
— Vai dar um vinho muito bom neste ano — diz o viticultor Tiago Biondo, 38 anos, de São Gotardo de Vila Seca, em Caxias do Sul.
Na quarta-feira (28), a família começava a colheita das uvas bordôs. A percepção do produtor vem ao encontro da projeção positiva feita por entidades como a Emater RS e o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS).
A nova expectativa das entidades é de que a produção gaúcha passe dos 900 milhões de quilos. O número oficial da última safra fechou em 820 milhões de quilos, segundo o Consevitis. Com isso, o aumento em relação à safra de 2025 será de 9,76%, caso a atual projeção se confirme. A Serra representa, em área, cerca de 85% da produção.
Um dos motivos para a maior quantidade é o clima. Inverno e primavera amenos, ao lado da manutenção do frio e das chuvas regulares, deram bons indícios.
— É evidente que temos que esperar para falar em qualidade em termos de safra porque em três, quatro, cinco dias de sol ou de chuva, já muda totalmente aquela uva que está sendo colhida. Mas até o momento, a qualidade é boa. Vimos uvas com graduação de açúcar muito boa e sem podridão. Uvas colhidas aqui e uvas que estão vindo para cá da fronteira — descreveu o extensionista rural da Emater Thompsson Didoné.

Biondo relata que a expectativa é de aumento na safra deste ano. A produção da família é comercializada para uma vinícola de Flores da Cunha.
— Quanto menos chover agora, melhor para nós. Vai dar uma qualidade muito melhor — destacou o produtor.
Os números da safra 2026
- Projeção de mais de 900 milhões de quilos de uva.
- Segundo Emater, o RS tem cerca de 42 mil hectares de parreiras com destino industrial e cerca de 3,3 mil hectares são destinados ao consumo in natura ou mesa.
- Mais de 38 mil hectares da produção de uva estão na Serra.
- Conforme Consevitis, a projeção da produção da uva industrial deve ficar em 850 milhões de quilos enquanto a uva in natura ou de vinho artesanal deve ser de cerca de 50 milhões de quilos.

Início positivo de colheita
O presidente do Consevitis, Luciano Rebellatto, explica que o início da colheita fez com que a projeção tivesse um acréscimo. No momento, 15% da safra foi colhida. O trabalho se inicia com as variedades precoces, como chardonnay, pinot noir, magna, violeta, concord e bordô.
— O sol tem que predominar agora durante fevereiro para que a colheita aconteça de forma natural. A chuva nos prejudica bastante, tanto na questão de podridões, nas questões de doenças, quanto na questão de qualidade — observa Rebellatto.
O aumento da produção traz outra consequência, como explica o presidente do instituto. Com a maior oferta, cai o preço mínimo da comercialização do produtor. No ano passado, foi de R$ 1,69. Neste ano, está em R$ 1,80. O agricultor, assim, deve receber um pouco menos.
— Quando a gente tem um mercado oferecendo mais uva, automaticamente o preço tende a encolher. E a gente ainda não tem definições de preço de mercado. Temos o preço mínimo. No ano passado tínhamos R$ 1,69 para preço mínimo e os preços praticados foram em torno de R$ 2, em função de uma falta de uva para a elaboração de produtos. Neste ano a situação se inverteu: temos bastante oferta de uva e um mercado que não está tão aquecido, então temos a possibilidade de estar recebendo por quilo, o agricultor recebendo um pouco menos. Mas são ajustes de mercado — detalha Rebellatto.
Uva para espumante está "diferenciada"
Didoné diz que a uva chardonnay vem demonstrando destaque, com um bom teor de açúcar. A variedade é utilizada para a produção de vinhos e espumantes. A percepção é a mesma do presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Daniel Panizzi.
— Neste momento, principalmente uvas que serão destinadas à produção de espumantes estão sendo colhidas com uma sanidade fantástica, um ponto de maturação perfeito para elaboração dos espumantes e numa quantidade bem significativa. Nós temos que torcer para que o clima colabore, para que essa qualidade que estamos observando nas uvas destinadas para os espumantes também se mantenham para as uvas que serão destinadas para a produção de vinhos e suco de uva — observou Panizzi.

Na Cooperativa Vinícola Garibaldi, a percepção é a mesma. O enólogo-chefe, Ricardo Morari, descreve que a uva usada para a produção do espumante está "bem diferenciada" nesta safra.
— Tivemos um período bem longo agora na maturação com noites frias e dias também não com temperaturas tão altas. Temperaturas mais amenas, isso favorece uma maturação mais lenta, consequentemente tem uma preservação dos ácidos, uma menor degradação dos ácidos. Para o espumante isso é muito importante, favorece o frescor, favorece uma acidez mais vibrante — contou Morari.
A projeção da Garibaldi é ter a produção total entre 31 milhões de quilos de uva e 32 milhões de quilos, superando o ano passado, em que o volume foi de cerca de 28 milhões de quilos. Um acréscimo de 14%. Até o momento, 2,5 milhões de quilos foram processados.
Essa, inclusive, é uma das características desta safra. A colheita se iniciou depois do período regular. Didoné, da Emater, relata que há um atraso de 10 a 15 dias, causado também pelo clima. Para Rebellatto, existe a expectativa que isso gere a maior parte do processamento da uva para o setor em fevereiro.
Para comparação, na cooperativa garibaldense, no mesmo período do ano passado, nove milhões de quilos de uva tinham sido processados. A projeção é que isso não gere impactos para a Garibaldi. Se o clima persistir no padrão atual, a expectativa é que a janela da safra se estenda, como conta Morari:
— É importante dar mais fôlego para o processamento. A uva é uma fruta que não pode ser armazenada em câmara fria por muito tempo, exceto para alguns vinhos específicos. Então, ela tem que ser colhida e em seguida processada. Tendo uma janela de safra maior, facilita para todos.
