
Durante décadas, a indústria da moda foi marcada pela velocidade. Produzir mais, lançar mais rápido e colocar novas tendências à disposição do consumidor em um intervalo cada vez menor, um modelo que ficou conhecido como fast fashion. Paralelamente a esse crescimento, ganhou força um movimento que propõe justamente o contrário: o slow fashion, que busca uma relação mais consciente e sustentável com a moda, priorizando a qualidade, a durabilidade e a produção têxtil responsável.
Para a pesquisadora de moda e design Beth Venzon, compreender esse movimento exige voltar às transformações ocorridas principalmente a partir do final do século 20. O avanço tecnológico e a globalização permitiram ampliar a produção e fazer com que um produto fosse criado em um país e fabricado em outro. Ao mesmo tempo, a informação passou a circular em uma velocidade inédita.
Foi nesse cenário que o fast fashion ganhou força, especialmente a partir dos anos 1990. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a expansão internacional da espanhola Zara, que, na época, abriu uma loja em Paris. O novo modelo combinava rapidez na produção, renovação constante das coleções e maior acessibilidade ao consumidor.
A velocidade passou a ditar não apenas a produção, mas também o consumo. Os ciclos de criação, fabricação, distribuição e comercialização foram encurtados. No início, segundo a pesquisadora, ainda havia preocupação com a qualidade da construção das peças. Com o passar do tempo e a intensificação da disputa por preços e rapidez na entrega, porém, a qualidade também passou a ser pressionada.
O conceito de slow fashion ganhou força nos anos 2000 como uma reação a esse modelo de produção acelerada. A proposta não significa abandonar a tecnologia ou voltar a uma produção exclusivamente artesanal, mas repensar o tempo e o significado envolvidos na criação de uma peça.

— O slow fashion vem ao encontro de um movimento contrário à questão do fast fashion: não para a velocidade, mas buscando qualidade, informação e desenvolvimento. É pensar mais os processos da criação — observa Beth.
A pesquisadora relaciona esse movimento também à retomada da valorização da alta-costura e dos fazeres manuais. Historicamente, a alta-costura surgiu como um contraponto à produção industrial e, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, voltou a ganhar espaço.
A proposta também abriu espaço para o fortalecimento de marcas ligadas ao território e à produção local. Em vez de uma peça ser vista apenas como um produto, a história por trás dela passa a ser valorizada: quem fez, onde foi produzida, quais materiais foram utilizados e quais processos foram necessários para chegar ao resultado final.
— O slow vai te fazer pensar numa questão não de volume, mas de qualidade, fazeres, pessoas, tempo. Então, esse movimento faz com que se preserve muito mais essas identidades. O que vai desencadear um processo, que a gente vive nos últimos anos, nessa ideia do local, do design de território — analisa.
Filosofia pessoal que se tornou profissional
O desejo de encontrar uma lingerie que respeitasse o próprio corpo foi o ponto de partida para a criação da Ariel Studio, marca comandada pela empreendedora e designer de moda Ana Ariel Rodrigues. A empresa surgiu a partir de uma experiência pessoal, ao longo da trajetória, incorporou princípios do slow fashion e da produção artesanal.
Na época, ela conta que tinha dificuldade para encontrar peças com as quais se sentisse confortável. O mercado era, em boa parte, dominado por modelos com bojo e estruturas que, segundo ela, não correspondiam ao que procurava. A partir daí, surgiu a ideia de desenvolver a própria modelagem.

A personalização se tornou uma das características do Ariel Studio, já que cada cliente pode escolher um modelo e adaptá-lo ao próprio estilo corpo.
— Eu acho que a indústria colocou todo mundo em quadrados muito iguais e, principalmente para nós mulheres, isso não funciona. A gente é muito diversa — afirma Ana.
A preocupação com o slow fashion também aparece na escolha dos materiais. Para Ana, o modelo está relacionado também a outros princípios, como o comércio mais justo e a valorização de fornecedores locais. É por isso que a empreendedora procura priorizar fabricantes brasileiros, especialmente na compra de elásticos e rendas.
— Se puder ser da cidade, que seja da cidade. Se eu puder comprar de alguém que está com um material menor, a gente compra — diz.
Para Ana, slow fashion não é apenas um movimento ligado à indústria da moda, mas uma filosofia que pode orientar diferentes escolhas do cotidiano. Nos últimos anos, a empreendedora também buscou conhecimentos sobre branding de luxo e, recentemente, reformulou a marca para reforçar ainda mais o caráter artesanal.
A lógica se contrapõe ao consumo baseado na substituição de peças a cada nova temporada. Na proposta da marca, a produção mais lenta, a personalização e a escolha dos materiais fazem parte de uma tentativa de fabricar menos, com mais atenção aos detalhes.
— Foi uma coisa pessoal que foi para o profissional de uma forma bem natural — resume Ana.
Embora tenha começado na Serra gaúcha, o Ariel Studio atende clientes de diferentes regiões do Brasil de forma online.
Identidade sob medida

A descoberta de uma habilidade manual durante um curso de bordado, ainda durante o Ensino Médio, ajudou a designer de moda Martina Cambruzzi a encontrar o caminho profissional que trilha hoje.
Entre experiências com o bordado, estudos no Brasil e em Milão, na Itália, e diferentes modelos de negócio, ela consolidou uma identidade própria e passou a se dedicar exclusivamente à produção de peças sob medida.
Na Itália, passou a trabalhar principalmente com desenvolvimento de coleções. O contato com esse tipo de criação teve papel importante na construção da identidade visual da designer. Para Martina, conhecer diferentes possibilidades de criação foi fundamental para que pudesse desenvolver referências próprias antes de se dedicar ao trabalho sob medida.
— Se tu entras no sob medida sem saber quem tu és, sem tua identidade, sem tua referência, tu não tens muito de onde tirar para criar. Acaba sendo muito mais fácil replicar um trabalho do que criar o seu — explica.
De volta ao Brasil, em 2021, Martina começou a trabalhar com coleções e experimentou diferentes modelos de negócio na grife própria. A mudança para o trabalho sob medida aconteceu de maneira quase espontânea, quando uma amiga pediu ajuda para encontrar um vestido para uma premiação. Depois, vieram outros pedidos e, aos poucos, o modo de produção passou a ocupar cada vez mais espaço na agenda.
Em janeiro de 2026, a designer decidiu interromper a produção de coleções e dedicar a marca exclusivamente ao sob medida. Entre os trabalhos atuais estão vestidos para baile de debutantes e para a rainha do clube.
Para desenvolver os modelos, Martina conta com fornecedores nacionais. Entre os materiais utilizados estão tecidos produzidos a partir de processos menos convencionais. Para um dos vestidos em desenvolvimento, a designer escolheu um tecido produzido por uma fábrica de Maringá, no Paraná, que utiliza casulos de seda reaproveitados, considerados inadequados para a produção convencional, combinados com material proveniente de garrafas PET.
Além da moda, desacelerar na rotina

Depois de anos dedicados à Medicina, Paula do Amaral encontrou na cerâmica uma atividade para desacelerar. Em 2022, começou a fazer o trabalho em Nova Petrópolis, primeiro como um hobby. Inicialmente, eram vasos e pratos. Depois, aliou a cerâmica com outra antiga curiosidade: a joalheria.
— A cerâmica foi surgindo depois da pandemia, que, para mim, foi muito estressante, porque trabalhei na linha de frente. É muito terapêutico, tu desligas de todo o resto assim. E, ao mesmo tempo, era uma ideia que eu tinha também, já há muitos anos. Antes de eu entrar na Medicina, eu tinha pensado até em fazer design, alguma coisa de joalheria — conta Paula.
O resultado foi a criação de uma marca de acessórios na qual quase todas as etapas passam pelas mãos da empreendedora. Da modelagem da cerâmica à montagem das peças, Paula mantém uma produção pequena e personalizada.
Aos poucos, viu que havia um público interessado nos acessórios de cerâmica que começavam a aparecer nas redes sociais. A Dote Joias começou a ganhar forma lentamente. Hoje, os acessórios são vendidos pela internet, principalmente por meio do Instagram e do WhatsApp. Paula, inclusive, já enviou peças para diferentes Estados brasileiros.
A produção segue o método slow fashion, de acordo com o que a empreendedora acredita ser mais saudável neste momento. Ela mesma compra a argila, trabalha as peças, utiliza o próprio forno, aplica os esmaltes e faz a montagem dos acessórios.
A parte metálica envolve fornecedores de diferentes locais. Alguns materiais são adquiridos em Guaporé. Outros, em São Paulo. Para algumas peças, Paula trabalha com um ourives de Guaporé, que adapta os componentes de acordo com os desenhos e as necessidades de cada criação.
— A ideia é, depois que eu me aposentar, ficar só com a cerâmica e com a joalheria, mas no meu ritmo, eu não tenho interesse em aumentar a produção — diz.


