
Aos 65 anos, o alagoano Manoel Ferreira poderia estar curtindo sua aposentadoria em Caxias do Sul de forma tranquila. Mas não foi o que o ex-atleta do Juventude quis fazer nessa etapa da vida.
Pelo contrário, depois de uma carreira dedicada ao futebol, ele quis proporcionar a jovens que não tinham muitas perspectivas na sociedade de fazer desse esporte um motivo a mais para acordarem todos os dias.
Revelar talentos e ainda contribuir significativamente com a formação educacional de crianças e adolescentes de até 14 anos. É assim que Ferreira trabalha com os jovens no Projeto Brilhar, em Caxias do Sul.
— Hoje nós temos no projeto 75 alunos. Eu estava trabalhando até quatro meses atrás com adolescentes de até 15 anos. Então, a gente resolveu trabalhar com os de 13, 14 anos. A grande maioria é daqui de Caxias. E a gente faz um trabalho legal de fundamentos com eles para que possam sair do projeto e ingressar em clubes como Caxias e Juventude. Já levamos dois que nasceram em 2016 para fazer teste no São Paulo, voltaram para o Juventude. E no dia 11 levamos sete jogadores para fazerem teste no Flamengo, no núcleo que eles têm em Curitiba — comentou Ferreira em entrevista ao Show dos Esportes, da Gaúcha Serra.
A maioria dos atletas oriundos do Projeto Brilhar acabam sendo aproveitados no Estádio Centenário.
— A gente manda para o Caxias porque no projeto eles não disputam campeonato estadual ou municipal. Então, eles ficam ali e vão se desmotivando. E esses meninos têm potencial. A gente prepara eles bem e mandamos para o Lairton Zandonai (coordenador da base do Caxias) para seguirem suas trajetórias.
Preparação de quem viveu dentro das quatro linhas

Natural de Maceió-AL, Ferreira foi atleta do alviverde na década de 1990. Além de atuar no futebol caxiense, passou por equipes como Santos, Ferroviária, CRB, Sergipe, Santo André, Honda (JAP) e Anderlecht (BEL). Apelidado de "Ferreira Pedalada", o ex-atleta recorda dos velhos tempos sem falsa modéstia:
— Rapaz, era muito habilidoso. Jogava na habilidade e na raça. Naquele tempo, mesmo com os campos molhados, eu jogava muito. Eu acabei de falar com o Toninho Carlos (ex-zagueiro do Santos) e ele lembrou que quem inventou a pedalada no Santos não foi o Neymar nem foi o Robinho, fui eu.
A experiência do ex-atleta é fundamental para a formação de novas promessas no futebol.
— A gente prepara eles, treinando. É um trabalho leve. Deixamos os meninos tranquilos por ser um trabalho social, eles brincam. É o que está faltando no futebol. A gente vê hoje os jogadores, em geral, muito sérios, não dão um sorriso. É muita pressão e eles não conseguem ficar mais juntos. No nosso tempo, acabava o treino, nós ficávamos sentados no campo batendo papo, deitados na grama conversando sobre a família — recordou Ferreira.
O Projeto Brilhar iniciou quando Ferreira abandonou os gramados. No Juventude ele atuou até 1992, mas no futebol japonês ele dividia as funções de atacante e professor de escolinha.

— Eu já tinha um projeto no Japão. Eu jogava no Honda em 1986. E como era muito engraçado — fazia gols, ia na torcida e tirava a camisa — o técnico Miyamoto me chamou e pediu para eu fazer um treino para os meninos filhos de funcionários da Honda. Jogava e dava aula. Eu vim encerrar minha carreira no Juventude e disse que iria colocar uma escolinha de futebol — relembrou Ferreira, que completou:
— Quando eu encerrei a carreira no Juventude em 92 fui para a Marcopolo trabalhar no setor de controle de qualidade. Olhei aquele espaço todo, a sede campestre. E eu saía do setor para conversar com os pais que tinham filhos. Os meus chefes ficavam todos loucos comigo (risos). E ali eu montei uma escolinha. Trabalhava na Marcopolo das 22h às 6h. Não ia para casa. Eu ia para a sede com os filhos dos funcionários dar aulas.
Às vezes, um pai, uma mãe botam o filho na escola e já querem cobrar que ele comece voando em campo. Se começar pelo telhado, a casa vai cair
FERREIRA
Projeto Brilhar
Ferreira não apenas trabalha fundamentos com crianças e adolescentes como faz parte do crescimento educacional delas. Frequentemente todas participam de ações e tem obrigações como o de arrumar e limpar as quadras e gramados onde jogam. Ter disciplina é fundamental para estar no projeto, mas, ao mesmo tempo, um toque de alegria e satisfação estão presentes, pois todas se envolvem na construção de uma grande família.
— O projeto é muito grande. Tem os pais que ajudam, pagam a mensalidade, recebemos doações, uniformes. Temos a área de psicologia no projeto. É algo importante e voluntário, bem como nutricionistas, que são mães da escola. Não pagamos o campo em São Virgílio. É só cuidar, zelar, o dia todo. Temos também a quadra no bairro Cruzeiro, pagamos por ela. E nós temos as contas a pagar, a gasolina, a comida — aponta Ferreira, que conclui:
— Eu nunca pedi nada não a ninguém. Quem quiser ir lá conhecer porque pra ajudar tem que conhecer primeiro. Não adianta só ficar pedindo as coisas, tem que sentir.
Por fim, o incansável atleta e eterno sonhador compara o projeto como a construção de uma casa.
— Você tem que, em primeiro lugar, dos cinco aos 10 anos, adquirir educação, que seria o alicerce da casa, é a base. Depois vem as paredes. Aos treze está pronta a parede que é o avanço, a parte técnica e física. Depois dos treze, aos dezesseis anos, é o estágio de domínio, que é o telhado. Está pronto o telhado vai entrar a família, onde se somam educação, o caráter, o respeito um com o outro. Às vezes um pai, uma mãe botam o filho na escola e já querem cobrar que ele comece voando em campo. Se começar pelo telhado, a casa vai cair verdade — finalizou Ferreira.






