
Está em vigor desde fevereiro a portaria 886/2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, que estabelece critérios mais rígidos para classificação, embalagem e rotulagem do morango, seguindo parâmetros do Mercosul. A Serra é uma das principais produtoras do Rio Grande do Sul, segundo a Emater — a produção foi de 14 mil toneladas no ano passado — e essa normativa pode trazer impactos à região.
Entre as novas exigências da portaria estão a padronização por tamanho, limites para defeitos nos frutos e tolerância de apenas 3% no peso das embalagens. Assim, foi definida uma separação por calibre e categoria, o que pode acabar exigindo mais tempo e mão de obra dos produtores, como explica Luciano Ilha, extensionista da Emater:
— Falam em três calibres, isso é o que está pegando mais porque tem muitos produtores que fazem a colheita direto na cumbuca, então dificilmente o colhedor vai conseguir separar com precisão na hora. Existe um rigor por tamanho, uma pequena tolerância, que certamente se pensa que o produtor vá fazer essa qualificação em uma sala de embalagens, por exemplo, para conferir, mas nem todo produtor tem uma sala de embalagens.
De acordo com o extensionista, com a nova norma, as frutas que estiverem em desacordo vão precisar que ser recolhidas e reembaladas. Além disso, se estiverem com defeitos que afetam a qualidade para o consumo, deverão ser destinados para outra finalidade.
No mês passado, representantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) estiveram no Ministério para tratar dos impactos da portaria. Na ocasião, foi informado pelo governo federal que não há, neste momento, fiscalização ou aplicação de multas aos produtores que ainda não se adaptaram. Além disso, ficou encaminhada a realização de um encontro no Rio Grande do Sul, ainda neste mês, com a presença de representantes do governo federal para esclarecer dúvidas e debater os impactos da normativa.
— Apesar da dificuldade, que é mais uma exigência com tendência de gerar custos, que vemos com restrições, por outro lado vemos que o Ministério mostrou disposição para vir até o Estado e conhecer a nossa realidade para ver se é possível fazer alguma adequação — diz Ilha.
Dos municípios da Serra, Caxias do Sul e Flores da Cunha se destacam entre os principais produtores, com 85 e 65 hectares plantados, respectivamente. Entre os agricultores que cultivam o morango está Jardel Galiotto, de Otávio Rocha. Por lá, tem quatro hectares destinados à fruta, com aproximadamente 150 mil pés. Ele vende, normalmente, para o Ceasa em Porto Alegre, uma rede de mercados em Bento Gonçalves e Garibaldi, e para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Ele é contrário às mudanças impostas pela portaria.
— Quanto mais leis para controlar, para ter uma padronização de alguma coisa, principalmente na agricultura, é pior, aumenta o descarte de produtos. Eu faço a minha classificação aqui, os mercados que eu vendo já estão acostumados com a comercialização, então é difícil mudar — afirma Galiotto, que complementa:
— No morango não é apertar um botão e ele sai como queremos. O morango é uma fruta que está sujeita a intempéries, ao clima, à polinização. Então, morango torto pode ter, depende da época.

Cassiano Schmitt Daros produz morangos em Vila Seca ao lado da esposa Maiara Ribeiro Daros. Por lá, cultiva 15 mil pés, que entre setembro e fevereiro geram mais de 20 mil quilos da fruta. A produção é feita em estufas e, para ele, a nova portaria tem um lado positivo e outro negativo: a primeira caminha para o lado de um produto com mais qualidade, a outra com mais custos aos agricultores.
— Ela vai padronizar a qualidade do morango, isso para nível do Mercosul e para ter o livre comércio entre os países, vai facilitar. O consumidor também vai perceber uma qualidade maior do produto, uma exigência que até então não se tinha. Para o consumidor final vai ser uma percepção positiva, mas isso vai gerar um custo extra, uma mudança no preço — diz Daros.
Os morangos cultivados por eles são vendidos, em sua grande maioria, para consumidores finais, mas também comercializam em mercados da região. O casal já tem buscado se adaptar à nova portaria:
— Isso vai desde a colheita, treinar equipe, estabelecer um local para fazer triagem e seleção, criar um acompanhamento diário para ver se a qualidade está sendo seguida, se a separação está sendo feita, identificar frutos ruins.
Marcelo Bufon, produtor rural e gerente operacional da Ceasa Serra, tem uma produção média de 15 mil pés e está esperando para fazer um novo replantio de morangos. Normalmente ele vende a fruta para um distribuidor de Flores da Cunha, que destina a outros estados, como Minas Gerais, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e até Tocantins. Ele tem buscado se adaptar a essas novas regras há pelo menos um ano. Mesmo assim, afirma que as mudanças podem trazer impactos econômicos aos produtores:
— Tu vai ter que aumentar muito o nível de nutrientes, não é forçar a planta a fazer algo que não quer, tem que dar condição para a planta melhorar o status da fruta. E esses nutrientes tem custo bem elevado, ou seja, tudo vai gerar mais custos.


