
Setor em franca ascensão no Brasil, a vitivinicultura brasileira é destaque mundial pelo crescimento, ao mesmo tempo em que o mundo diminui a produção e o consumo de vinho. Em 2025, de acordo com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), foi um dos países com maior recuperação na produção da bebida. A estimativa é de 290 milhões de litros, um aumento de 38% em relação a 2024 e 15% acima da média dos últimos cinco anos.
Na última semana, especialistas do Brasil, da Europa e a própria presidente da OIV, Yvette Van der Merwe, estiveram em Bento Gonçalves na 2ª edição do Enomeeting, congresso voltado ao debate sobre o universo do vinho, o estado atual da produção vitivinícola e as tendências para o setor.
Conforme a presidente da entidade mundial, o Brasil é particularmente notável por ter apresentado uma das recuperações mais fortes entre países produtores, o que mostra a resiliência dos produtores locais. Em 2026, os desafios apontados por Yvette são as geadas, escassez de água e danos em função do clima. Mesmo assim, o Brasil tem uma expectativa positiva com relação à produção.
— A volatilidade não é mais exceção, mas o novo normal, gerado pela escassez de água, condições extremas do clima e mercado. A incerteza continua. A pergunta não é mais se vai ter mudança, mas como vamos responder. Adaptação não é mais opção, mas essência, assim como resiliência — afirma.
Em âmbito mundial, o setor do vinho está em transição. Conforme Yvette, fatores relacionados ao clima, consumidores, mercado, inovação e sustentabilidade são chave para o novo momento.
— O futuro dos vinhedos globais será menos pela expansão e mais pela estratégia. O desafio não é só produzir, mas criar mais valor de cada hectare produzido — provoca a presidente da OIV.
A demanda do mercado mundial reduziu em 2025. A queda foi de 2,7% em comparação com 2024. Mercados tradicionais, como os dos países europeus, reduziram o consumo e a produção. O Brasil, no entanto, vai na contramão desse dado. Por aqui, foram 440 milhões de litros consumidos no ano passado.

— Podemos notar que o comportamento do consumidor está evoluindo. É uma das mensagens mais importantes. Quando vemos declínio do consumo, é fácil dizer que está perdendo consumidor, mas acho que é mais complexo. O vinho não está desaparecendo, mas o consumidor está bebendo diferente, procurando qualidade, autenticidade, experiência, conveniência e valor. Requer uma reflexão honesta do setor — diz.
O que esperar do futuro do setor? Segundo Yvette, o horizonte terá agricultura de alto valor, lugar, cultura, herança e identidade. E acrescenta que o setor cria empregos, sustenta comunidades rurais, forma paisagens e, se desenvolvido de forma responsável, pode contribuir com a biodiversidade e conectar pessoas.
Técnica inverte a colheita

Nos últimos anos, a produção de vinhos tem ido além das fronteiras do Rio Grande do Sul, Estado que mais produz a bebida e a uva. Locais onde há pouco frio e períodos chuvosos no verão passaram a se tornar novos terroirs brasileiros. É o caso de Minas Gerais, São Paulo e Brasília, por exemplo.
A colheita lá é feita no período de inverno, diferentemente do que é praticado no Sul. Aqui, nesse período, é quando a videira fica em dormência. Lá, com a dupla poda, é quando a fruta fica pronta para ser colhida.
— O ciclo tradicional dela seria a maturação e colheita durante o período do verão, só que no Sudeste e no Centro-Oeste, onde a técnica é utilizada, o verão é muito chuvoso e nós temos muitos problemas para a maturação da uva. Problemas com doenças e dificuldade de maturação. Então, desenvolvemos essa técnica para que seja colhida no inverno, em que temos tempo seco, dias ensolarados e noites frias, que são características fundamentais para a produção de uva de qualidade — explica a enóloga e consultora em vitivinicultura Isabela Peregrino.
Isso permite que regiões de clima tropical também possam ser produtoras de uva. É por isso, segundo Isabela, que a viticultura no Sudeste e Centro-Oeste tem se expandido.
— Antes a gente tinha muita dificuldade para conseguir uva de qualidade e elaboração de vinhos de qualidade. Então, através do uso dessa técnica, foi possível fazer a produção de uvas e, consequentemente, de vinhos de qualidade nessas regiões — analisa.
A técnica não é exatamente nova, já que começou a ser testada no início da década de 2000, quando o então pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) Murillo de Albuquerque Regina começou os estudos sobre a prática de manejo. Mas vem ganhando mais notoriedade com o crescimento na produção dos chamados vinhos de inverno.
Sustentabilidade da produção à garrafa

O português Pedro Felix, executivo de carreira internacional na Amorim Cork, maior produtora de rolhas do mundo, trouxe à tona a necessidade de olhar para a sustentabilidade ambiental na produção de uva e vinho.
Com experiências na Itália, Argentina e em mercados estratégicos da Europa e América do Sul, a avaliação do especialista é que a preocupação com o tema é especialmente relevante para uma atividade ligada diretamente à natureza, à cultura e ao território, como é a vitivinícola.
— O vinho é um produto natural e, como tal, tem de cuidar do ambiente e, obviamente, tem de ser rentável. Se não for rentável, nenhuma atividade se sustenta — resume.
Segundo ele, a vitivinicultura historicamente já apresentava características sustentáveis, mas algumas práticas se tornaram menos adequadas com o processo de industrialização. Nos últimos anos, no entanto, empresas de diferentes países passaram a rever processos e buscar maneiras de reduzir o impacto da produção.
No campo, segundo Felix, a busca por práticas mais sustentáveis também ganha espaço, com alternativas para reduzir o uso de químicos e melhorar a utilização dos recursos naturais. Já na indústria, há fornecedores que já oferecem soluções como garrafas mais leves, que reduzem a pegada de carbono do transporte, além de diferentes opções de embalagens e materiais, como a rolha de cortiça.
O desafio, no entanto, é de agregar os pequenos produtores a esse tipo de inovação. Segundo Felix, enquanto grandes empresas têm condições de manter profissionais dedicados exclusivamente à sustentabilidade, essa realidade é diferente para as pequenas vinícolas.
Vitivinicultura ecológica

O produtor espanhol de vinhos naturais Juan Carlo Sancho apresentou a realidade do país ibérico na produção vitivinícola ecológica. Segundo ele, a Espanha é uma das potências mundiais desse segmento.
O produtor aponta que, até 2033, a venda de vinhos ecológicos deve superar os US$ 30 milhões, se consolidando como uma nova tendência entre consumidores que buscam por produtos menos industrializados e mais únicos.
— Pesquisas mostram que o jovem está disposto a pagar 10% a mais por esse tipo de produto — afirma.
Em resumo, o vinho natural é feito com a mínima intervenção humana no vinhedo e na adega, utilizando apenas uvas cultivadas sem agrotóxicos e sem a adição de produtos químicos ou aditivos artificiais.
Uma tendência de mercado, segundo Sancho, que, além de atender à demanda do consumidor, também se alinha a um interesse estratégico das organizações em ser sustentáveis. No contexto de mudanças climáticas e eventos extremos, explica o espanhol, as áreas vitícolas podem mudar em até 70% no mundo, por isso, é preciso que os produtores estejam atentos às tendências de sustentabilidade e preservação.

