
Pelo menos 84 profissionais, entre instrutores e pessoas ligadas ao atendimento ao cliente, foram demitidas dos Centro de Formação de Condutores (CFCs) de Caxias do Sul em virtude das alterações da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Os dados foram repassados pelo Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do RS (SindiCFC). De acordo com a entidade, os desligamentos dos profissionais na cidade começaram ainda em 15 de dezembro de 2025. Ao todo, o município conta com 1.753 trabalhadores no segmento.
Entre as principais alterações está o fim da obrigatoriedade das autoescolas, a redução das aulas práticas de 20 para duas horas-aula, o curso teórico gratuito e digital, que pode ser acessado via plataforma do governo federal, além da flexibilização do aprendizado prático (confira mais abaixo).
— Com a alteração da legislação, está sendo excluído do mercado a figura de três profissionais importantes, o diretor geral, o diretor de ensino e o instrutor teórico. Com a perda desses profissionais, perdemos a qualidade na formação do condutor — avalia Vilnei Sessim, presidente do sindicato.
São 11 CFCs em Caxias, e o presidente do SindiCFC afirma que até o momento nenhum foi fechado, e diz que não há qualquer perspectiva para isso. Mesmo assim, a entidade vê com preocupação as alterações para obter a CNH:
— As autoescolas são anteriores ao Código de Trânsito (Brasileiro). As pessoas precisam aprender a conduzir, e quando elas querem aprender com segurança, vão buscar uma autoescola.
O CFC Santo Antônio, um dos mais antigos de Caxias do Sul, precisou se adaptar à situação. Conforme o diretor-geral Gustavo Felipe Bertoti, cinco demissões ocorreram em virtude das alterações da CNH. Atualmente, são 35 colaboradores. Mas ele avalia que os impactos vão para além dos financeiros, e aguarda orientações do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS):
— Existe o impacto dos desempregos, temos uma estimativa de 2 mil desligamentos no Estado no segmento de CFC, mas o que também preocupa é a segurança no trânsito. Estamos procurando trabalhar a conscientização com cada aluno que vem, que ele entenda que o trânsito vai muito além de só dirigir, tem toda a questão do censo da coletividade — diz Bertoti.

Por outro lado, considera que o movimento aumentou em janeiro no CFC na comparação com novembro e dezembro — período que antecedeu o início das mudanças —, principalmente com quem está indo para marcar exames e as provas, que ainda devem ser feitos presencialmente.
Na visão de Bertoti, é preciso uma adaptação para entender o momento. O foco é no lado pedagógico e na conscientização dos candidatos à CNH sobre a segurança para fazer as provas, principalmente a prática:
— Enfatizamos a importância desse aluno conhecer todo o processo, conhecer o simulador de direção, que é uma ferramenta pedagógica muito boa e que traz vivências ao aluno.
Os alertas
O diretor de ensino Douglas Rafael de Oliveira avalia que o movimento reduziu em janeiro no CFC Ana e GL em comparação com outros anos. Ele afirma que, em outras épocas, as pessoas esperavam pela época de férias e com os valores do 13º salário para dar início ao processo. Em um período de uma semana, entre 5 e 12 de janeiro, oito candidatos foram até lá para começar a fazer a CNH.
Oliveira considera as mudanças do Governo Federal não levam em consideração a segurança do trânsito. E, na visão dele, são necessárias, por exemplo, mais do que duas horas de aulas práticas para que uma pessoa possa dirigir.

— Se tu pegas uma pessoa que nunca dirigiu, quando entra no carro, a primeira coisa que vai fazer é ensinar os pedais, os comandos do veículo, isso te leva uma aula; a segunda tu vais desenvolver a primeira (marcha). Em um primeiro momento vai impactar na questão empresarial, o lucro, mas um pouco mais para frente as pessoas vão perceber que vão reprovar, pagar mais taxas, contratar mais aulas — avalia Oliveira.
Para tirar do papel
Mas as mudanças nas regras para obter a CNH são uma oportunidade para quem tinha esse sonho guardado, como é o caso da publicitária Valessa Rosa, 39 anos. Natural de Porto Alegre, passou boa parte da infância em Caxias do Sul antes de retornar à Capital. No entanto, o trabalho lhe trouxe de volta a cidade da Serra no ano passado e, com isso, a necessidade de estar habilitada para dirigir.
Valessa iniciou o processo pelo aplicativo do Governo Federal agora em janeiro. Ela considera como positiva a possibilidade de aprender sem ter que estar em uma sala:

— Ele tem uma comunicação muito clara, facilita a compreensão para qualquer pessoa, tanto para um jovem, ou alguém com mais idade e que talvez não tenha facilidade com tecnologia, mas no aplicativo está tranquilo, acho que ficou bem fluido e fácil.
Mesmo assim, a publicitária já se decidiu: as aulas práticas serão feitas em um CFC. Ela espera concluir todo o processo até março.
— Nesse primeiro momento, como é minha primeira tentativa, vou fazer essas duas horas pelo CFC, acho que vou me sentir mais segura.
As novas regras
As mudanças transformam quase integralmente o processo de formação de condutores e o funcionamento dos CFCs. Na prática, o modelo em vigor desde 5 de janeiro prevê:
- Fim da obrigatoriedade das aulas em autoescolas: o candidato não é mais obrigado a realizar todo o processo formativo dentro de um CFC
- Redução das aulas práticas obrigatórias: a carga mínima cai de 20 para 2 horas-aula
- Curso teórico gratuito e digital: o conteúdo passa a ser disponibilizado gratuitamente em plataforma federal e aplicativo oficial
- Extinção da carga horária mínima do curso teórico: deixa de existir a exigência formal de horas-aula presenciais ou controladas
- Flexibilização do aprendizado prático: o candidato poderá utilizar veículo particular e contratar instrutor autônomo credenciado, desde que haja regulamentação
- Manutenção das etapas presenciais essenciais: prova prática, exame médico, avaliação psicológica e coleta biométrica seguem obrigatórios e presenciais
- Reprovação sem custo adicional na primeira tentativa: quem não passar no primeiro exame prático poderá refazer a prova gratuitamente
- Fim do prazo máximo do processo de habilitação: hoje limitado a um ano, o processo deixa de ter validade temporal
- Prova prática passa a permitir até 10 pontos: o sistema de avaliação deixa de reprovar candidatos com mais de três pontos negativos e passa a permitir até 10 pontos


