
O município de Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, irá abrir pela primeira vez uma safra do mel para celebrar e valorizar a apicultura. Será na quarta-feira (11), em um evento realizado pela prefeitura em parceria com a Associação Cambaraense de Apicultores (Acapi), no Cambará Eco Hotel, a partir das 16h.
Para o ciclo 2025-2026, o escritório local da Emater projeta uma produtividade média, por colmeia, de aproximadamente 30 quilos de mel. A estimativa é que existam em toda a cidade cerca de 12 mil colmeias.
O desempenho esperado é mais positivo ao comparar com períodos anteriores, em que a colheita média já foi de 17, 12 e até sete quilos por colmeia. O crescimento é explicado pelas condições climáticas favoráveis, segundo o técnico agrícola do escritório da Emater em Cambará do Sul, Neimar Fonseca:
— Tivemos estações climáticas bem estabelecidas, não houve a ocorrência de chuvas em épocas significativas que atrapalhassem as florações. Então, o clima é um dos principais fatores que contribuíram para a recuperação da produtividade dos enxames. As perspectivas para a safra 2025-26 são de índices próximos à normalidade, o que há quatro ou cinco anos não tínhamos.
O município se destaca pela produção de três tipos de mel:
- Silvestre: proveniente de uma mistura de flores de árvores nativas como bracatinga, guaraperê e cambará, resulta em um sabor doce e agradável. É colhido entre novembro e dezembro e é o mais consumido na região.
- Branco: monofloral da planta carne-de-vaca. É colhido entre o fim de janeiro e fevereiro (coincidindo com a abertura da safra).
- Melato: originário de resina da árvore nativa bracatinga, tem aparência escura e é ligeiramente mais amargo que os méis florais. É colhido em anos pares.
Fonseca aponta que aproximadamente 120 famílias dependem diretamente ou indiretamente da produção de mel no município. Uma delas é a de Liane Castilhos, que dá continuidade ao legado do pai, Irineu Castilhos, no comando do tradicional Apiário Cambará. Além disso, ela é sócia da Acapi e vê no município um cenário de retomada do protagonismo da apicultura.
— O mel de Cambará teve uma grande ascensão na década de 1990. Depois, voltou a cair. Mas agora a comunidade está novamente entendendo que o mel e a apicultura são um caminho muito interessante na cidade. Estamos entre os cinco maiores produtores de mel do Estado, esse evento é para mostrar até para os próprios apicultores o que eles têm nas mãos — destaca.
O técnico agrícola da Emater reforça, também, que o mel é uma oportunidade para venda associada ao turismo, já que Cambará recebe visitantes para os atrativos naturais, como os cânions.
— Os turistas muitas vezes vão adquirir o mel de Cambará. A região é contemplada com uma forragem apícola em quase sua totalidade nativa, sem interferência de monoculturas. Isso acarreta em uma série de características singulares aos meios produtivos na região, seja coloração, sabor ou finalidades. Pode-se dar destinos nobres para esse tipo de mel produzido aqui — detalha.
Busca pelo reconhecimento do mel branco
Considerado uma iguaria, o mel branco é descrito com sabor suave e floral, sob uma aparência de tonalidade clara, especialmente após a cristalização. O produto é conhecido por ser oriundo da árvore nativa carne-de-vaca (clethra scabra).
— É difícil consegui-lo porque o mel é monofloral dessa árvore, e precisamos de um clima perfeito para que a floração dela aconteça. Ela é muito sensível. Esse mel tem uma cristalização rápida, e aqui em Cambará, uma região fria, a cristalização é ainda mais rápida, contribuindo para que ele fique branquinho — revela Liane.
É nesse contexto que apicultores, Secretaria estadual da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) e Emater, com apoio do Sebrae e universidades, unem forças para coletar informações, depoimentos e histórias relacionados à produção do mel branco com o objetivo de subsidiar a solicitação da indicação geográfica (IG) do alimento ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
A IG se refere a produtos ou serviços que tenham uma origem geográfica específica. O registro reconhece reputação, qualidades e características vinculadas ao local. É como dizer ao mundo que aquela região se especializou em fazer, com excelência, o mel branco, chancelando o que já é tradição. Um exemplo prático de indicação geográfica reconhecida é o Vale dos Vinhedos, com foco nos vinhos, abrangendo Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul e Garibaldi.
Ao todo, a missão do mel branco inclui quatro municípios dos Campos de Cima da Serra. De acordo com a Seapi, está em andamento a análise da composição botânica das matas onde estão os apiários em Cambará do Sul e Jaquirana, sendo que, neste ano, esse levantamento será iniciado em São José dos Ausentes e Bom Jesus.
No mês passado, pesquisadores procuraram identificar espécies de abelhas com potencial para elaboração do mel branco a partir da verificação dos visitantes florais da árvore carne-de-vaca. Essa etapa também aconteceu em Cambará e Jaquirana. Além disso, mais um lote de amostras da iguaria será submetido à análise polínica.
— É a valorização do mel e do seu preço. A partir do momento que a gente conseguir organizar tudo isso, o produtor terá nas mãos um produto certificado. Já vimos isso acontecer, então acreditamos que o mel branco tomará o mesmo caminho — assinala Liane, lembrando que o mel de melato da Bracatinga possui denominação de origem (um tipo de IG) com abrangência sobre o Planalto Sul Brasileiro, incluindo municípios dos Campos de Cima da Serra como Cambará.
As pesquisas para a conquista da IG são desenvolvidas desde 2024 e tem previsão, conforme a Seapi, para serem concluídas neste ano.


