
O relatório Digital 2024: 5 Billion Social Media Users aponta que o Brasil está em terceiro lugar no ranking de tempo gasto em redes sociais, com uma média de 3h37min por dia nas plataformas. Já uma pesquisa do Datafolha, divulgada em dezembro de 2024, revela que 96% dos brasileiros têm pelo menos uma conta em rede social. Dados que comprovam como essas ferramentas mudaram, principalmente, a forma como consumimos.
Para além dos conteúdos de grandes marcas, ou os perfis do clube do coração e a banda favorita, há uma crescente busca por acompanhar as publicações até mesmo das pessoas consideradas “comuns”. E aqueles que ganham mais seguidores nesse processo até recebem um nome específico: influenciadores. A quem Camila Cornutti, professora do Centro de Comunicação da FSG Centro Universitário, define como “herdeiros diretos do que chamamos de um sistema de celebridades”:
— É isso que se vem estudando dentro do campo da comunicação, é como se essa cultura da celebridade de alguma forma antecedesse as redes sociais, ela vem do que chamamos de um star system, que é como se fosse a fabricação de estrelas, isso operou muito durante o início do século 20, sobretudo com o cinema norte-americano, operando nessa relação a imprensa, o rádio, o cinema, TV os meios de comunicação clássicos.
E o hábito de começar a divulgar a vida, o trabalho, as viagens, entre outros, tem sido uma oportunidade para incrementar a renda, e se tornado até mesmo um trabalho. Segundo uma reportagem publicada em GZH no ano passado, o YouTuber Mr. Beast apareceu novamente no topo da lista dos 50 criadores de conteúdo digital mais influentes do mundo, com um faturamento na casa dos R$ 438,1 milhões.
— Podemos entender que foi virando uma profissão na medida em que existe contrato, monetização, estratégia. Então isso vai caracterizando de alguma forma um trabalho. A pessoa, ao mesmo tempo, vai virando um produto mídia, narrativa e personagem — complementa.
Mesmo que não exista uma obrigatoriedade de formação específica para atuar como influenciador, a professora Camila salienta que os cursos de comunicação estariam mais próximos. Além disso, acredita que no futuro, ou já no presente, as crianças podem sonhar com essa profissão:
— Minha filha acabou o primeiro ano do Ensino Fundamental, e numa atividade que as crianças expunham o desejo profissional no futuro, boa parte citou a profissão youtuber (pessoas que tem um canal no YouTube, uma das principais redes sociais).
Divulgar o que faz sentido
É difícil afirmar quem foi a primeira pessoa de Caxias do Sul a se tornar “influenciador” nas redes sociais. Mas podemos dizer que Rafaela Grolli, 29, é uma das pioneiras. Em 2017, quando estava ainda na faculdade de Relações Públicas, resolveu criar um perfil no Instagram para indicar os melhores lugares da cidade, o Fica Dica Caxias. Natural de Ijuí, no norte do RS, mora na Serra desde os 11 anos, e no início contava com a ajuda de uma amiga.
— Na época eu trabalhava em horário comercial e fazia faculdade. E foi muito bacana, porque muitas das coisas que eu aprendia na faculdade, (por exemplo) posicionamento, como se comunicar e persona, eu conseguia aplicar dentro do Fica a Dica. E eu lembro que as pessoas começaram a me procurar para tudo, serviços, marca de esmalte — relembra.
O surgimento do perfil foi justamente no período em que muitas pessoas passaram a apostar na divulgação do lifestyle (estilo de vida, em tradução livre) nas redes sociais. Em novembro de 2022, já sozinha na condução do projeto, resolveu sair do emprego com carteira assinada como analista administrativa em uma empresa de hospedagem, local em que trabalhou por seis anos, para viver na internet. E, ao longo dos oito anos à frente do Fica Dica, viu muitas mudanças no mercado:
— Na pandemia a questão das redes sociais acabou meio que dando uma virada de chave, tinham, por exemplo, restaurantes muito bem consolidados na cidade que não tinham Instagram, então, com a pandemia, todo mundo conectado eles meio que dizendo: “poxa, nós temos que estar ali também”.
Hoje o perfil já é uma marca consolidada na cidade e na região, com quase 100 mil seguidores, tem alcance em municípios como Farroupilha, Flores da Cunha, São Marcos e até Porto Alegre. O Fica Dica é uma empresa constituída com sete colaboradores e, mesmo com a crescente busca para divulgações, Rafa preza por manter a essência:
— Apesar do Fica Dica ser um perfil de dicas, e eu aprendi muito isso na minha graduação, e é uma coisa que eu mantenho, divulgar somente lugares que fazem sentido no momento de vida que eu estou, eu não sou um outdoor, isso me traz mais propriedade de fala e não só aquela publicidade que a pessoa vê de longe que é uma publicidade.
Meta do ano em 10 dias
O caxiense Guilherme Bacca, 27, é formado em marketing pela UCS, trabalhou em agências como desenvolvedor de software e já foi até camelô. Entre idas e vindas, mora em Florianópolis desde 2020. Após alguns momentos conturbados na vida, com perda de emprego, dívidas e tentativas de se encontrar, foi com as redes sociais que descobriu um novo caminho.
A primeira publicação de um projeto pessoal foi ao ar em 28 de maio de 2025. A ideia era uma série de 15 vídeos em busca de uma rotina mais saudável. Entre eles, encontraria o monoflow, uma estratégia de marketing de conteúdo baseada na repetição intencional de um formato. E naquele momento traçou a meta de chegar em 10 mil até o final do ano. Para isso, fez diversos conteúdos, até que uma amiga sugeriu um vídeo cronometrando quanto tempo demorava para fazer tarefas de casa, que teve 60 mil visualizações.
Logo depois, um conteúdo em que colocou um brinquedo de sua gata em uma parafusadeira e o girou, somado à organização da mesa de trabalho, ultrapassou as 100 mil visualizações. E voltando para os conteúdos de cronômetro, resolveu marcar o tempo que arrumava a cozinha, e foi quando tudo mudou:
— Editei o vídeo, postei e dormi. O vídeo já tinha dado um pouco bom. Só que eu acordei e o vídeo estava com 500 mil visualizações mais ou menos. E aí eu fui vendo os comentários, (as visualizações e interações) eram porque eu tinha muito vinagre em casa, outra foi porque eu comecei arrumando de baixo para cima o armário, então quando eu fui arrumar em cima a sujeira caiu onde eu já tinha limpado, outra foi porque eu joguei toda a sujeira no chão e não limpei, terminei o vídeo e deixei o chão sujo — resume Bacca.
No dia seguinte, já havia batido a meta para o ano, de superar os 10 mil seguidores. Dali em diante, passou a buscar marcas e começou a fechar as primeiras parcerias de divulgação. Para superar a marca dos 100 mil, foram dois meses. Ele já fechou com marcas de produtos para beleza e suplementos alimentares. E com grandes empresas, como o Nubank e o Lollapalooza.
Agora, também está virando empresário de outros influenciadores, como da também caxiense Bruna Rech (conheça mais abaixo). Ao mesmo tempo, já pensa nos próximos passos nas redes. Com três diagnósticos de neurodivergência, pretende abordar o tema por lá:
— Eu quero trazer muito desses assuntos para trazer métodos e formas das pessoas lidarem com ansiedade, lidarem com o TDAH, usarem a superdotação a seu favor.
"Não maquio nada para postar”
Um dos conteúdos mais difundidos nos últimos anos nas redes sociais é vida na estrada. E quem está inserida nesse nicho é a caxiense Bruna Rech, 30. Filha de caminhoneiro, se orgulha muito das raízes familiares e é apaixonada pelas viagens.
Em 2021, junto de um ex-namorado, montou uma Kombi e foi até o Jalapão, no Tocantins. Mas, na volta, acabou entrando em um emprego e as viagens diminuíram. Porém, o desejo por retornar às estradas seguiu em alta. Até que no ano passado comprou um Renault Kangoo, ano 2000, em Santa Catarina, e montou uma casa nela. A primeira viagem foi entre junho e setembro, para a Bahia. Mas precisou retornar em virtude da morte do pai, em um acidente.
— Eu amo a estrada, inclusive, se me perguntar, "mas eu te dou passagem de avião para tu ir", não quero! Eu quero ir acompanhando a mudança que vai acontecendo no caminho, eu acho lindo, inclusive eu choro, às vezes passa de um Estado para o outro, daí eu vejo a mudança real acontecendo. E eu vou gravando tudo também, deixo o celular ali e vou gravando tudo — comenta.
E foi justamente nessa viagem para a Bahia que começou a publicar vídeos no Instagram. A ideia inicial era manter os amigos informados e fazer um diário para eles. Mas o caminho mudou. Com o auxílio do amigo e agora empresário Guilherme Bacca, passou a trazer mais conteúdo do tema. Ela saiu de Caxias do Sul com 2 mil seguidores e em dois meses passou para 100 mil. Hoje tem quase 400 mil.
— Realmente eu não tenho essa noção de números. Respondo às pessoas ali, até isso me gerar um pouco de ansiedade, porque no início da viagem eu conseguia responder todo mundo, eu tinha uma relação de amizade até com as pessoas novas que chegaram. Conforme foi crescendo, eu fui ficando meio ansiosa porque não dou conta de responder todo mundo — explica.
Em fevereiro, saiu em uma nova viagem com o Ushuaia, na Argentina, como destino, a cidade conhecida como o "fim do mundo", por ser a mais ao sul do planeta. Bruna já está fechando contratos com marcas e começando a viver das redes sociais, e mesmo assim busca manter a essência:
— Gosto de ser eu mesma, gosto muito disso em mim, porque eu não maquio nada para postar. Tudo o que eu posto é muito real. Eu me inspiro muito nas mulheres também que viajam sozinhas, porque acho que é muito importante, recebo muita mensagem de mulheres falando que se encorajam e se inspiram em mim. Até acho isso muito louco.
Para além do influenciador
O crescimento do mercado da influência nas redes também difundiu outras atividades, como a de agentes e produtores. É o caso de Wilckson Bitencourt, conhecido como Will, que hoje trabalha com o fenômeno Chico, o vendedor raiz.
Há uma década, após ter trabalhado por mais de sete anos como metalúrgico, iniciou sua carreira como designer e produtor de conteúdo para agências de marketing. No mesmo período, ajudou Fagner Lima da Silva, o Boleiro, nas primeiras criações no Facebook. Mas foi durante a pandemia que a parceria retornou mais forte.
— Aí entendemos um pouco mais do mercado, como que funcionava o contato com as marcas que até então eu não sabia como é que funcionava essa conexão para um influenciador, fazer uma publicidade, fazer um trabalho publicitário pra agências ou pra empresas — diz.

Anos depois, conheceu Francisco Cechin Junior, o Chico, vendedor raiz. Na época ele era conhecido pelos áudios, principalmente pelo WhatsApp. Após uma apresentação, iniciou o trabalho com o influenciador, em uma rotina que considera como similar a outras atividades profissionais. Ele é responsável pela parte comercial e auxilia na criação dos roteiros. Como produtor, Will diz que não há tantos segredos para alguém “estourar” na internet, mas tudo passa pela paciência:
— A paciência é uma chave dessa parte do sucesso do criador, porque não é da noite pro dia, precisa de consistência, a paciência de saber que talvez tu vai fazer um ano ali e não conseguir criar um contrato. É um mercado competitivo, está cada dia mais competitivo pelo tanto de ferramenta.
