
Porções pequenas, menor consumo de refrigerante e de bebidas alcoólicas, além da busca por opções mais saudáveis são algumas das mudanças de hábitos percebidas por proprietários de restaurantes da Serra nos últimos tempos. Alteração que pode ser explicada pelo uso cada vez mais comum das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro.
Mais recentemente, as farmácias do Rio Grande do Sul começaram a vender, também, a primeira caneta emagrecedora brasileira. O medicamento é encontrado por R$ 287 por mês de tratamento, valor que torna as canetas ainda mais acessíveis ao consumidor — o custo é bem menor em relação às primeiras que chegaram ao mercado: a dose de 2,5mg de Mounjaro, por exemplo, custa, em média, R$ 1,9mil.
Essa nova realidade, em função do controle do apetite causado pela composição das canetas, já tem surtido efeitos para além do emagrecimento. Na região da Serra, famosa pelas mesas fartas e alimentação típica italiana, com muita massa, por exemplo, os restaurantes já percebem mudanças no comportamento do consumidor e precisaram se adaptar: ao menos 61% dos empresários do setor de bares e restaurantes, conforme uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), estão fazendo alterações nos seus empreendimentos.
Entre os principais impactos identificados pela pesquisa está a redução no consumo de pratos principais e de sobremesas: 56% dos empresários perceberam mudanças no volume de pedidos dos pratos principais; no caso das sobremesas, 65% notaram alterações.
Ainda segundo o levantamento, 64% dos empresários observaram crescimento nos pedidos de miniporções, enquanto mais de 70% apontaram maior frequência de escolhas consideradas mais leves. Outra mudança percebida foi a prática de compartilhar os pratos principais.
A mudança no consumo de bebidas também foi detectada: 65% dos empresários notaram alterações nos pedidos de bebidas alcoólicas e o aumento de escolha das opções sem álcool.
Porções menores e menos álcool

Na Di Paolo em Bento Gonçalves, a clássica sequência de galetos ou de grelhados ainda representa 90% do que é servido no restaurante, mas o sócio-gerente Emiliano Castaman afirma que tem crescido o número de pedidos por pratos menores, com saladas, grelhados e pouca fritura. Agora, representam 10% dos pedidos, mas ele acredita que esse número deva aumentar:
— Deste ano pra cá, a gente percebeu que as pessoas estão comendo menos. Não foi necessário fazer uma adaptação porque a gente já tinha esse tipo de opção no cardápio. O que mudou, por exemplo, é que hoje talvez não vá vender uma polenta frita e um queijo à dorê; vai vender uma polenta na chapa, uma salada e uma carne — analisa Castaman.
Entre as bebidas, afirma que o consumo de refrigerantes diminuiu drasticamente. Já nas bebidas alcóolicas, o consumidor tem buscado mais opções desalcoolizadas:
— Vendíamos a garrafa de vinho. Hoje, vende taça e até meia taça de vinho. Isso é uma coisa que não tinha e agora tem. A garrafa está saindo menos. Mas, em contrapartida, aumentou muito o suco natural, água com limão e a soda italiana, à base de água.
Apesar da mudança, Castaman acredita que é uma oportunidade para que os negócios se adaptem às necessidades e demandas dos clientes.
Redução de 15% no consumo de fatias

Na Pizzaria Giordani, em Caxias do Sul, onde o rodízio é o carro-chefe, a mudança também foi perceptível pelo sócio Marcos Giordani. Por lá, além de menos fatias consumidas por cliente, o consumo de refrigerante também caiu de forma significativa.
— Não tem como não notar (a mudança). Mas o que acontece pontualmente é aquele cliente que chega e diz que está comendo pouco, que está em tratamento. Mas a mudança vem ocorrendo já há um certo tempo — analisa Giordani.
Conforme o empresário, o consumo de refrigerantes caiu drasticamente: antigamente, as vendas representavam 85% e a água 15%. Hoje, a métrica já é 50% para cada. De acordo com Giordani, dos refrigerantes vendidos, cerca de 20% são zero ou light.
Já em relação ao consumo de pizzas, a quantidade de fatias por pessoa caiu em cerca de 15%. No entanto, a mudança não chega a atingir o faturamento e o movimento na pizzaria. Conforme Giordani, os números são muito parecidos com os de 2025.
— Essa mudança começou a ocorrer quando entrou o saxenda no mercado (autorizado pela Anvisa para venda no Brasil em 2016). Depois veio o Ozempic, mas a mudança começou há 15, 20 anos. As pessoas que não usam canetas e que optam por fazer outro tipo de dieta acabam comendo menos, mas continuam saindo para comer, porque é um tipo de lazer. E a gente se esforça para manter um ambiente agradável, um atendimento bom, um produto bom — pontua.



