
Um dos principais polos industriais do país, Caxias do Sul também está inserida em projetos para dar mais competitividade ao segmento. Dois deles estão dentro de um programa da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), ligada à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que buscam gerar impactos especialmente na cadeia automotiva.
Já na segunda etapa, e tendo a Frasle Mobility como a única representante gaúcha, o programa Ferramentas Manufaturadas Aditivamente (Fera II) busca explorar e implantar a manufatura aditiva. O processo, resumidamente, cria objetos a partir de um modelo virtual que permite a adição de materiais em camadas. O aporte da Fundep para o projeto é de R$ 49,4 milhões.
No escopo do projeto, que se iniciou em 2024 e terá duração de três anos, a gerente de projetos da Fundep, Ana Eliza Braga, explica que uma das metas é obter uma matéria-prima nacional que está relacionada ao aço e é utilizada nesse processo. Para ser realizada, a iniciativa foi aprovada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
— Exportamos minério de ferro para a China, mas compramos da China esse aço com valor agregado. Então, o interesse do projeto é evitar que tenhamos essa perda financeira quando compramos um produto com valor agregado de uma matéria-prima que foi exportada por nós mesmos. Idealmente, poderíamos fazer esse trabalho de valor agregado nacionalmente. Então, o Fera é desenvolver esse piloto de produzir essa matéria-prima que está relacionada a manufaturas aditivas para ter esse ganho de competitividade nacional — detalhou a gerente de projetos.
O projeto, que está dentro do Programa Mover da fundação, é coordenado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em parceria com 29 empresas e outras quatro Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs). As indústrias entram como coautoras e podem auxiliar no compartilhamento de dados, fornecimento de materiais, serviços, equipamentos ou até testes.
Entre elas estão montadoras, sistemistas, ferramentarias, empresas de desenvolvimento de matérias-primas e empresas de software.
— Quando falamos de 29 empresas participando é uma evidência importante, porque são quase 30 empresas com estratégias diferentes que decidiram participar de um projeto de pesquisa. Assim, elas enxergam que o projeto tem valor ou pode gerar algum valor no futuro para elas — destacou Ana Eliza.

Oportunidade por meio da pesquisa
Na Frasle Mobility, com sede em Caxias, o diretor de Engenharia e Vendas OEM da empresa, Luciano Matozo, e o coordenador de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, Carlos Henrique Selle Pereira, contam que reuniões mensais são realizadas para o acompanhamento da pesquisa e, eventualmente, há encontros presenciais.
— As empresas aportam as oportunidades para que essas tecnologias sejam testadas, os estudos de caso, onde essas tecnologias possam ser aplicadas, e depois os profissionais das indústrias passam a ser um corpo que discute os resultados e a aplicação deles — descreveu Pereira.
Além do objetivo do projeto de aprimorar a indústria nacional, os representantes da Frasle Mobility notam que a participação em iniciativas como essa também tem um outro impacto. Há a qualificação do próprio corpo técnico da empresa. Matozo nota que há um crescimento em funcionários com mestrado ou doutorado, também graças a esse contato contínuo com a academia.

— Nós temos a possibilidade de absorver conhecimento de vanguarda. Trazendo para a nossa realidade, conseguimos explorar isso com os nossos fornecedores ou desenvolver programas específicos para desenvolver tecnologias voltadas aos nossos produtos ou às nossas tecnologias de fabricação — avaliou Matozo.
Participar do projeto, como destaca a dupla, também é uma oportunidade para a empresa entender como essa tecnologia deve ser aplicada.
— Vemos que nos outros países, principalmente na Europa, isso já está há bastante tempo sedimentado e sendo utilizado. O projeto Fera vem com esse sentido de fechar esse gap (lacuna), e permitir que a indústria brasileira também consiga utilizar. E nós estamos inseridos nesse sentido — analisou Pereira.
Conectando empresas e soluções
Na Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas do Programa Mover, a iniciativa Conecta Mais fornece uma plataforma para ligar empresas de pequeno e médio porte do segmento a soluções. O objetivo é capacitar ainda mais essa rede que aparece como fornecedora das montadoras na cadeia automotiva.

Conforme a direção da Fundep, Caxias do Sul é, inclusive, um dos destaques do projeto, com a maior concentração de empresas participantes. São 527 participantes em todo país, conforme Ana Eliza, e cerca de 200 são caxienses ou da Serra.
— A nossa equipe faz uma avaliação dentro dos critérios, dos requisitos do edital, para conferir se a empresa tem condições de participar da iniciativa. São jornadas tecnológicas, como se fossem miniprojetos com prazos mais curtos, que buscam oferecer oportunidade de impacto imediato para as empresas. Então, enquanto um projeto de pesquisa pode demorar três anos, essa jornada pode levar seis meses. Às vezes, é alguma correção ali no chão de fábrica ou alguma redução de um tempo ou algum controle — explicou Ana Eliza, da Fundep.
Uma delas é a Inova Indústria de Matrizes, no bairro Jardim Eldorado. Com 25 anos no mercado e atendendo grandes montadoras do cenário nacional, a empresa tem foco no desenvolvimento e fabricação de moldes para injeção de plástico.
O diretor de operações Gianluca Scopel, 26, avalia que a participação no projeto é bastante positiva, tanto que a empresa já participou de mais de 10 jornadas propostas pelo Conecta Mais. Entre as otimizações, como conta Scopel, estão a implantação de softwares de gestão e produção, além da digitalização da produção:

— Trouxemos software de CAD, software de CAN e MES para a fábrica, então digitalizamos todo o nosso parque fabril. Não dependemos de apontamento de operador. As máquinas estão literalmente sensorizadas, sabemos quando elas estão trabalhando, quando não estão em tempo real, os motivos de parada ou o sequenciamento de produção.
O diretor avalia também que as jornadas, que contam com consultoria, trouxeram apontamentos em processos de gestão e produção. Um dos impactos, por exemplo, foi uma redução de 70% no custo anual com ferramental de usinagem.
— Maturamos muito a gestão da empresa através de trazer essas consultorias. As pessoas trouxeram conhecimento novo, como em questão de gestão administrativa, basicamente reestruturamos todo o nosso financeiro e controladoria, todo o nosso recurso humano e estamos reestruturando toda a nossa maneira de gestão de produção, desde comercial até entrega técnica do molde — relatou o diretor.
Empresas interessadas podem buscar os editais no site da plataforma da Fundep e inscrever-se.





