
Você já deve ter percebido que a corrida de rua está em evidência. Em Caxias do Sul, basta circular pelos parques, ou até mesmo no Shopping Villagio, para encontrar os praticantes da modalidade. Inclusive, neste final de semana será realizada a Caxias 10 Milhas, uma das cerca de 30 provas previstas para 2026 na cidade, e que vai reunir 653 participantes.
Em nível nacional, pesquisa realizada pela Olympikus, marca esportiva brasileira, apontou que 15 milhões de pessoas se declararam corredoras em 2025, 2 milhões a mais do que em 2024. Em Caxias, a meia-maratona, uma das principais provas da cidade, registrou um crescimento de 350% no número de inscritos em 10 anos, saindo de 700 em 2015 para 3,8 mil no ano passado.
O crescente número de corredores tem pelo menos dois fatores, como aponta o educador físico Marialdo Rodrigues, especialista em Fisiologia do Exercício e Reabilitação Cardiovascular além de Treinamento de Corrida. O primeiro é a busca por hábitos mais saudáveis, e outro por questões de aceitação social, principalmente pelo crescimento que a modalidade teve no cenário digital:
— O que tu queres na corrida? Procurou a corrida por quê? Por qual objetivo está nela? E sim, é legal ter o objetivo de confraternizar, de ter a inclusão social, mas tu tens que primeiramente se preocupar com a saúde — alerta Rodrigues.
Exames de sangue e cardíacos são necessários antes de iniciar na modalidade. Além disso, Rodrigues diz que é fundamental que o praticante da corrida procure um profissional para auxiliar no processo. Mesmo que não exista um manual, o professor diz que é preciso respeitar a evolução das distâncias:
— Tem que passar por um processo de amadurecimento. Por exemplo, o iniciante, fazer cinco quilômetros em três meses. Não estou falando em prova, que seria algo como pode fazer ou não, tenho vários alunos que só treinam.
Outro ponto é o cuidado com os equipamentos. Não é necessário investir em grandes acessórios, como relógios que marcam as distâncias, tênis com placa de carbono, entre outros.
— Se tu queres ficar mais tempo na corrida, é legal que tu se apegues a um bom cuidado, ter um plano alimentar, pelo menos uma consulta com nutricionista ou ortopedista para quem já teve lesão prévia, além de exame cardíaco.
Pela longevidade no esporte
O fortalecimento é um dos pontos fundamentais para que as pessoas possam ter longevidade na corrida de rua. E Mariana Moschen, fisioterapeuta, especialista em biomecânica e maratonista, alerta que quando se fala em contexto preventivo, é preciso entender que o foco é na saúde de uma forma geral. Para isso, é importante conhecer o corpo e como ele reage aos estímulos de sobrecarga que o esporte gera, uma autogestão de carga.
O descanso é outro ponto de atenção dito pela fisioterapeuta, principalmente para que as fibras musculares cresçam, melhorem e se especializem. Ela também defende uma evolução gradativa no esporte.
— Quanto mais esse prazo de desenvolvimento na corrida for prolongado, mais conhecimento dos limites tu tens, e isso é importante quando falamos em gerenciamento de lesões, isso vem com o tempo. E duas coisas são importantes nas lesões, o maior fator de risco é ter tido ela uma vez, e a questão de quando procura um profissional da saúde, é quando a dor piora ao longo da corrida, quando baixa a performance e quando ela não impede, mas persiste por mais de 24 horas.

Além do físico, Mariana explica que é preciso entender o que se espera da corrida em um treino ou prova:
— Pode ser que chegue em um determinado momento em que tu estejas em um pico de cansaço que vai precisar manejar a energia. E isso pode ser aumentando o período de descanso, espaçando os treinos, investindo em treinos mais tranquilos, mudando algum perfil de treino. Se está cansado e sentindo uma dor que não impede de correr, vai para a bicicleta. Tu teres esse gerenciamento do corpo é importante para reduzir o risco de lesões. O repouso absoluto não é uma resposta para manejo de lesões, se sentir alguma coisa e ir direto para o repouso não é uma alternativa, mas também negligenciar os sintomas não é uma opção positiva, é encontrar um meio termo.
Importantes e necessários para manter a funcionalidade do corpo, os alongamentos não são necessários no pré-corrida. Aquecimentos de ao menos 10 minutos devem ser feitos para uma melhor resposta ao estímulo.
— A corrida não necessita de flexibilidade absoluta, só uma flexibilidade funcional que mantenha as articulações em movimento, mas não precisa ser extremamente alongado para correr.
Do sedentarismo à maratona
Há três anos, a farroupilhense Joelle Marchet Busetti, 43 anos, realizou uma cirurgia bariátrica e viu a vida mudar não somente pelo procedimento, mas pelos hábitos que passou a ter. Saiu do sedentarismo, colocou os esportes na rotina e agora já tem grandes objetivos traçados. O início da corrida foi um ano depois da operação, na esteira e apoiada pelo profissional que lhe acompanhava durante musculação.
No pós-cirurgia, emagreceu 40 quilos, e recebeu a orientação dos médicos para fazer musculação e caminhadas, que depois evoluíram para a corrida. Até fechar os primeiros cinco quilômetros, demorou aproximadamente três meses, e teve o apoio da família:
— Eu tenho uma filha que mora fora do país, e ela tinha contratado um aplicativo de corrida, que ajuda a correr cinco quilômetros. Eu estava seguindo, e quando fechei os cinco quilômetros, foram seis semanas. Fiquei em uma alegria tão grande, porque antes disso eu não conseguia me imaginar correndo 200 metros direto, era realmente uma vida bem sedentária que eu levava.

Hoje, Joelle treina com uma assessoria, que lhe dá o suporte para manter o foco e seguir de forma segura. Ela já realizou ao menos sete provas de meia-maratona, e uma de 26 quilômetros. Agora, se prepara para a primeira maratona, que será em julho, em Porto Alegre.
— A corrida me faz acreditar em mim, eu acredito que consigo o que me propuser a fazer, e hoje é um respiro pelas questões da vida de adulto, de trabalho, ou de problemas. É um refúgio — afirma Joelle, que ainda complementa sobre o futuro no esporte:
— Eu não quero parar. Eu não sei depois da maratona o que vai acontecer, se vou aumentar a quilometragem, se vou continuar fazendo 42, se fico nos 21, essa parte eu não sei por que preciso saber o que vou sentir com a maratona.


