
Não muito diferente de inúmeras famílias da Serra, o suco de uva sempre esteve presente no cotidiano da família Gallon, na Linha Alcântara, no interior de Bento Gonçalves. O que mudou na relação deles com a tradicional bebida da região foi que há alguns anos uma oportunidade foi percebida.
— Tinha lá uma panelinha pequena e fazíamos uns 100 litros de suco por dia. Sempre tivemos essa presença. E com aquela coisa de "ah, o suco é bom", e aí o pessoal dá uma garrafa para um, o pessoal prova e gosta, acabamos indo para esse lado — relembrou o produtor e enólogo Edvaldo Gallon, 48 anos.
Em 2016, ao lado da esposa Márcia Gallon, abriu a Gallon Sucos, no distrito de Faria Lemos. É um dos 270 produtores do Estado cadastrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) — desses, 167 estão em municípios da Serra.

Juntos, movimentam um mercado que alcançou a produção de 420 milhões de litros em 2025, conforme a Associação Brasileira de Enologia (ABE). O dado inclui o mosto (que é um suco obtido da prensagem das uvas, usado como matéria-prima na elaboração dos vinhos) e coloca o Brasil como o quarto maior produtor do mundo. Está atrás apenas de Espanha, EUA e Itália.
Ainda conforme a ABE, 55% da colheita da uva vitis labrusca é utilizada para o processamento do produto. As chamadas uvas comuns representam 85% da produção nacional da fruta. Para se ter uma ideia, a safra total gaúcha deve passar das 950 mil toneladas.
Já segundo a Divisão de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal da Secretaria de Agricultura do Estado, a elaboração do suco de uva (sem o mosto) do Estado em 2025 foi de 193,7 milhões de litros. A maior parte, de 153,5 milhões de litros, é de suco integral.
Iniciativa inédita no mundo
O destaque dessa indústria levou até a uma iniciativa inédita no mundo da bebida. Pela primeira vez, uma avaliação técnica voltada ao suco de uva foi realizada. Promovido pela ABE, em abril deste ano, em Bento Gonçalves, o 1º Concurso de Suco de Uva Brasileiro recebeu 190 amostras de seis Estados.

— A qualidade dos sucos foi indiscutível. Podemos notar que o padrão do suco de uva brasileiro é de qualidade altíssima — celebrou a pesquisadora do Laboratório de Referência Enológica (Laren) do Estado e integrante da ABE Fernanda Spinelli.
A ideia partiu do atual presidente da entidade, Mario Lucas Ieggli. Um dos aspectos notados foi como a qualidade se mantém em pequenas ou grandes vinícolas.
— Este concurso nasce para dar visibilidade técnica a um produto que sempre teve grande importância para o setor. O que vemos aqui é a confirmação de um trabalho que vem sendo feito há muitos anos, com qualidade, seriedade e evolução constante em todo o país — destacou Ieggli na conclusão do concurso.
A família Gallon, que viu no suco de uva a oportunidade, foi, inclusive, uma das produtoras premiadas. O suco de uva tinto recebeu a medalha de Platina no concurso.
Uvas selecionadas para o suco
Um dos motivos da qualidade, como detalha Edvaldo, é a seleção que o próprio enólogo faz das uvas direto dos vinhedos. As melhores são colhidas para o suco, que chegou a uma produção de 45 mil litros até agora neste ano.

A família da Linha Alcântara tem também a produção de uva. Trabalham nos vinhedos outros parentes de Edvaldo, como pai, tios, irmãos e primos.
Ter a matéria-prima tão perto, inclusive, motivou a abertura da agroindústria. Edvaldo lembra que vinícolas também começaram a sondar sobre terceirização.
— Vendo que o mercado está em alta também e crescendo, então, tudo isso foi juntando. Eu trabalhava fora, queria voltar para casa, a minha esposa também. Botando na balança todas essas questões, da disponibilidade de matéria-prima, oportunidade de mercado, a vontade de voltar para casa, enfim, tomamos a decisão — acrescentou.
Atualmente, a venda do suco é distribuída nacionalmente. Além do RS, há Estados como Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Piauí. A Gallon Sucos atende também o município, que compra o suco para a merenda escolar.
O carro-chefe é o suco de uva tinto, o tradicional. Mas, como elenca o produtor, há também o suco de uva branco, o orgânico e os mistos, como uva com mirtilo ou uva com morango. Todos são integrais.
— Nos especializamos na elaboração de sucos integrais premium — explicou Edvaldo.

A escolha pelo suco integral
Em Flores da Cunha, na cidade que mais produz vinhos no Brasil, Ludimar Casagranda, 57, decidiu apostar no suco de uva integral. A história dele, do irmão Sérgio e do pai Lodovico até começou com a bebida alcoólica nos anos 1990. Mas, nos anos 2000, com o mercado em baixa, o trio decidiu arriscar e transformar a vinícola da família na Casagranda Sucos.
Tudo começou com o empréstimo de máquinas e valores de vinícolas parceiras da família. Por volta de 2005, saiu a primeira produção de 140 mil litros, quando a expectativa era de 70 mil litros. Aos poucos, a empresa no interior de Flores foi crescendo e já bate a marca de cerca de 3,5 milhões de litros do suco de uva integral.
São 14 colaboradores, entre funcionários e família. Com o aumento da produção, máquinas mais modernas foram adquiridas, com o objetivo de automatizar e otimizar a produção no envase e logística. Essa área é administrada pelo sobrinho de Casagranda, Samuel.
— Praticamente toda a produção do nosso suco é para terceirizados. Eu produzo marcas para terceiros. Não faço suco exclusivamente para a nossa marca, a Casanobre — contou Casagranda.

Da produção, 80% é para terceirização, como vinícolas com marca própria, e outros 20% para a linha da casa, que pode ser encontrado em adegas e restaurantes. Hoje, além do suco de uva tinto, a Casanobre tem também sucos de uva branco e de maçã, chá verde e quentão. Uma das novidades é o suco de uva rosé.
Um dos próximos passos é apostar também na venda pela internet. Recentemente, reuniões foram feitas com as principais plataformas do setor de varejo online.

Com o crescimento do consumo no Brasil, Casagranda relata que há um outro desafio no horizonte. Está crescendo o interesse também em produzir o suco de uva, aumentando a competição no mercado:
— Aumentou (o consumo). Para nós, estamos tendo nos últimos quatro anos praticamente a mesma produção. Conseguimos manter a mesma produção porque aumentamos os clientes. Por exemplo, depois de sete ou oito anos que começamos, produzíamos 150 mil ou 200 mil litros de suco para uma vinícola vender. O terceirizado, agora, estava vendendo 80 mil litros porque tem muitos agora no mercado. Na época, eram poucas empresas que trabalhavam com suco.
História do suco: tradição vem da colonização italiana
Hoje um queridinho do brasileiro — de acordo com o Mapa, o consumo disparou para mais de 270 milhões de litros anuais — o suco de uva exercia um papel comunitário entre as primeiras famílias imigrantes da Serra. Como conta a professora em Viticultura e Enologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a agrônoma e doutora em Biotecnologia Sandra Valduga Dutra, a origem dele no país está ligada à colonização italiana.
— O suco de uva era produzido de forma doméstica, para aproveitar o excedente de uva que não era consumido ou vinificado e para elaborar um produto sem álcool. Era servido às crianças, enfermos, idosos e pessoas que não bebiam vinho. Havia o costume de dividir com a comunidade diversos produtos agrícolas baseado na ajuda mútua, troca e reciprocidade. Além de ser oferecido a vizinhos, era servido em filós, levado em visitas ou trocado por outros alimentos — descreve a professora, que foi uma das avaliadoras no 1º Concurso de Suco de Uva Brasileiro.
No início, como conta Sandra, a elaboração era de uma forma doméstica. Depois das uvas selecionadas, vinha o esmagamento, que podia ser feito até com as mãos. O mosto, que saía desse processo, era aquecido lentamente em tachos ou panelas grandes, geralmente no fogão a lenha, em que ocorria a extração da cor, do aroma e do sabor. Para separar cascas, sementes e engaços, a bebida era coada em panos limpos ou peneiras. Por fim, era envasada.
— Eram consumidos rápido (máximo dois ou três dias). Em algumas famílias o suco era guardado nos porões ou locais secos e escuros para uma conservação maior. A durabilidade dependia muito do processo de higiene e condições de armazenamento. Depois surgiram as "panelas extratoras", o que ajudou muito os pequenos produtores no processo de elaboração, sendo utilizado até hoje — detalhou Sandra.
Mas, como um produto caseiro, o suco de uva passa a movimentar todo um mercado?
Fernanda Spinelli explica que com o tempo, a bebida ganhou importância estratégica. Primeiro, virou alternativa econômica em períodos de restrição ao consumo de álcool e em momentos de crise no mercado de vinhos. Hoje, o consumo cresce por fatores como a busca por produtos com benefícios comprovados para a saúde.
— Além disso, o suco ajudou a democratizar o consumo da uva, atingindo públicos mais amplos, incluindo crianças, consumidores que não ingerem álcool e mercados internacionais. Isso foi decisivo para fortalecer a cadeia produtiva da região — adicionou Fernanda.

Sandra também observa que a partir dos anos 2000, o foco do mercado em vinhos finos fez as variedades americanas perderem o valor. Com isso, pequenos produtores e cooperativas passaram a olhar para o suco como uma possibilidade para a utilização dessas uvas.
— As cooperativas e pequenas agroindústrias começaram a processar maiores volumes de uva e organizar a produção de forma mais estável, principalmente com a utilização da pasteurização que aumentou a vida útil do produto. A Embrapa realizou também neste período um importante apoio técnico e científico, no desenvolvimento de novas cultivares de uva para sucos, padronização dos processos de produção, boas práticas de elaboração e controles de qualidade — comentou Sandra.
Hoje, o desafio da indústria do suco de uva é entrar em novos mercados. Como levanta Fernanda, o Brasil exporta atualmente 12% da produção.




