
Articulado e comunicativo, o estudante de Caxias do Sul Marlon Oliveira dos Santos, 16 anos, lembra que nem sempre foi assim. A timidez deu lugar a falas claras e assertivas especialmente depois que ele começou a frequentar uma das turmas da Fundação Projeto Pescar, em setembro do ano passado, no bairro São José.
A metodologia, que abrange formação social e profissional, completa 50 anos no Rio Grande do Sul em maio. Em Caxias do Sul, as atividades foram inauguradas em 1998, com a formação da primeira turma.
— Sempre fui muito tímido e o Pescar me ajudou até nisso: a perder a vergonha e me comunicar melhor. O projeto, em si, ensina muita coisa sobre valores, princípios, sobre a vida profissional. Trabalham muito o cidadão, a ética, a moral. Tudo isso a gente aprende muito bem aqui dentro. Acho muito gratificante — enfatiza o jovem que estuda no segundo ano do Colégio Henrique Emílio Meyer.
Na unidade do bairro São José — existente desde 2012 —, Marlon divide a estrutura com outros 39 jovens aprendizes. As aulas ocorrem no prédio da paróquia, de segunda a sexta-feira, pela tarde, em duas turmas. Os encontros são conduzidos por dois educadores sociais.
Antes de iniciar a rotina de estudos diária, o grupo recebe o almoço. No bairro Diamantino, o Pescar mantém outra turma com 18 participantes. Todos têm carteira assinada com alguma empresa parceira do município.
Marlon recorda que soube do Pescar por uma conhecida que participou de uma das turmas há alguns anos. O prestígio da iniciativa foi o pontapé para que a família do rapaz buscasse pela inscrição no ano passado. O Pescar atende a jovens de 16 a 19 anos em situação de vulnerabilidade social. A formação dura 12 meses, com carga horária total de 960 horas.
— O Pescar é único pra mim. Aqui dentro, não somos somente colegas, somos uma família, somos muito unidos — garante o rapaz que está dividido entre graduações na área do Marketing e da Engenharia da Computação para o futuro.
Formação social e profissionalizante

Desde que foi fundado, há 50 anos, o Pescar já atendeu a 41 mil jovens. O levantamento foi apresentado por Fernando de Bezerra Lollo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), e divulgado por GZH no começo deste mês.
Conforme a pesquisa, dois em cada três dos egressos da fundação estão inseridos no mercado de trabalho (67,4%), sendo 41,6% deles profissionais com carteira assinada. O levantamento também revela que, no recorte de 2018 a 2024, nove em cada 10 egressos conseguiram seus empregos por conta do projeto após a conclusão dos cursos.

Um dos diferenciais da iniciativa é a formação que vai além da profissionalização. No dia a dia, os jovens aprendizes são instruídos sobre noções básicas de convívio até alcançarem os conteúdos mais técnicos: a unidade do São José oferta o curso de iniciação profissional em produção industrial e, no Diamantino, as atividades são ligadas aos serviços de comércio.
— Costumamos dizer que trabalhamos o básico do autoconhecimento, do relacionamento interpessoal. E quando falo sobre o básico é desde pedir licença até bater na porta, porque na casa do jovem muitas vezes não tem porta, é só a porta da rua mesmo. São situações que não estão no hábito dele. Mas o principal ao longo destes 12 meses é olhar pra ele, é fazê-lo entender que é uma pessoa, é um cidadão, que tem direitos e que pode estar onde ele quiser — destaca a coordenadora Niura dos Santos Machado.
O fortalecimento da autoestima e da confiança é, de fato, confidenciado por quem já passou pelo Pescar. É o caso da egressa da unidade do bairro São José Fernanda Fernandes Reis, 24 anos, formada em 2018.
— O que mais me marcou foi a experiência adquirida em relacionamento interpessoal: aprendi a me conhecer, a me posicionar frente a empresários. Um momento marcante foi a nossa formatura, onde tive o privilégio de ser uma das oradoras da turma. Justamente por essa vivência, consegui me posicionar positivamente nas entrevistas de emprego — conta.
Futuro e desafios
Conforme a fundação, quando o projeto começou sua expansão, Caxias chegou a ter mais de 10 turmas. Atualmente, são três, divididas nas duas unidades.
— Eu vejo hoje um grande potencial (para crescimento). Temos muitas empresas em Caxias. E acredito que o principal objetivo daqui para a frente, nos próximos 50 anos do Pescar, é que continuemos formando jovens cidadãos conscientes do seu lugar, que possam entrar nessas empresas e, amanhã ou depois, estarem em cargos de gestão, multiplicando todo esse conhecimento — finaliza Niura.
Como fazer parte
- Para concorrer às vagas, basta entrar no site da Fundação e fazer a inscrição. É preciso preencher os pré-requisitos, como idade entre 16 e 19 anos.
- Também é preciso ter renda per capta de no máximo meio salário mínimo.
- O candidato não pode ter tido experiência de trabalho formal prévia.
- Os cursos são totalmente gratuitos e há apoio com passagens, alimentação e uniforme.


