
A gestão de um vestiário de futebol assemelha-se, em muitos aspectos, à condução de um pensamento filosófico: exige interpretação, ética e uma compreensão da natureza humana. É sob essa ótica que Farnei Coelho assume a diretoria executiva do Caxias.
Graduado em Filosofia pela UFPEL e em Educação Física pela UFRGS, o riograndino de 42 anos carrega no nome uma homenagem ao "Sinatra Brasileiro", Dick Farney, mas no currículo traz o pragmatismo de quem entende que o sucesso esportivo nasce da organização dos processos.
Com passagens vitoriosas por Ypiranga e Nova Mutum, ele chega ao Estádio Centenário com a missão de reestruturar um departamento que clama por novos ares e resultados positivos. O futebol corre no DNA de Farnei desde a infância na Vila da Quinta, em Rio Grande, onde o aprendizado começou nos campos amadores da região e partiu para o futebol. Essa construção social permitiu que ele errasse e aprendesse "em casa", passando por Rio Grande, Riograndense e São Paulo-RG antes de ganhar o Brasil.
— Eu queria jogar futebol incentivado pelo pai, eu ia para os campos amadores. Eu saí de Rio Grande, primeiro São Borja, depois o Mato Grosso, eu já me sentia mais preparado, não só com a questão social, de tudo aquilo que eu tinha vivido culturalmente dentro do futebol, mas também aquilo que eu tinha estudado e com as referências — explicou o executivo em uma entrevista ao FootHub Podcast, em 2023.
Começo no Ypiranga
No Ypiranga, Farnei teve de operar com orçamentos enxutos — chegando a gerir uma folha de R$ 250 mil, com teto salarial de R$ 15 mil — e colher títulos como o do Interior e a Taça Farroupilha. Sua metodologia baseia-se em um banco de dados, que chegou a ter mil nomes catalogados durante o isolamento da pandemia, mas que reduziu para quase 300 para ter o controle de monitoramento.
Um ponto elogiado dentro do Ypiranga era a busca por atletas com passagens pelas categorias de bases de grandes times:
— Não é tão simples de tu montar, fazer um convencimento. Você tem que fazer todo um projeto para o jogador se inserir dentro de uma comunidade. Então, o jogador quando chega ali, ele se sente bem, mas sabe que tem um ambiente todo favorável para que ele cresça — revelou na época.
Nomes de peso como referência

O novo executivo do Caxias bebe de fontes distintas, mas de peso no cenário esportivo. Indo do "caderninho" de observações de Fernando Carvalho a outras figuras importantes. Farnei é um executivo que já fez de tudo dentro dos clubes do interior, de contratos e até registros. Ele recorda da sua chegada ao Ypiranga, que precisou fazer uma reformulação no grupo, como o Caxias terá pela frente:
— A direção na época deixou a gente trabalhar, deixou a gente construir o time quando. Eu cheguei tinha 10 jogadores no plantel. Desses 10, cinco a gente entendia que naquele modelo não servia. Então o primeiro trabalho foi desconstruir aquilo, jogadores que estavam há muito tempo no clube, e aí a gente acabou liberando um, emprestando outro — lembrou Farnei, que colocou em prática ensinamentos de outra referência:
— A gente também foi beber da fonte do Alexandre Matos pra fazer a proposta, o convencimento do cara, às vezes viajando e indo lá conversar com o cara, muitos jogadores emprestados. A metade do plantel mais ou menos são emprestados porque a gente tinha uma folha baixa — contou.
Conselho de Marco Aurélio Cunha, do São Paulo
Agora, mais maduro e com referências de nomes como Rodrigo Caetano e Felipe Ximenez, ele buscará aplicar no Caxias a máxima que ouviu de Marco Aurélio Cunha em 2008:
— Quando eu comecei a ingressar dentro do futebol profissional no São Paulo, eu fui visitar o Marco Aurélio Cunha, tinha sido o tricampeão brasileiro. Ele me atendeu na arquibancada, 15 minutos, mas foi muito válido porque eu aprendi uma coisa, aposta em casa, aposta na categoria de base, monta grupo pequeno, usa o teu dinheiro pra contratar jogador que resolva o problema — recordou.





