
— Não sei por que não fiz isso antes — diz Déborah Domingues, 36 anos.
Há seis anos trabalhando com o próprio negócio — uma boutique no bairro Panazzolo, em Caxias do Sul, que leva o nome dela — a paranaense radicada na Serra conclui que valeu a pena investir no sonho de empreender.
Déborah faz parte dos 87.346 CNPJs ativos em Caxias, conforme dados do Sebrae com base na Receita Federal. Apenas em 2025, o saldo da geração de negócios foi de 6,4 mil. Foram 16,4 mil empresas abertas em um ano, contra 9,9 mil fechamentos.
Proporcionalmente, os dados demonstram que 2026 segue ritmo parecido. São cerca de 5,3 mil CNPJs abertos até este momento e quase 3,1 mil que fecharam, com um saldo positivo de dois mil negócios.
— Valeu muito a pena. Em 2016 já era para ter empreendido. Mas eu acredito que tudo tem o seu tempo e empreender é um crescimento tanto pessoal como profissional — conta Déborah.
O coordenador de atendimento do Sebrae RS na Serra, Aldoir Bolzan, explica que os números parecem expressivos porque, geralmente, 80% das aberturas são na modalidade de microempreendedor individual (MEI). Como nota Bolzan, é uma alternativa de gerar receita rápida para quem muitas vezes era CLT.
— Por isso que muitas empresas abrem e fecham. Quando a indústria está contratando pouco, o pessoal abre os MEIs. Depois, quando a indústria e empresas no geral começam a contratar mais e pagar salários melhores, as pessoas fecham os MEIs e voltam a se colocar no CLT — analisa Bolzan.
Um conselho que mudou tudo
A transição do CLT para o MEI foi o caso de Déborah. Mas, na situação dela, foi um desejo que já sentia aliado com uma situação que vivia no trabalho. Antes, a consultora de imagem atuou por 15 anos no setor financeiro.
Um pouco antes de abrir a própria boutique, ela começou a vender roupas depois do trabalho. O que mudou tudo foi um conselho do sogro, Sérgio Barcarolo. Na época, Déborah também não tinha certeza sobre empreender porque estava dando outro passo na vida: comprando um imóvel com o marido, Marcelo Barcarolo, 43.
— Eu tinha adoecido na empresa. Era muita pressão. E ele disse, "Déborah, tu vê o quanto está trabalhando, quanto está se esforçando, olha como tu trabalha depois e está sempre sorrindo. Tu dá risada, se diverte, fala com as mulheres e encanta elas. Por que não trabalha com isso?" — recorda a empreendedora.
Em agosto de 2020, a Boutique Déborah Domingues foi oficialmente aberta. Dias depois, o sogro de Déborah acabou falecendo. Para ela, deixou o apoio e o sentimento de que ela deveria apostar num sonho que existia desde os tempos de faculdade em Passo Fundo.
A boutique é dedicada à moda feminina e a empreendedora também oferece consultoria de imagem, que pode ser feita online. As peças e acessórios vendidos são selecionados e a maior parte dos fornecedores é de Caxias, mas há também de Santa Catarina e Minas Gerais.
Além da experiência pessoal, Déborah buscou cursos no Sebrae e capacitações, como de precificação e costura — uma vontade que tinha e que a ajudou a entender mais sobre a qualidade das peças que seleciona. Assim, mesmo com atuação em uma área financeira, entendeu que a dinâmica era diferente e precisava de novos conhecimentos:
— Quando você empreende é tudo contigo.
Busca por capacitação
A geração estável de novos negócios tem um outro impacto: como no caso de Déborah, há mais empreendedores que buscam capacitação. O secretário adjunto do Turismo e Desenvolvimento Econômico de Caxias do Sul, responsável pela Sala do Empreendedor, Silvio Tieppo, calcula que apenas em 2025 mais de 2,4 mil buscaram o CCC – Centro de Capacitação e Comércio de Caxias.
— É por meio dele que seguimos investindo fortemente em capacitação de gestão, oferecendo conhecimento prático e acessível sobre toda a gestão empresarial, desde finanças e planejamento até marketing e organização do negócio — conta Tieppo.
O secretário adjunto afirma que a expectativa é de um número maior neste ano. Para as capacitações, o CCC conta com 60 parceiros, entre entidades, instituições financeiras, bancos e iniciativas privadas.
— Capacitar é, acima de tudo, melhorar a vida de quem empreende, dando condições reais para que cada empresário tome decisões mais assertivas e construa um futuro mais sólido — concluiu.

"Não nascemos sabendo tudo"
Dono da Divina Lavanda, no Quinta São Luiz, Mauro Nicoletti Carvalho, 39, vê de forma positiva a experiência como empreendedor. Ao mesmo tempo que aprendeu muito na prática, o caxiense procurou cursos como no Sebrae ou Capacita Caxias para aprimorar o negócio.
— Está valendo a pena. Claro que eu não nasci sabendo empreender. Se eu soubesse tudo o que eu sei agora, eu tinha economizado muito dinheiro — refletiu.
Desde os 19 anos, Carvalho trabalhava como metalúrgico. Os rumos profissionais começaram a mudar em 2019, quando ele e a esposa Franciele Bassani, 37, tiveram a filha Alice, seis.
Naquele momento, ele queria uma segunda fonte de renda e uma matéria na TV chamou atenção: o hectare do óleo de lavanda estava avaliado em R$ 4 mil. O sogro tinha um terreno vago em São Marcos da Linha Feijó, perto do bairro São Caetano, e Carvalho sugeriu iniciar a plantação.
— Fomos para as primeiras mudas. Não deu muito certo. Depois, eu consegui uma pessoa que me vendeu em larga escala. E aí comecei a plantar — relembrou.
Contudo, com a rotina e o trabalho como projetista de matrizes, a plantação ficou estagnada por dois anos. Foi, então, em 2023, quando Carvalho foi desligado do emprego que a ideia ganhou força novamente.
Os primeiros passos foram vendendo a planta em feiras junto com o sogro, que é agricultor. O contato com os clientes fez com que Carvalho começasse a ter produtos próprios e conseguisse ampliar o catálogo. Hoje, são 45 produtos, que vão desde óleos, cremes para mãos, home spray e sabonetes até chás e biscoitos.
— Tem muitos produtos, mas tem meses que é o óleo, tem outros meses que é o home spray, tem a vela também, porque tem óleo essencial — contou sobre os preferidos dos clientes.
Alguns são produzidos com parcerias, como os cosméticos — com profissionais que ele conheceu nas feiras. Já outros, como o óleo, o próprio empreendedor consegue produzir por meio de um extrator, um dos primeiros investimentos da loja.
Há um ano, Carvalho estabeleceu o ponto no bairro Exposição. O local dá a oportunidade de receber os clientes para um chá de lavanda e explicações detalhadas sobre os produtos.
O que motiva aberturas e fechamentos
No balanço levantado pelo Sebrae, o número de fechamentos também pode chamar atenção. Neste cenário, Aldoir Bolzan elencou quatro situações que podem ajudar a explicar esse fluxo no município:
- Custos operacionais na Serra: o alto custo logístico e o valor dos aluguéis comerciais em Caxias pressionam as margens de lucro de quem está começando;
- Preparação prévia: muitos empreendedores formalizam o negócio sem um plano de viabilidade técnica, confundindo a facilidade do registro digital com a facilidade de gerir uma empresa;
- Maturação de mercado: o consumidor caxiense é exigente. Negócios que não apresentam um diferencial claro ou que saturam nichos já atendidos enfrentam dificuldades críticas de sobrevivência nos primeiros 12 meses;
- Transição entre CLT e MEI: existe uma movimentação cíclica conforme a demanda das indústrias locais. Quando as vagas formais diminuem, as aberturas de MEIs aumentam; quando o mercado industrial volta a contratar, muitos encerram seus registros. O MEI acaba funcionando como uma alternativa temporária de trabalho para muitos profissionais.
Dicas para abrir o próprio negócio
Quando se trata da abertura de um negócio, Bolzan tem uma dica essencial para os potenciais empreendedores. O especialista sugere que o primeiro passo, que é fundamental, é colocar tudo no papel, criando um plano de negócios.
- O primeiro passo, segundo o especialista, é elaborar um plano de negócios, colocando tudo no papel;
- O plano terá análise de mercado, assim como as outras áreas: finanças, operação/produção, marketing e estratégia;
- O plano serve também para analisar a viabilidade do negócio;
- Depois, outro passo fundamental é analisar e pensar sobre modelo de negócio;
- Uma ideia de negócio pode ter diferentes modelos. Por exemplo, uma pizzaria pode ser voltada à la carte, rodízio ou take away e delivery. Em cada uma delas, a estrutura de negócio é distinta, como exemplifica Bolzan.
Para abrir o próprio negócio, os interessados podem buscar orientação do Sebrae (Rua Sinimbu, 816, bairro Nossa Senhora de Lourdes) ou da Sala do Empreendedor (Rua Sinimbu, 1933, no térreo - Centro de Capacitação e Comércio). Já pela internet há o Portal do Empreendedor para MEIs e o Redesim do governo federal para outras modalidades.




