
Pelas mãos, ele traça as palavras em um diálogo de inclusão, e pelas braçadas escreve uma história de superação que cruzou o oceano. O jovem Keuryn Gabriel da Rosa Anelli, 22 anos, domina o idioma das águas e, assim, garantiu sua vaga na primeira Surdolimpíada. Neste ano, o maior evento da comunidade surda será em Tóquio, no Japão, de 15 a 26 de novembro.
Nesta segunda-feira (10), o surdoatleta do Recreio da Juventude iniciam a viagem para o grande desafio, do outro lado do mundo. Natural de Canela, ele vive em Caxias do Sul desde 2014 e começou na natação a pouco mais de 10 anos.
— Eu comecei com 15 anos num projeto da SMEL (Secretaria Municipal de Educação e Lazer), de Caxias do Sul. Na época a gente tinha o professor Thiago, que me ensinava. Eu treinava segunda, quarta e sexta, e terça e quinta era pela Secretaria de Esportes, que tinha um projeto paralímpico e surdolímpico — comentou o jovem.

Aos poucos, Keuryn foi criando gosto pela natação e começou a evoluir. Com o desempenho, ele foi de cabeça para as águas e buscou desenvolver o lado técnico de forma mais forte. Atualmente, ele faz parte do time do Recreio da Juventude, com a técnica Daniela Hollweg Gonzalez.
— No início era bem difícil, eu tive que me esforçar bastante, porque sim, eu não tinha as técnicas, e comecei a aprender aos poucos. A respiração era muito difícil para mim, a virada olímpica, tudo era muito difícil no início porque eu não tinha experiência. Meus tempos não eram bons. Foi muito treino, muito esforço e muita persistência — destacou o jovem, que já nasceu surdo e revelou treinar com outros atletas ouvintes, que falam e escutam:
— Eu faço competição com ouvintes também, eu aprendo muito, consegui reduzir muito o meu tempo, mesmo competindo com ouvintes. Essa inclusão tem me favorecido muito, e eu espero chegar lá e conseguir conquistar essa medalha.

EXEMPLO E SONHO NO JAPÃO
O esporte foi um canalizador para Keuryn. Foi aonde ele se encontrou e começa a conquistar o mundo. Independente da sua situação, ele encarou a realidade e não se escondeu de uma sociedade cercada de arestas e preconceitos. Ser surdo não virou uma limitação para o nadador, se tornou uma oportunidade de conhecer um novo mundo e a sua história pode se tornar exemplo para outros jovens:
— Eu sou um modelo para as crianças e pros adultos também, porque eles podem começar como eu comecei. Eles podem também evoluir. A gente começa muito cru, mas é o treino, é o esforço, é a dedicação que vai fazer a gente ser um atleta de alto nível — refletiu.

A sua primeira competição internacional foi o Pan-Americano de Surdos, em Canoas. Na ocasião, ele sentiu o peso da prata no peito. Em território nacional, ele foi campeão Brasileiro nas provas de 50m livre e 100m livre em 2025. Seu melhor tempo nos 50m livre foi de 24s65.
Antes de pensar em preparar as malas para o Japão, Anelli teve de contar com a ajuda de amigos e familiares. O surdoatleta fez uma campanha online de arrecadação de recursos para os custos para a viagem.
— Eu quero ser orgulho para Caxias e para o Rio Grande do Sul como representante da natação. Isso é muito importante, a gente ter uma medalha. Quero trazer essa medalha para o Brasil. Meu objetivo é fazer a prova borboleta de 50 metros, também a de 100 metros livre e a prova em equipe, que é o 4x100 livre. Meu objetivo é conquistar uma medalha — contou Anelli, que completou:
— Eu nunca imaginei (estar lá). Antes, eu sempre pensava em nadar, mas depois da Surdolimpíada que teve aqui em Caxias do Sul, em 2022, eu pensei: "É possível participar de um Mundial". Mas eu nunca tinha imaginado que conseguiria. Foi muita dedicação por um sonho. Eu tive que lutar por esse sonho, tive que ter muito foco. É prazeroso estar nadando e eu fico muito feliz com tudo que eu conquistei.

