
Recomeçar, empreender, buscar a autonomia da própria vida. Esses são alguns dos objetivos do projeto Donna, da prefeitura de Flores da Cunha, voltado para auxiliar mulheres a encontrarem um espaço no mercado de trabalho ou no mundo dos negócios. A iniciativa foi premiada no Prêmio Sebrae "Prefeitura Empreendedora" na etapa estadual. Agora, concorre na etapa nacional. O resultado será divulgado na próxima segunda-feira (18).
Com mais de 970 mulheres impactadas em quase dois anos, o projeto Donna, com o nome inspirado na música da banda Roupa Nova e que também significa "Mulher", em italiano, surgiu dentro do programa Flores+Renda, desenvolvido pelas secretarias de Desenvolvimento Social e Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação, mas com o incentivo da primeira-dama, Lisiane Ulian, juntamente com a vice-primeira-dama, Edilene Rech.
— Não é só um projeto de empreendedorismo e qualificação profissional, ele visa olhar a mulher na sua integralidade, a qualificação profissional, o empreendedorismo, o que ela quiser ser. Quando eu pensava no nome do projeto, me veio muito forte a música do Roupa Nova, que fala justamente disso, da mulher tomar posse dessa feminilidade, dessa propriedade que só ela tem — contou Lisiane.

Além de qualificar, o intuito do projeto é fazer com que os empreendimentos tomassem forma, com isso, criaram a Etapa Casulo, em parceria com a startup B2Ella Hub. Nessa fase, as inscritas precisaram participar de 11 encontros que reuniram mentorias especializadas e workshops presenciais, preparando-se para estruturar os negócios.
Por fim, as integrantes apresentaram projetos para uma banca avaliadora. As três melhores propostas foram contempladas com um capital semente de R$ 3 mil cada, destinado a impulsionar os projetos. O valor foi captado por meio de patrocínios externos.
Um espaço para recomeçar

Uma das contempladas na Etapa Casulo foi a manicure Rozana dos Santos, de 34 anos. Ela é natural da Bahia e se mudou para Flores da Cunha com suas três filhas e o companheiro. Após a separação, recomeçou a vida.
— Estando aqui, sem rede de apoio, sem dinheiro e com três crianças, foi bem difícil recomeçar. Foi a partir de ser manicure que encontrei uma porta — conta.
Apesar de ter seu cadastro como microempreendedora individual (MEI), Rozana não tinha conhecimento de como organizar o negócio. Foi a partir do projeto que conseguiu se regularizar e aumentar a renda mensal.
— Eu comecei a atender em casa, para conseguir ficar com as crianças, e eu fui empreendendo dessa forma, até que encontrei o projeto pelo Instagram e me inscrevi. Não tinha esperança de ser uma das selecionadas, mas, quando fui chamada, fiquei surpresa. O projeto me ajudou muito, principalmente em perder a vergonha de me promover pelas redes sociais e foi um divisor de águas. Hoje consigo empreender e garantir mais clientes — disse Rozana.
A iniciativa também fez com que Rozana quisesse ajudar outras mulheres a saírem de situações difíceis, com isso, criou o projeto Liberte-se, o qual recebeu os R$ 3 mil de investimento. Mesmo ainda em reestruturação, ela tem expectativas que lance em breve.
— Foi a partir do Donna e da minha vivência que criei o meu projeto, que se chama Liberte-se. Ele é voltado a mulheres que passaram ou estão passando por relacionamentos abusivos e não veem uma "luz no fim do túnel", não sabem como recomeçar. Basicamente, vou ensinar a profissão para elas. Claro que sei que há todo um viés, que a mulher precisa querer, acreditar nela mesma e é um processo muito difícil, mas estou trabalhando a abordagem, logo mais deve sair do papel — destacou.
Oportunidade de realizar sonhos

A psicopedagoga paulista Ana Paula Proença, de 41 anos, também foi uma das vencedoras da Etapa Casulo. Ela chegou em Flores da Cunha em 2024, juntamente com a família. A partir do projeto e da sua própria vivência com um filho diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), decidiu abrir um espaço voltado para atendimento de crianças com necessidades educacionais.
— É um propósito de vida fazer educação e gosto muito do que faço. Quando você tem uma criança com TEA, vai descobrir um pouco de tudo, até para poder ter base para conversar com os profissionais, para estimular o seu filho e eu mergulhei nesse lugar. Fui encontrando possibilidades de ajudar além dele, de estar com outras famílias, então eu me dediquei a isso. Só não imaginei que eu fosse conseguir empreender aqui tão rápido — comentou.
Ana destacou como o projeto a auxiliou a dar forma a um desejo que “já estava em seu coração”.
— Tivemos os 11 encontros e foi surgindo o projeto que já estava no meu coração. Fui organizando para montar exatamente como eu gostaria e, com todos os esforços que foram oferecidos, construí meu espaço, que trabalha com atendimento psicopedagógico e avaliação. Também fazemos orientação parental, escolar, trabalha muito com família. Fora isso, temos soluções que são coisas que eu testei tanto com meu filho quanto com outras crianças — contou.
Além de complementar a renda, a profissional conseguiu ajustar seus horários para passar mais tempo com a própria família e seguir com a sua independência.
— É bem incrível, porque é difícil colocar tudo na mala e ir embora. Eu estava muito estabilizada onde eu estava, então fizemos essa opção pensando na qualidade de vida, mas tudo tem um custo e era alto, pois seria deixar de trabalhar. Porém, muito rapidamente, consegui ter um negócio meu, em que eu faço o meu horário, consigo estudar e ainda ter tempo para estar com meu filho. Complementou a qualidade de vida da família, sem que eu perdesse minha liberdade e seguisse "dona do meu nariz" — completou Ana.
Deixar a CLT depois de 20 anos

Já no caso de Rita de Cássia Bizotto, de 59 anos, ela decidiu trocar mais de 20 anos de carteira assinada para iniciar o próprio negócio de massas artesanais.
— Foram quase 22 anos trabalhando como costureira em uma confecção. CLT te dá aquela segurança de tu chegar no final do mês e saber quanto que vai ganhar, mas eu não estava feliz. Num belo dia, eu conheci o projeto e pensei: por que não? Nos encontros, elas incentivaram isso, de empreender, e como eu já estudava gastronomia, decidi trabalhar com massas artesanais — explicou.
Com isso, Rita começou vendendo os produtos para os amigos e vizinhos até ser convidada por uma amiga para trabalhar em um restaurante. No primeiro momento, não quis aceitar, no entanto, fez um acordo com os proprietários de trabalhar a partir da demanda e sem horário fixo. Dessa forma, garantiu sua liberdade e seguiu costurando em casa.
— Esse projeto me deu um ânimo, uma força para que eu tivesse a coragem. Era o que me faltava para mudar de vida e aqui eu consegui. Lá estou como parceira, já fabrico dois tipos de massas para eles e não preciso investir em equipamento próprio, eles me dão todo o suporte, e minha renda dobrou. Estou felicíssima ali, mas ainda sigo costurando em casa. Graças a Deus, trabalho não me falta — contou Rita.
Aumento da renda em 137%

Outro destaque da atividade foi a comprovação do aumento da renda de 70% das participantes, que conseguiram alcançar independência financeira. Isso porque o projeto Donna também oferta cursos individuais, como os de confeitaria e produção de salgados. Junto disso, 90% das mulheres afirmam que tiveram sua renda mensal aumentada em até 137% (um salto médio de R$ 800 para R$ 1,9 mil de receita).
Os resultados também são observados no desenvolvimento pessoal das empreendedoras. Os ganhos em autoconfiança e habilidades gerenciais foram sentidos por 100% delas. Elas também relataram que os aprendizados dos workshops e das mentorias especializadas possibilitaram o uso das redes sociais como canal de vendas, segundo 95% das participantes.
Sobre a premiação

O projeto Donna foi vencedor do Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora na etapa estadual no último dia 16 de abril. Com isso, a iniciativa foi escolhida na categoria Inclusão Socioprodutiva para concorrer na fase nacional da premiação, na qual o resultado será divulgado na segunda-feira (18). Flores da Cunha é o único município da Serra a avançar para essa fase.
Em consideração aos critérios avaliativos do prêmio, o Donna se destaca por ser um projeto de impacto social, construído com o auxílio de empreendedoras da comunidade, da startup Ella Hub e do parceiro estratégico Senac Caxias do Sul, tornando a iniciativa eficiente e sustentável. Também evidencia-se que o Donna é construído por diversas secretarias do executivo florense, levando as oportunidades às mulheres do município.


