
Para a família Bordin, o Juventude não é uma simples escolha esportiva, é uma lição de afeto. Nas arquibancadas do Estádio Alfredo Jaconi, aprende-se desde o berço que o clube não foi feito apenas para torcer, mas sobretudo para amar. Este é o ensinamento que Cláudio Bordin cultivou nos filhos, Letícia e Rafael, e que agora floresce na terceira geração com o pequeno neto, Matteo.
Para o pai Cláudio, frequentar o Jaconi é reviver a própria trajetória de vida. Foi ali que ele deu os primeiros passos, alimentou o sonho de menino de ser atleta e construiu a base para criar a sua própria família.
— Sinto um orgulho e uma felicidade imensos. Para mim, o Juventude não é apenas torcer: é um clube feito para amar. Fui criado aqui dentro desde a época da escolinha e, quando vi que não tinha o talento necessário com a bola nos pés, migrei para a arquibancada. Da arquibancada, a vida foi fluindo. Trouxe a minha filha desde pequenininha — como ela costuma dizer, vestida de kichute, meia e calção —, vivemos momentos bons e outros nem tanto, e hoje ela já construiu a sua própria família — relatou Cláudio.
Durante a entrevista ao jornal Pioneiro, o olhar de Cláudio marejou. A voz embargou e a emoção tomou conta do pai ao ouvir as palavras de carinho dos filhos.
— Fico até sem palavras. Já vivemos tantas coisas marcantes aqui no Jaconi. Somos uma família muito unida, estamos sempre nos abraçando e dizendo "eu te amo". Se eu puder deixar uma mensagem aos pais jaconeros, diria: tragam os seus filhos para o estádio. Tragam os filhos para vivenciarem a experiência que estou a viver agora. Quem traz os seus filhos para o Jaconi jamais se arrepende — completou.
Rafael e a conexão além do gol

Rafael Bordin tem transtorno do espectro autista. Para muitas pessoas com sensibilidade sensorial, o barulho do estádio com milhares de torcedores poderia parecer um ambiente adverso. Porém, para ele, o Alfredo Jaconi tornou-se um espaço de pleno acolhimento, superação e pertencimento.
— Gosto muito de estar aqui, o estádio me traz sempre bons momentos. Toda a vez que o Juventude marca um gol, me viro para o meu pai e dou um abraço apertado — recordou Rafael com carinho.
Cláudio recorda que o início da jornada exigiu paciência e coragem, mas o desafio transformou-se em uma das maiores vitórias da vida em família.
— O começo foi bem difícil para ele por causa do barulho e dos fogos de artifício na época. Mas ele não desistiu; foi um verdadeiro guerreiro. Hoje, ele poderia ter um espaço tranquilo lá em cima, de forma gratuita para nós, mas faz questão de estar no meio da torcida. Ele cresceu muito aqui dentro, absorveu esse clima e enfrentou jogos com até 18 mil pessoas, firme e forte ao meu lado. Desde pequeno, já ia sozinho buscar o refrigerante e o pastel dele — contou o pai com orgulho.
Para Rafael, acompanhar as partidas ao lado do pai supera qualquer estatística esportiva; trata-se de um momento de pura sintonia afetiva.
— Eu sinto uma conexão, é um momento de pai e filho que a gente torce por uma mesma coisa que a gente sente, se emociona — expressou o jovem.
O depoimento do filho renovou as lágrimas nos olhos de Cláudio:
— No caso dele, é ainda mais especial porque superamos juntos cada dificuldade. Ele é um menino extremamente carinhoso e, nos dias em que não podemos vir ao jogo, preocupa-se comigo e pergunta se estou triste. Esta cumplicidade de caminharmos de mãos dadas e nos abraçarmos no estádio é algo único. Ver o meu filho se expressar tão bem, dizendo que este é o nosso momento de união entre pai e filho, é o maior presente que eu poderia receber — revelou o pai.
Letícia tem o amor gravado na pele e na memória

A paixão pelo Juventude e pelo pai estão gravadas na própria pele da filha Letícia Bordin. Uma fotografia icônica tirada com o pai na arquibancada do Jaconi transformou-se em uma tatuagem no seu braço.
— A ideia da tatuagem surgiu em um dos acessos. Fomos os dois juntos fazer a primeira: marcamos o 'J' e o ano de 1913 — eu fiz no braço e ele na panturrilha. Com o passar do tempo, quis fazer uma homenagem ainda mais detalhada. Peguei numa fotografia nossa aqui na arquibancada e eternizei-a no braço como prova do meu amor pelo meu pai — disse Letícia.
Para Letícia, a herança recebida do pai é um sentimento que deve ser declarado e vivido diariamente.
— Demonstramos de tudo que a gente vive. A gente sempre fala "eu te amo". Além de falar, a gente demonstra e vive esse amor. E agradeço também por trazer esse legado de ser juventudista — concluiu a filha.





