
Entre o cheiro da madeira tostada e o som ritmado das ferramentas na oficina, um ofício ancestral resiste na Serra gaúcha — mas cada vez mais raro. O tanoeiro, artesão responsável por transformar tábuas de madeira em barricas, é peça histórica da vitivinicultura regional. Hoje em dia, porém, a profissão enfrenta a falta de novos aprendizes, a concorrência de barricas importadas e a industrialização do setor, tornando-se uma atividade em risco de desaparecer justamente na terra onde ajudou a construir uma tradição.
Os itens produzidos por um tanoeiro sempre foram relacionados ao armazenamento do vinho e, mais recentemente, de aguardente/cachaça. Na região, são poucos os que ainda mantêm viva esta arte, que chegou à Serra com a vinda dos primeiros imigrantes italianos, há mais de 150 anos.
Um dos mais tradicionais é Eugenio Mesacaza, da tanoaria que leva o seu sobrenome. Localizada em Monte Belo do Sul, a empresa já passou por três gerações na família. Fundada na década de 1960 por Miguel Arcângelo, a empresa é tocada atualmente por Eugenio e seu filho Mauro.
— Eu lembro que tinha sete anos quando ele (Miguel) construiu o primeiro barril, foi de 500 litros e ele envergou as peças uma a uma para confeccionar o barril. Levou uma semana para fazer, até hoje eu tenho guardado para contar história — recorda Eugenio.
Em 1989, com a chegada da luz trifásica, a família começou a dar novos passos e comprar máquinas mais robustas. Em novembro de 2001, se mudaram para o atual endereço, na Rua Dom Luiz Colussi.
Mauro explica que a produção funciona assim: as aduelas, peças do em torno do barril, são inicialmente retas e passam por um processo de usinagem para ficarem abauladas. Logo após é aquecida em um forno para a madeira amolecer e poder curvar. Na montagem, a única sustentação são os arcos, não se utiliza nenhum tipo de cola ou outro material para juntar as peças. Eles passam, ainda, processo para, por fim, serem fechados e lixados. Para vedação é necessário colocar água para a madeira inchar e vedar.
O processo, no passado, era muito mais artesanal. Eugenio se recorda que há 40 anos, quando produziu 72 barricas de 300 litros para a Vinícola Miolo, demorou três meses para entregar o pedido, que foi feito por quatro pessoas. Atualmente, é possível entregar 30 de 250 litros por semana — tamanho padrão para as cachaças, por exemplo. Inclusive, a mão de obra é vista como um dos principais desafios.
— Tem as máquinas, mas ainda requer uma mão de obra manual, porque na hora de tirar o arco, fazer a montagem, não tem um robô que faça, tudo é feito manualmente — comenta.
Lá, são produzidas barricas de vários tipos de madeira, como as nacionais grafia, cabreúva, jequitibá rosa, bálsamo, além do carvalho americano e francês. No passado, Eugenio chegou a trabalhar em vinícolas produzindo tonéis novos, como de 100 mil litros, e reformas nesses. Hoje, cerca de 90% do faturamento da Mesacaza vem de barricas produzidas para cachaçarias.
De acordo com Mauro, cada intensidade de queima extrai um aroma e sabor diferente para a bebida. Com o carvalho, por exemplo, a tosta leve entrega notas de madeiras com aromas doces e frutados, a média lembra bastante notas de chocolate, pão tostado e baunilha, enquanto a forte traz tons de café, cacau e defumados.
Além da produção de itens novos, eles são responsáveis pelo processo de restauração de barris, que compreende 30% do faturamento da tanoaria. Para isso, os barris são abertos, as tampas são retiradas, passam por um processo de raspagem com freza para limpeza interna, e depois os barris são tostados e fechados para retornarem a outras bebidas.
— Sentimos falta de outros tanoeiros. No passado tinha muitas empresas em Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Veranópolis, mas o pessoal era especializado em madeira para o vinho, só que, quando surgiu o tanque de inox, a maioria dessas empresas fechou ou trocou de atividade. Meu pai foi persistente nesse período de transição do tanque de madeira para o inox — afirma Mauro Mesacaza.
A produção da tanoaria já chegou a Estados como São Paulo e Minas Gerais e para países como Estados Unidos, Escócia e França.
A arte como potencial turístico
Já pensou em se hospedar em uma pousada temática de pipas de vinho? Pois na Villa Montebello, também em Monte Belo do Sul, o casal Vanessa e Genei Marcos Stasczak uniu a expertise na arte da tanoaria com o turismo.
No interior do município, criaram uma pousada feita exclusivamente com barricas, que vão de dimensões como 100 mil litros a 175 mil — essa em fase final de obras. Toda montagem e desmontagem foi feita por eles mesmos, proprietários da Tanoaria Monte Belo na cidade. Lá, até o apresentador e humorista Paulo Vieira ficou hospedado durante a gravação do programa Avisa Lá que Eu Vou, da TV Globo — o espaço, inclusive, foi um dos cenários da gravação.
— As pipas para vinho são só madeiras encostadas uma na outra, e aí tivemos que trabalhar internamente para fazer vedação, porque quando é usada para vinho, esta sempre inchada e encharcada, e ali ela fica no tempo, sol e chuva, tivemos que fazer vedação, o que dá um trabalho maior — explica Stasczak.
E a Villa Montebello não é o único local onde as pessoas podem se hospedar em pipas. Isso porque Genei também faz a montagem dessas cabanas em outros locais, com clientes em diversos Estados do país, inclusive, na última semana, realizaram uma montagem em Vitória, no Espírito Santo.
Na tanoaria, que começou em 2013 após Genei ter trabalhado em outra empresa do ramo, são produzidos barris em carvalho e reformas, mas o foco principal acaba sendo o restauro em grandes tonéis de madeira para armazenamento nas vinícolas.
— Os grandes não são para aroma, mas para depósito, tem muitas vinícolas que trabalham com suco, com vinho, e usam as pipas grandes, e fazemos muitas manutenções. Fazemos alguns novos, mas mais é a manutenção — afirma Stasczak.
Eles também fazem outros produtos utilizando madeiras, como bancos no formato de barricas e até banheiras de ofurô.
— Para as banheiras utilizamos o cedro rosa com uma resina especial para água quente. E estamos trabalhando com tonéis grandes para fazer hospedagens, atendemos o Brasil inteiro, São Paulo, Rio de Janeiro, ocupando o que é descartado das vinícolas e transformando em cabanas — complementa.
Tradição que já foi referência em Caxias
Na Linha 40, em Caxias do Sul, está um dos poucos tanoeiros que resistem ao tempo na cidade. A localidade, inclusive, já foi referência na tanoaria regional, com importantes empresas sediadas lá. Hoje, a Serval Indústria de Pipas é quem segue a tradição, mas teve que se adaptar.
Se antes a produção era focada em abastecer o setor vitivinícola, fornecendo as barricas para vinícolas e cantinas da região, hoje o foco é outro. Para se manter na ativa, foi necessário redirecionar a atuação para a restauração de pipas inativadas pelas vinícolas. Boa parte da demanda é para o reuso de empresas que armazenam cachaça — uma bebida que necessita da passagem por barricas em seu processo de elaboração.
À frente da Serval desde 1995, Sérgio Olivo Adami, 58 anos, era funcionário da empresa e, naquele ano, se tornou um dos sócios proprietários da tanoaria. Ele conta que hoje a produção de novas barricas para armazenar vinho é quase inexistente, pois as vinícolas que ainda as utilizam acabam importando as de carvalho francês.
— Hoje, as vinícolas passaram a não ser mais os nossos principais clientes, apenas para manutenção. É mais o pessoal que fabrica a cachaça e pousadas, restaurantes, adegas. Muita coisa decorativa a gente faz — explica.
O nicho de pousadas, inclusive, fez a empresa ir duas vezes ao Espírito Santo para a montagem de pipas de 100 mil litros que viraram hospedagem. A montagem e desmontagem de pipas desse tamanho gira em torno de um mês. Já o restauro das pipas convencionais, de 225 litros, permite, em média, restaurar de cinco a seis barricas por dia.
O receio da falta de continuidade da profissão, porém, gera um clima de insegurança. Hoje, a empresa só tem o Sérgio e um funcionário. E não há perspectiva de renovação.
— Infelizmente, depois da minha geração, eu acho que não vai mais ter ninguém. Vai entrar em extinção. Porque é um serviço que hoje em dia ninguém mais quer fazer, por ser um serviço pesado. É uma pena porque é um trabalho que vai se perder, e eu gostaria de passar para outra geração para continuar, mas não vejo perspectiva disso — lamenta.

