
Posição estratégica e que está no topo da pirâmide executiva, o cargo de CEO está em crescimento em empresas da Serra. O movimento, identificado pela consultoria gaúcha Evermonte Executive & Board Search, revela uma tendência especialmente no setor de bens de capital, desde o fim do ano passado.
Especializada em recrutamento executivo, a Evermonte sinaliza que a alta na demanda pode estar associada a um cenário de processos de sucessão, reestruturações organizacionais, além de um novo ciclo estratégico nas indústrias da Serra.
Mas, afinal, todas as empresas precisam investir nesta posição de liderança? Cofundador e líder da área de Pessoas e Tecnologia da Evermonte, Felipe Ribeiro entende que a estruturação do cargo está atrelada, sobretudo, à expansão do negócio e da governança corporativa.
— À medida que o negócio vai aumentando e os órgãos de governança começam a aparecer ou se consolidar, principalmente nas figuras de conselhos consultivos ou de administração, fica mais difícil ter uma interface com múltiplos executivos. Esse momento, então, é oportuno para a criação desta cadeira — explica Ribeiro.
A existência desta figura também pode significar um crescimento mais veloz e maduro em empreendimentos familiares, segundo ele.
— É muito comum em empresas do interior termos membros familiares dividindo esse papel: irmãos, primos ou até antigos acionistas. Eu, por exemplo, cuidaria da área de vendas e marketing, meu irmão cuidaria de finanças, outro familiar cuidaria de RH. Assim, estamos todos (gerenciando) e não temos a figura de um CEO — exemplifica o especialista, reforçando:
— Isso, contudo, só é possível quando o negócio é menor. Conforme a empresa aumenta, ou as estruturas de governança começam a amadurecer, se torna mais incomum (o modelo com diversos executivos) e facilita a criação de um CEO.
"É uma cadeira solitária e que tem uma responsabilidade enorme"

CEO é a sigla de Chief Executive Officer. Em tradução do inglês, significa o chefe executivo ou diretor executivo da companhia. Para além de uma nomenclatura, o cargo é cercado por responsabilidades, tomada de decisões e definições estratégicas para manter a saúde financeira e garantir o crescimento do negócio.
— É uma cadeira solitária, que tem uma responsabilidade enorme, tem uma pressão bastante grande. Os profissionais têm que ser muito resilientes, muito estáveis emocionalmente. De um lado, são pressionados pelo conselho, pelos acionistas, e, de baixo, são pressionados pelas suas equipes diretas e pela entrega do resultado — salienta Ribeiro.
As competências, segundo o especialista da Evermonte, precisam também abranger uma visão apurada e sensível para a construção das equipes, além de não temer o peso e as exigências do cargo:
— Há uma máxima no mercado executivo que diz que é melhor você decidir errado rapidamente, do que não decidir esperando pelas variáveis mais completas. Essa é a vida do CEO. O CEO está decidindo 24 horas por dia, juntamente com seus times, é claro. Então, é alguém que tem que saber correr riscos de forma calculada, mas tem que ser um tomador de decisão nato para que a operação não pare — opina Ribeiro.
Formação de um CEO
A preparação para ocupar a cadeira mais alta de uma organização envolve experiência, rede de contatos e, imprescindivelmente, o investimento em conhecimento, partindo de uma graduação sólida, MBAs e programas de imersão específicos para a função. Cursos fora do país podem ser um diferencial, segundo os especialistas.
— São elementos que vão dando robustez acadêmica para essa pessoa e repertório. Obviamente, além disso, uma trajetória consistente, se possível em múltiplas áreas — acrescenta o cofundador e líder da área de Pessoas e Tecnologia da Evermonte Executive & Board Search, Felipe Ribeiro.
Um CEO com experiência internacional

Com sede em Farroupilha, a Soprano é um exemplo de empresa serrana que promoveu mudanças na cadeira de maior autoridade organizacional nos últimos meses. Desde agosto do ano passado, o cargo de CEO é ocupado por Cyro Gazola, que tem à frente o desafio de gerenciar cinco unidades de negócio.
Com uma jornada de 28 anos em multinacionais, Gazola é graduado em Administração pela PUC do Rio de Janeiro e tem MBA pela Northern Illinois University, dos Estados Unidos. Ele é natural do Espírito Santo, mas mantém raízes familiares na Serra.
A maior escola profissional, como caracteriza, foi a multinacional Procter & Gamble (mais conhecida como P&G), empresa de bens de consumo que fabrica uma vasta gama de produtos de higiene, beleza, saúde e limpeza doméstica e onde atuou por 22 anos:
— Porque eu comecei desde os níveis iniciais, depois da minha pós-graduação, e tive a oportunidade de morar fora do Brasil durante quatro vezes. Voltei para o país há 15 anos e saí da P&G numa posição de vice-presidente. Depois, assumi como presidente da Philips, da divisão de consumo holandesa, para Brasil e América do Sul — conta.
A trajetória profissional, em múltiplas áreas, contou ainda com passagens por outras marcas reconhecidas, como a brasileira Caloi e o Grupo Skala. O trânsito por diversos tipos de indústria é, para ele, um diferencial para ocupar a posição que está hoje.
— Essa riqueza de experiências me ajudou muito a entender a complexidade dos negócios, mas principalmente saber atuar onde estão as peças fundamentais. E, para mim, a peça fundamental para ser um CEO eficiente é garantir um sistema de pessoas muito bem montado. (Tudo começa) por ter o time certo, bem preparado — analisa.
Para Gazola, uma governança eficiente perpassa também por um olhar apurado sobre o estágio em que a empresa está, no sentido de inovação, maturidade de processos e orientação de mercado — trata-se de um negócio mais industrial ou comercial? Por exemplo.
— Se eu pudesse dar uma dica para quem almeja um dia ser um CEO, eu diria para conhecer as pessoas, entender os processos, entender o que está funcionando, perguntar muito, mas, principalmente, escutar genuinamente. Entenda a cultura, entenda o que pode ser fortalecido, o que precisa ser preservado — aconselha.
Para a Soprano, o CEO conta que foi definido um plano estratégico com oito prioridades que irão valer pelos próximos três anos. Uma das principais intenções, como aponta, é tornar a empresa mais voltada para o mercado externo — atualmente, os produtos da marca são vendidos para a América do Sul.
"Nunca tive dúvida de que era aqui que eu queria estar"

Trabalhar ativamente pelo negócio familiar sempre foi um desejo que esteve presente na advogada Grasiela Tesser. Criada nos corredores da NL — empresa caxiense dedicada a soluções tecnológicas —, ela vivenciou as diferentes fases do empreendimento. Na adolescência, recorda-se, já ajudava na rotina de trabalho, cobrindo as férias da telefonista.
Ser filha do dono, contudo, não foi um facilitador para que ela alcançasse o posto de CEO da empresa há cinco anos. O caminho para alcançar o topo do negócio iniciado pelo pai, Nelço Tesser, na garagem de casa, exigiu a vivência em outras empresas para desenvolver resistência e ganhar maturidade.
— Eu brinco que a NL é a minha irmã mais velha, porque ela é mais velha do que eu. Desde pequena, eu me interessava muito pela empresa e me reconhecia aqui. Nunca tive dúvida de que era aqui que eu queria estar, e acredito que trabalhei muito para isso — enfatiza Grasiela.
Para ela, a habilidade principal do cargo é a resiliência:
— As coisas nem sempre vão acontecer da maneira que queremos, ainda que tentemos da melhor forma desenhar um perfil de cultura desejada e que trabalhemos para que ele seja seguido — diz, acrescentando:
— Outro fator superimportante é a habilidade de escuta e de negociação, porque as pessoas esperam respostas e direcionamentos dos líderes. E, às vezes, o melhor direcionamento é o não responder. Mas, para isso, precisamos aprender e aceitar que temos que ouvir muito e diminuir um pouco o nosso próprio ritmo — acredita a CEO da NL.
Em um discurso alinhado com a crença do especialista da Evermonte, Grasiela também compreende que a cadeira de CEO é bastante solitária. Um peso, contudo, que é atenuado pela presença de Nelço, nomeado como presidente da empresa:
— É uma posição que, no fim do dia, é muito solitária, porque vem cheia de questionamentos, cheia de decisões a serem tomadas. Eu, obviamente, tenho um privilégio gigantesco que é de ter meu pai superbem, superativo. Ele está aqui todo dia e tenho muito o aconselhamento dele — aponta.
Sob a liderança de Grasiela, a NL alcançou um crescimento de 30% em 2025, meta que é almejada para ser repetida neste e no próximo ano.
— O time comprou muito isso. Hoje, então, o meu olhar é para que as pessoas de fato se sintam felizes aqui, que a gente consiga fazer a NL crescer e que siga se perpetuando — finaliza.

