
Acompanhando as tendências comportamentais em todo o mundo, as bebidas desalcoolizadas estão chegando com tudo nas gôndolas dos mercados. No Brasil, a cerveja zero álcool já está na rotina de confraternizações entre amigos e familiares, mas um produto que vem se aproximando do público são os fermentados de uva desalcoolizados, popularmente conhecidos como "vinhos desalcoolizados". Nesse método, os vinhos tintos, brancos e espumantes são feitos pelo processo tradicional, porém, ao final, passam pela remoção do álcool, entre 10% a 14%, restando menos de 0,5%.
Dados da Pesquisa Internacional de Vinhos e Destilados (International Wine & Spirits Research - IWSR) mostram que o mercado global de bebidas no-álcool (0% a 0,5% de álcool) deve crescer em média 7% ao ano até 2028, adicionando mais de US$ 4 bilhões ao segmento. Nos Estados Unidos, o mercado pode atingir quase US$ 5 bilhões, impulsionado principalmente por consumidores da geração Z, que já consomem menos álcool em comparação a pessoas de mais idade e buscam produtos que unam prazer, saúde e propósito.
Na Serra gaúcha, diversas vinícolas estão investindo nesses rótulos, como a Cooperativa Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves, que, em apenas quatro meses de 2025 após o lançamento dos produtos desalcoolizados, comercializou 25 mil litros.

No caso da Vinícola Luiz Argenta Vinhos e Espumantes, de Flores da Cunha, a nova aposta foi lançada em janeiro de 2026, após dois anos e meio de estudo. São três rótulos e 15 mil litros envasados. Contudo, há outras que ainda estão avaliando o mercado, como a Cooperativa Nova Aliança, também de Flores da Cunha. Com mais de um ano de trabalho, as pesquisas seguem em andamento, mas já existe o planejamento de produzir um vinho com características específicas para passar pelo método de desalcoolização.
Apesar de existir um público mais consolidado em outros países, como Alemanha, pioneira no método, no Brasil, o consumo das bebidas sem álcool segue "tímido" e rodeado de dúvidas, como: qual é a diferença entre um produto zero álcool e um desalcoolizado? Explicamos a seguir!
Zero álcool x desalcoolizado

Um dos pontos iniciais que precisam ser esclarecidos quando o assunto são bebidas à base de uva desalcoolizadas é que, pela legislação brasileira, não é permitido chamar no rótulo como "vinho" ou "espumante", como explica a presidente da seccional gaúcha da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-RS), Caroline Dani.
— A lei que norteia os vinhos no Brasil diz que vinho é um fermentado alcoólico de uva, então, ele não pode ser chamado de vinho sem álcool. Ele é um fermentado de uva desalcoolizado. É importante dizer que a matéria-prima é a mesma, o processo de elaboração é o mesmo, ele vai ter álcool. O que acontece para que esse produto passe a não ter álcool? Ele é submetido a um processo de desalcoolização. Ele, que um dia foi vinho, passa a perder uma das características importantes, segundo a legislação, que é ter o álcool — salientou.
Também há uma grande diferença entre os produtos zero álcool e desalcoolizados, dado que um deles passa por um método mais "artificial".
— Zero álcool é um produto que não passou pelo processo de fermentação alcoólica. Para se tornar vinho, ele é um mosto (sumo fresco obtido da prensagem ou esmagamento das uvas) que passa a ser vinho. Então, o açúcar da uva é fermentado e se transforma em álcool. Esses produtos zero álcool, em geral, são bebidas de uva gaseificadas — esclareceu.
Contudo, os "vinhos" desalcoolizados também passam por uma alteração, com a inserção de um pouco de açúcar e gás carbônico para tornar o líquido mais agradável no paladar.
— Tanto a incorporação de gás carbônico (nos espumantes) como a incorporação de açúcar vêm para ajudar a tornar o produto mais palatável, na sommelierie se usa muito o termo drinkability, deixar mais bebível, porque, sim, infelizmente, o processo de desalcoolização faz com que se percam alguns dos elementos que são importantes, como a acidez, assim como os aromas. A tendência desse processo de desalcoolização é de trazer um certo amargor, que é algo que o consumidor não gosta, então, na hora que eu coloco um pouco de açúcar, eu amenizo. E na hora que eu coloco um pouco de gás carbônico, eu também deixo mais palatável, pois ajuda na questão da salivação — comentou.
Três rótulos e 15 mil litros

A Vinícola Luiz Argenta Vinhos e Espumantes estudou por mais de dois anos o método de desalcoolização. Após um investimento em um equipamento importado da Itália que faz todo o processo, foram lançados três rótulos: o tinto com 100% da uva shiraz, o branco com 100% da variedade sauvignon blanc e o espumante com 10% gewurztraminer, 40% riesling e 50% chardonnay.
Conforme o enólogo da casa, Edegar Scortegagna, o vinho segue todas as etapas tradicionais, mas encontraram uma forma menos agressiva da retirada do álcool, sendo em duas fases complementares: nano filtração e destilação a baixa temperatura e a vácuo. Desta forma, é possível preservar sabores, aromas primários e secundários, frescor, textura, identidade varietal e expressão do terroir.
— O resultado disso é um produto que mantém a integridade dos aromas. Se colocar no nariz, vão perceber que o espumante tem um aroma cítrico, refrescante. O vinho branco, no nosso caso, tem o aroma da arruda, do pimentão, do maracujá. O shiraz passa antes de nove meses por barricas de carvalho, então mantém o aroma do vinho da barrica, da maturação. Onde é que muda então? Na boca, porque o álcool, depois da água, é o principal produto do vinho, pois tem uma função muito importante, principalmente de dar volume de boca, de dar dulçor, de dar corpo — explicou Scortegagna.

O enólogo também reforçou que o público precisa estar disposto a "comprar" a ideia da bebida desalcoolizada.
— As pessoas não podem buscar um desalcoolizado achando que ele vai ser igual o vinho, que não vai. Ele não tem o álcool, tanto que ele não se chama vinho. Então, quando a gente colocar na boca esse vinho, ele vai ser superagradável, vai ter o tanino, a cor, a acidez, vai ter tudo, mas não vai ter o álcool, que é fundamental — pontuou.
A diretora executiva da vinícola, Daiane Argenta, comentou que o investimento no produto é alto, principalmente pela questão tributária que ainda não definiu a categoria dos "vinhos" desalcoolizados.
— Por ser uma coisa muito nova, ainda não tem uma categoria específica, como a cerveja desalcoolizada. Porém, mesmo assim, a gente fez um levantamento que comprovou que era um produto que valia a pena investir, porque acreditamos que vamos conseguir vender para um público que até então a gente não vendia. É um acréscimo do portfólio — explicou.
Além disso, Daiane destacou que há um desejo da vinícola em desmistificar o mundo do vinho.
— É uma forma também de desmistificar o mundo do vinho. Falamos muito da frase, "o vinho além do álcool". Então, é oportunizar a pessoa a ter acesso mesmo não podendo por algum motivo ou outro. O mundo do vinho é mais do que somente o álcool, ele carrega identidade, autenticidade, terroir, cultura, convivência — disse.
Estudos em andamento

No caso da Cooperativa Nova Aliança, a primeira aposta foi uma bebida de uva gaseificada, o Santa Colina 0% Álcool, lançado em 2024, e que demorou um ano e meio para ser produzido. O investimento deu certo, tanto que, em apenas 10 meses, triplicou as vendas, sendo até importado para o mercado asiático.
Em 2026, há uma ideia de lançar os primeiros produtos desalcoolizados, no entanto, ainda há muito estudo em andamento. O diretor técnico e enólogo chefe da vinícola, André Gasperin, explicou que estão analisando alguns métodos, mas uma das intenções é criar um vinho que seja específico para passar pelo procedimento da retirada do álcool.
— Temos um departamento de pesquisa e desenvolvimento que está avaliando dois métodos em específico, o da destilação a baixa temperatura, que é o que a maioria tem utilizado, e o da troca por membranas. Também outro fator importante que a gente está trabalhando é o de: "não é qualquer vinho que a gente pode desalcoolizar". Então agora, já nesta safra, está se elaborando um perfil de vinho específico para esse fim. Ele tem que ter, primeiro, um teor alcoólico mais ameno, com 8,5%, 9% de álcool, dentro de um perfil de vinhos mais frescos, mais leves, como os brancos — explicou Gasperin.

O enólogo também salientou como busca deixar o produto o mais semelhante a um vinho, mas sabe que é um caminho longo até o resultado "perfeito".
— A gente quer, sim, que a pessoa que vá degustar um vinho nesse perfil, um zero álcool, um desalcoolizado, que seja o público que está habituado a tomar um vinho tradicional com álcool e que não identifique tanta disparidade entre um e outro. Assim como aconteceu há muito tempo com a questão da cerveja zero álcool. Antigamente você tomava uma zero álcool e uma convencional e era muito diferente. Hoje elas estão meio que se equiparando em relação ao perfil gustativo. Então acho que é uma tendência do vinho ir para esse caminho também — refletiu.





