
O silêncio das arquibancadas muitas vezes ecoa mais forte dentro da mente de um atleta do que o barulho das grandes decisões. No futebol, onde o sucesso é medido por cifras e troféus, a luta contra a depressão revela que a estabilidade financeira não serve de escudo contra as dores de mente. Para quem já brilhou em estádios lotados, o maior adversário deixa de ser o marcador implacável e passa a ser o vazio de um mundo abstrato que, aos poucos, consome o vigor físico.
Aos 34 anos, o atacante Geuvânio tenta reescrever o capítulo final de sua carreira no Votoraty, clube que retoma as atividades profissionais na última divisão de São Paulo. O atleta também enfrenta o silêncio da depressão após o auge da carreira. Revelado como promessa do Santos após a era Neymar, o jogador acumulou passagens por Flamengo, Atlético-MG e pelo futebol chinês. Em 2023, vestiu a camisa do Juventude em uma passagem rápida pelo Estádio Alfredo Jaconi: foram apenas dois jogos pela Série B e 45 minutos somados em campo, sem gols marcados.
Após deixar Caxias do Sul antes do acesso alviverde, o atacante enfrentou quase dois anos de inatividade, período em que cogitou o abandono definitivo da profissão, conforme revelou em entrevista ao ge.globo:
— Estava cogitando não querer mais jogar profissionalmente. A gente não é super-homem, tem que assumir que precisa de ajuda. Acabei perdendo um pouco do caminho, tive problemas pessoais de cabeça e me abati. É o que as pessoas não enxergam: às vezes tem dinheiro, mas você não está feliz — revelou Geuvânio.
Com a vida financeira estabilizada por investimentos imobiliários e contratos anteriores, o retorno aos gramados não é motivado pela necessidade financeira, mas pelo aspecto familiar e psicológico. O atleta mantém acompanhamento profissional para lidar com o transtorno.
— Estou passando no psicólogo para continuar o trabalho. Não achava justo terminar da forma que estava. O fato de estar voltando é mais para encerrar a carreira de forma legal, de poder entrar em campo com meus filhos e não parar do jeito que parei — explicou.
O obstáculo das lesões
Além do fator emocional, Geuvânio aponta que as recorrentes lesões físicas — especialmente na panturrilha — foram determinantes para o desânimo com o esporte. No Juventude, a maior dificuldade foi justamente a recuperação física de uma lesão muscular na coxa, o que limitou suas aparições contra ABC e Ponte Preta.
— As lesões tiraram um pouco do meu foco. Quando ia voltar a jogar, machucava. Isso foi me desanimando. Apareceram alguns clubes, mas não dava certo, eu não conseguia fechar. Me encontro hoje em uma situação que estou tentando retomar — concluiu o atacante.
Agora, no Votoraty — clube que projetou Fernando Diniz como técnico —, Geuvânio busca transformar a "lenha que ainda tem para queimar" em um encerramento digno para uma trajetória marcada por altos e baixos, dentro e fora das quatro linhas.





