
Naquela mesa ele sentava sempre, e a saudade agora transborda em um Jaconi que parece ecoar os versos de Nelson Gonçalves para narrar uma trajetória de herança e superação. Aos 21 anos, Ray Breno assumiu o protagonismo ao selar a classificação dramática do Juventude às semifinais do Gauchão. Ele não carregava um bandolim, como na canção, mas sim uma bola e a determinação de quem sabia que o chute certeiro contra o São José, aos 55 minutos do segundo tempo, valia muito mais que uma vaga.
Aquele gol foi a entrega de um pacto sagrado, firmado entre três gerações de uma família que se recusou a parar de acreditar. O peso emocional desse momento remete à infância de Ray, quando antes de ver seu avô partir, seu pai fez uma promessa.
— Quando eu ainda era um garoto bem jovem, acho que com nove ou 10 anos, meu avô passou por uma diabetes e ele sempre teve um sonho do meu pai ser jogador, e meu pai não conseguiu — relembrou o atleta, visivelmente emocionado.
Perto do passamento de seu avô, o pai de Ray selou uma promessa no leito de morte do ente querido:
— Meu pai me levou junto a ele e falou: "Pai, eu não fui jogador mas esse aqui eu vou fazer de tudo pra ser". Eu me emociono. É uma realização de um sonho. Certeza que ele está muito orgulhoso de mim, e aquela cena eu guardo na minha memória até hoje — lembrou emocionado.
Para transformar o desejo em realidade, o pai de Ray Breno enfrentou o ceticismo de muitos em sua terra natal. Foram dias difíceis até chegar a noite desta segunda-feira, no Estádio Alfredo Jaconi, e cravar seu nome na vitória por 3 a 2 sobre o São José.
— Meu pai, na cidade de Natal-RN, que a gente mora, largou tudo, casa, carro. Chamaram ele de louco e maluco, porque eu tinha apenas nove anos, sem a certeza se eu iria realizar o sonho — relatou o jogador.
Muitos "nãos"
O caminho foi de mais baixos do que altos, começando por uma dispensa no Flamengo, por ser considerado "pequeno demais". Naquele momento de incerteza, a força veio do próprio menino:
— O Vasco abriu as portas para mim. Só que antes disso meu pai perguntou se eu queria voltar para a nossa terra natal, se eu queria desistir de tudo. Eu olhei para ele e falei: "não pai, a gente vai continuar" — detalhou.
A jornada no Rio de Janeiro foi marcada por sacrifícios. Em 2025, Ray teve uma lesão ligamentar e o drama sobre o futuro aumentou. Em São Januário, ele chegou a integrar o elenco profissional, mas não entrou em campo. Antes dos adversário, ele encarou a dor mais cruel, da fome:
— Muitas das vezes só tinha eu e meu pai, a gente passou alguns perrengues, passamos fome. E meu pai nunca desistiu, meu pai sempre acreditou. Meu pai falava que tudo isso ia passar — contou Ray Breno.
Desfalque na Arena
No ápice da adrenalina, ao marcar o gol decisivo contra o São José, Ray Breno deixou-se levar pela emoção, retirou a camisa e acabou expulso pelo segundo cartão amarelo. O erro juvenil o tira do primeiro jogo da semifinal contra o Grêmio, mas não diminui sua fé no grupo.
— Agora vamos por mais, agora tem o Grêmio pela frente, não estarei nesse primeiro jogo, mas com certeza minha energia, minha torcida, meus companheiros, que a gente possa fazer um grande resultado lá para continuar fazendo história — concluiu o jovem que, finalmente, pôde dizer ao pai que a promessa está sendo cumprida.




