
Na visita à Serra, no fim de janeiro, o ministro dos Transportes, Renan Filho, assinou a deliberação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) que autoriza a instalação de motor elétrico auxiliar em caminhões. Para a indústria de Caxias do Sul, o ato marca um impacto positivo, uma vez que a empresa pioneira da tecnologia em transportes de carga é a Suspensys, do grupo Randoncorp.
Chamada de módulo de tração e-Sys, a tecnologia, com 100% da engenharia brasileira, foi desenvolvida para semirreboques, com a autorização para o uso em 2022. Ou seja, a instalação do eixo auxiliar elétrico do transporte de carga já transformava o veículo em híbrido a partir da instalação na carreta, trazendo ganhos em economia de combustível e na emissão de poluentes.
A partir da utilização em carretas, surgiu o projeto para Suspensys desenvolver o mesmo eixo auxiliar elétrico para o próprio caminhão. A nova deliberação do Contran é justamente para regulamentar a instalação no cavalo mecânico (a parte dianteira de um caminhão articulado).
A regulamentação, como analisa Pedro Orlando, gerente de Eletromobilidade da Suspensys, é vista como positiva para o setor como um todo. A tecnologia de sistemas híbridos é considerada um dos principais caminhos para futuro do segmento:
— A regulamentação vem para que a sociedade possa trazer e ter esse ganho. A Randoncorp buscou apoiar essa regulamentação, para que ela caminhasse e tivesse uma celeridade para que pudéssemos contribuir ainda mais com as condições climáticas e tornar um transporte de cargas mais sustentável.

Sistema como o de Fórmula-1
Dependendo da rota, o e-Sys instalado em carretas pode apresentar até 25% de economia no combustível e na emissão de poluentes. Como explica Orlando, o sistema, instalado junto aos eixos do veículo, tem o mesmo conceito do KERS (Sistema de Recuperação de Energia Cinética) utilizado na Fórmula 1.
No caso da tecnologia da empresa da Randoncorp, a geração de energia elétrica acontece nas descidas e nas frenagens. Já quando o caminhão está em subidas, o motor traciona, ajudando na potência do veículo. Apenas esse motor tem mais de 200 cavalos de potência.
Há também a possibilidade da bateria ser recarregada em tomada plug-in.
Além do ganho na economia de combustível e emissão de poluentes, a Suspensys percebeu outros benefícios como um aumento na durabilidade dos freios e do motor, além do veículo manter uma velocidade média em subidas e ter mais potência em ultrapassagens.

Projeção de mais de 30% de economia com avanço da tecnologia
Com a implantação do e-Sys também no caminhão, a projeção é de que a economia de combustível e redução da emissão de poluentes passe dos 30%. Hoje, a Suspensys possui um protótipo, apto para rodar para testes.
A partir da autorização, Orlando conta que será possível ter mais veículos com o sistema rodando. O planejamento é de que parceiros utilizem os caminhões e que os trajetos sejam monitorados para o levantamento de dados.

— Operando eles em vias normais, em condições normais do dia a dia, do motorista, para aperfeiçoarmos ainda mais ele e poder deixar um produto realmente otimizado, em estado da arte para podermos trazer esse benefício de descarbonização e contribuir ainda mais com o nosso clima — projeta Orlando.
Investimento aprovado
Fundada em 1990 em Lajeado, a Tomasi Logística, transportadora, que atende em todo o Brasil e no Mercosul, investiu há dois anos em dois equipamentos. Neste ano, decidiu adquirir novos para serem somados à frota. Conforme o diretor executivo, Rodrigo Tomasi, um dos resultados do uso da tecnologia foi a economia de cerca de 17% em combustível e na emissão de poluentes.

Há um projeto em análise na transportadora, junto a uma montadora multinacional, que pode chegar a uma frota de dez veículos híbridos.
— Primeiro que é um, digamos assim, um apelo muito grande das grandes multinacionais do Brasil ter esse produto híbrido, porque ele é mais uma maneira de ambientalmente estar dentro dos parâmetros que essas multinacionais exigem — comentou Tomasi.
Os dois semirreboques foram utilizados em um projeto que envolveu a empresa de Lajeado, o grupo Randoncorp e a Nestlé. Elas foram incorporadas em um trajeto entre o interior de São Paulo até a Bahia, de cerca de 3,1 mil quilômetros.
— Então, (o trajeto) ultrapassando ali a região de Minas Gerais, onde era bem acidentada, bem montanhosa esse eixo elétrico, por funcionar nessa forma de gerar energia no declive e liberar energia no aclive, funcionou muito bem nessa região — contou o diretor.
Com a liberação do governo, Tomasi adianta que a empresa participará do projeto para testar o motor elétrico auxiliar no cavalinho (o segmento motorizado do caminhão).

