
Pelo segundo ano consecutivo, a safra da uva na Serra, tanto pela qualidade quanto pela quantidade, agrada produtores e entidades. A expectativa inicial da Emater-RS e do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) era de 900 milhões de quilos, quantidade que deve ser superada quando os números finais forem contabilizados. Conforme o presidente do Consevitis, Luciano Rebelatto, o total pode chegar a 950 milhões de quilos (950 mil toneladas).
O número deve se confirmar apenas no final deste ano, quando todos os produtores registrarem os dados das respectivas colheitas no Sistema de Informações da Área de Vinhos e Bebidas do Ministério da Agricultura e Pecuária. No entanto, até agora, a expectativa já é 15,8% maior do que a safra de 2024/25.
— Nós tínhamos uma projeção de 900 milhões de quilos, mas acredito que vamos ultrapassar, talvez chegue aos 950 milhões de quilos colhidos. A qualidade foi boa. Tivemos um início não tão positivo, onde, lá em janeiro, com algumas variedades mais precoces, resultou numa qualidade um pouco inferior, mas, ao longo de fevereiro, o tempo seco proporcionou a melhora na qualidade — analisa Rebelatto.
De modo geral, mesmo com atraso no início da colheita, a qualidade e o volume obtidos agradam a entidade:
— Os produtos disponíveis aos consumidores estão com uma matéria-prima muito boa e, claro, os derivados também vão carregar essas características.
Da mesma forma, o extensionista rural da Emater Thompson Didoné afirma que é uma safra maior do que a passada:
— A estimativa inicial era de no mínimo 10% em relação à safra do ano passado, mas a gente acredita que é mais que isso. Essa foi uma safra que teve algumas peculiaridades, como o atraso na colheita em 10 a 15 dias em relação a uma safra normal, em razão de um frio que aconteceu na saída do inverno, início da primavera.
Clima favoreceu o cultivo
O clima durante o ano foi dentro do esperado pelos produtores para garantir uma boa safra em quantidade e qualidade. Conforme Didoné, o inverno possibilitou uma excelente brotação e frutificação.
— Em razão da quantidade (colhida), a gente tinha medo que prejudicasse a qualidade (da uva), mas não. Foi uma qualidade boa porque tivemos poucos períodos de chuva, o clima foi muito bom, muito favorável em termos de inverno. No início da primavera, tivemos esse frio que atrasou a safra, mas não gerou problemas — explica o extensionista rural.
Durante a colheita, conforme Didoné, o clima também colaborou com pouca chuva:
— A previsão é de que a gente tenha excelentes produtos. Excelentes vinhos, sucos e espumantes produzidos neste ano, novamente, com uma safra grande.
Colheita acima da média absorvida pela indústria

Para o produtor de uvas Fábio Brustolin, que junto do pai e do irmão cultivam uma área de 22 hectares, a colheita foi acima do esperado. Mesmo enfrentando ocorrências de granizo localizadas, a vindima na propriedade, localizada na 3º Légua em Caxias do Sul, chegou aos 600 mil quilos. No ano passado, quando a colheita também foi considerada acima da média, foram cerca de 500 mil quilos.
— Foi acima do que a gente calculava mesmo. O clima trabalhou bem na hora da formação de grão. A gente não esperava mesmo essa quantidade — afirma.
Sem as ocorrências de granizo, Brustolin projeta que a colheita poderia ter alcançado os 650 mil quilos. Toda a produção da família é encaminhada para a indústria, para a produção de suco de uva. Mesmo com a safra acima do esperado, toda a colheita foi absorvida pela Cooperativa Nova Aliança.
— A uva estava muito boa. A questão de aroma, de baixa acidez e sabor foi muito bom — avalia.
"Mais uma safra secular na história"

Para o enólogo do Grupo Famiglia Valduga, Eduardo Valduga, a safra 2025/26 supera a última em termos de qualidade. A partir dela, devem ser produzidos vinhos e espumantes com boas características:
— A partir da primeira e segunda semana de janeiro, o tempo se fixou, manteve alta qualidade. Foi um ano voltado para a qualidade e se comportou assim até os últimos cachos colhidos na região. Então, podemos dizer que estamos diante de mais uma safra secular na história — afirma Valduga.
De acordo com o enólogo, apesar da incerteza sobre o clima no início da colheita, o tempo firme e ensolarado na maior parte da vindima garantiu que a qualidade fosse acima da esperada.
— As vinícolas estão voltadas a buscar qualidade dentro do seu perfil de produto. Essas, entre vinhos brancos e vinhos tintos, se beneficiaram bastante pela qualidade do clima, pela quantidade pluviométrica adequada, as amplitudes térmicas, a operação térmica entre o dia e a noite de extrema qualidade. Então todas as pessoas que têm as vinícolas vão produzir vinhos extremamente competitivos e de qualidade para o mercado — avalia.
A colheita deste ano é 15% maior na comparação com a safra passada. A vinícola tem produção anual de 2,5 milhões de litros de bebidas derivadas da uva.
Maior safra em 95 anos
Na Cooperativa Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves, 2026 marcou a maior safra de uva em 95 anos de história da vinícola. Entre o final de dezembro e o mês de março, foram colhidos 93 milhões de quilos de uva, volume 30% superior à vindima de 2025, que registou 71,6 milhões de quilos processados.
Atualmente, são cultivadas 56 variedades de uvas por cerca de 1,1 mil famílias cooperadas. Entre as principais estão merlot, cabernet sauvignon, chardonnay e pinot noir (vitis viniferas) e isabel, BRS magna, seibel e bordô (americanas e híbridas).
— Esta foi uma safra que ficou cerca de 8% acima do esperado. Tivemos um ciclo muito favorável do ponto de vista climático, com inverno rigoroso, boa disponibilidade de horas de frio, ausência de geadas tardias e condições ideais durante a floração e o desenvolvimento das plantas. A leve escassez hídrica no período de maturação também foi fundamental para elevar a qualidade das uvas — avalia o gerente Agrícola da cooperativa, Maurício Bonafé.
A Cooperativa Vinícola Garibaldi, que tem 470 associados, também fechou a safra com bons resultados. Houve um crescimento de mais de 10% em relação ao ano anterior, com volume superior a 30 milhões de quilos de uva.
– As condições favoreceram o desenvolvimento adequado dos vinhedos, garantindo bons índices de maturação, sanidade e potencial enológico das uvas – detalha o enólogo da Garibaldi, Ricardo Morari.
Preocupação setorial com a comercialização
Acompanhado da comemoração de uma boa safra, o setor da vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul, representado pelo Consevitis-RS, manifesta preocupação com a comercialização do volume de uvas colhido na vindima.
— A safra foi muito grande, é de boa qualidade, mas o setor precisa trabalhar e encontrar novos mercados para fazer com que esse produto seja consumido e disponibilize espaço para a próxima safra, de 2027. O setor também está muito empenhado e muito preocupado em encontrar formas de promover os nossos produtos e de fazer com que sejam escolhidos — observa Rebelatto.
De acordo com o presidente da entidade, no Rio Grande do Sul, de 85% a 90% da uva produzida é americana ou híbrida. Desses 90%, cerca de 60% são destinados ao suco de uva concentrado e integral.
— Essa é a importância que tem o suco dentro do setor. O grande volume, o que movimenta e o que paga boleto, é o suco de uva. Por isso, estamos planejando uma campanha de marketing bem forte e focada no suco de uva — afirma.
A campanha será focada no mercado interno e terá como objetivo a conscientização para que a população opte por comprar o suco de uva brasileiro.
De acordo com os dados do Consevitis, as vendas do suco de uva concentrado e reconstituído diminuíram em 23,90% e 22,24%, respectivamente, em 2025. No último ano, a safra chegou aos 750 milhões de quilos.
Em 2025, conforme o Consevitis, foram vendidos 154 milhões 320 mil 785 litros de suco de uva. Para vinhos e espumantes, foram 246 milhões 772 mil 454 litros comercializados.


