
A próxima grande transformação da Serra pode não estar na construção de um novo prédio, na chegada de uma grande indústria ou na criação de uma única empresa. Essa foi a provocação do palestrante Daniel Leipnitz, empresário e investidor, convidado da Reunião-Almoço (RA) da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias) nesta segunda-feira (31), em parceria com o Instituto Hélice.
Com experiência no setor de tecnologia e na liderança de entidades empresariais de Santa Catarina, o palestrante apresentou exemplos de como a construção de um ecossistema de inovação foi capaz de modificar a economia de Florianópolis e defendeu que a Serra pode trilhar caminho semelhante, aproveitando os ativos que já possui.
Segundo o palestrante, a transformação pode estar na capacidade de diferentes setores da sociedade trabalharem juntos, como um ecossistema que tem um objetivo comum: o crescimento da cidade.
No exemplo do trabalho desenvolvido em Florianópolis, segundo o empresário, durante muito tempo a capital catarinense enfrentou dificuldades para oferecer oportunidades profissionais qualificadas. A cidade tinha uma economia fortemente ligada ao turismo e limitações para a instalação de indústrias, em função de suas características ambientais e territoriais. O resultado era que os jovens se formavam e precisavam deixar a cidade para encontrar oportunidades.
A mudança começou, segundo ele, quando empreendedores passaram a entender que era possível construir negócios na própria cidade.
— A primeira ponte não foi de concreto. Foi essa decisão, essa mudança da forma de pensar para tentar sobreviver. Começamos a compartilhar as coisas, conhecimento, contatos, oportunidades e criar confiança genuína entre cada um — disse.
O conceito é o de ecossistema: um ambiente em que diferentes atores conseguem se desenvolver juntos e em que o crescimento de uma empresa pode gerar oportunidades para várias outras.
De acordo com os números apresentados na palestra, Florianópolis passou de cerca de 580 empresas de tecnologia, no ano de 2015, para mais de 6,1 mil atualmente. O setor teria alcançado faturamento superior a R$ 13 bilhões e arrecadação de mais de R$ 1 bilhão em impostos sobre serviços.
— Muitas vezes a gente está olhando para a atração de investimentos de fora e não olha para os talentos que estão aqui na nossa casa, nas universidades, nas escolas técnicas, no empreendedorismo dentro das nossas companhias — provocou.
E como aplicar a ideia de ecossistema na Serra? Leipnitz afirmou que a região parte de uma condição diferente daquela encontrada em Florianópolis, já que a região possui uma indústria consolidada, universidades, empresas de diferentes portes e mão de obra qualificada. O desafio, portanto, seria conectar tudo isso.
O benefício dessa união de fatores é que empregos qualificados são criados, há mais demanda por moradia, alimentação, serviços, comércio, hotelaria e transporte. Ou seja, toda a economia do município passa a melhorar.
Essa lógica também muda a relação entre concorrentes. Em vez de enxergar a empresa vizinha como adversária, o ecossistema estimula a cooperação para tornar toda a região mais competitiva.
— O nosso concorrente não está aqui. O nosso concorrente está lá fora — provocou.
Outro ponto destacado por Leipnitz foi a necessidade de criar senso de pertencimento. Segundo o empresário, um ecossistema não se sustenta apenas com investimentos, programas ou estruturas físicas. As pessoas precisam acreditar que aquele território também pode ser o lugar onde seus filhos irão estudar, trabalhar e construir suas vidas.
— Pertencimento gera confiança e confiança gera continuidade — resumiu.




