos começar a trabalhar'. Ao incorporar a tecnologia para fabricar motores e tratores, a Agrale transformou-se em uma verdadeira escola de mão de obra para Caxias do Sul — explica Franco.
O Patriarca: amor, disciplina e memória

Apesar da rotina intensa de um dos maiores industriais do país, Francisco Stedile preservou a essência de um homem voltado ao lar. Casado com Amábile Zanandrea Stedile, com quem teve os filhos Alfredo, Vera, Carlos e Franco, além da neta Fúlvia, o empresário encontrava na família seu verdadeiro reduto:
— Minha mãe sempre foi a grande parceira dele. Enquanto meu pai avançava nos negócios, era a mãe quem acolhia os filhos, netos, genros e noras, atuando como a pacificadora de tudo isso com ele muito audaz em seus desenvolvimentos e a família quem unificava era mãe nisso tudo e apoiando ele — lembra Franco.
O ambiente familiar era pautado pelo afeto e por tradições inegociáveis. Todas as terças-feiras, Dona Amábile promovia um almoço obrigatório para família. Nos finais de semana, na chácara da família, Francisco fazia questão de assar o churrasco para a convivência com todos.
— Ele era muito rígido, muito justo, vamos dizer assim, e gostava de disciplina em toda a família. Esse era um ponto relevante dele. Uma das marcas que ficou da criação. Tanto é que todos estão aí, todos ajudam, todos são trabalhadores e ajudaram no crescimento do grupo — ressalta.
Ao ser questionado sobre a saudade que permanece duas décadas após a partida do pai, a emoção falou mais alto. A voz de Franco embargou e as lágrimas tomaram conta do escritório histórico no centro de Caxias do Sul.
— Ah, fica na memória... Fica gravado para sempre. A parte desafiadora (voz embargada) e a realização de tudo. Fica gravado. São poucos homens que fizeram e fazem a diferença, que foram alavancadores desse processo de desenvolvimento de Caxias — concluiu.

