
O que sobreviver a um desastre aéreo nos anos 1970 ensinou ao uruguaio Gustavo Zerbino? No Palco Principal da Gramado Summit, ele contou ao público sobre sua história, que virou o filme A Sociedade da Neve (2023), e sobre os 72 dias em que passou preso na Cordilheira dos Andes, após a queda do Voo 571 da Força Aérea do Uruguai, em outubro de 1972.
A última palestra desta quarta-feira (6) apresentou ao público a história de superação do que poderia ter sido o fim, mas que se tornou inspiração para compartilhar o legado e o aprendizado a partir do acidente.
— Todos os seres humanos, em algum momento da vida, caem de um avião — provocou Zerbino, fazendo menção às dificuldades enfrentadas pelo ser humano durante a vida.
Sem comida, sem roupas quentes e em um local em que o homem nunca antes havia pisado, Zerbino precisou enfrentar o desconhecido. O avião em que ele estava, aos 19 anos de idade, se acidentou em 13 de outubro de 1972. Zerbino era estudante de Medicina e jogador de rúgbi do time Old Christians, do colégio Stella Maris, de Montevidéu. Junto da equipe, embarcou no Voo 571 da Força Aérea do Uruguai com destino a Santiago, no Chile, quando avião colidiu com uma montanha na Cordilheira dos Andes.
— Em vez de morrer na missão, tomaram a difícil decisão de se alimentar de seus amigos, e 16 sobreviveram. Heróis, semideuses, simplesmente humanos enfrentando uma situação limite, na qual o homem exibe suas fraquezas — afirmou.
Para sobreviver, precisaram formar uma sociedade, onde todos tinham um mesmo objetivo: sobreviver. E mesmo sem recursos e roupas, com união e comprometimento, nenhuma pessoa morreu de frio.
— Se falta compromisso, preciso ter compromisso. Se falta alegria, preciso ter alegria. Na cordilheira, aprendemos uma só regra que não estava escrita: não podíamos nos queixar — disse.
Entre os aprendizados que Zerbino apresentou ao público, destacou a relativização dos problemas e da dor e que, se brigarmos com a realidade que está ocorrendo, o resultado é impotência e dor.
— Cada vez que nos equivocamos, aprendemos uma maneira que não funciona. Temos que voltar e tentar de outra forma. Por isso eu estou aqui, diante de vocês, vivo. Porque aprendemos que na vida você tem que se levantar uma vez mais — afirmou.
Ousadia e resiliência para sobreviver

Para o resgate, Zerbino e os outros 15 sobreviventes tiveram que apostar na ousadia e escalar uma montanha da Cordilheira dos Andes, para que os buscadores pudessem encontrá-los.
De um lado estava a morte e, de outro, a possibilidade de viver, disse o palestrante. Por isso, o grupo não pensou duas vezes antes de escalar a cordilheira, com neve, com sapatos de couro e apenas um blazer. Em 30 minutos de caminhada, não sentiam mais os pés, mas sabiam que, se desistissem, estariam mortos.
— Tivemos que dormir em cima da montanha e, para não morrer, nos dávamos golpes no rosto e no peito, para que o sangue continuasse fluindo — relembrou.
Após o resgate, Zerbino tornou-se empresário no setor químico, presidiu a União Uruguaia de Rugby e chegou a fazer parte da seleção nacional de rúgbi. Agora, se dedica a espalhar pelo mundo o que aprendeu na cordilheira e de que forma os ensinamentos aprendidos neste momento extremo podem ser úteis no cotidiano das pessoas.


