
A proximidade das festas de fim de ano já movimenta o mercado de espumantes na Serra. Segundo Daniel Panizzi, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), o último trimestre concentra cerca de 40% das vendas anuais da bebida. E 2025 segue registrando resultados acima do ano passado, tanto no mercado interno quanto na diversificação de consumo.
Conforme Panizzi, os espumantes brut, extra-brut, nature e demi-sec tiveram crescimento de 13% de janeiro a outubro, comparado ao mesmo período do ano anterior. O moscatel, mais doce, cresceu 3,4%, mas mantém “números muito expressivos”, especialmente porque entre 2023 e 2024 havia registrado salto de 40%.
— Somando secos e doces, já temos mais de 8% de crescimento neste ano — aponta o dirigente, que também é vice-presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e diretor da vinícola Don Giovanni.
De acordo com Panizzi, as quatro categorias principais de espumantes secos representam hoje 60% do volume comercializado, enquanto os moscatéis ficam com 40%. A mudança no perfil de consumo também impulsiona esse avanço.
— O espumante deixou de ser uma bebida só de final de ano. Hoje o consumidor entendeu que ele se encaixa em happy hour, final de tarde, churrasco de domingo. Isso ampliou muito o mercado — afirma.
O dirigente também destaca o otimismo com a próxima safra. Após anos consecutivos de uvas de alta qualidade, 2026 deve manter o padrão, e, se o clima colaborar na reta final antes da colheita, também em quantidade.
O consumo interno, segundo ele, segue sendo o motor do setor.
— A exportação se mantém, mas ainda é pouco representativa. O mercado interno é, de fato, o grande destino do espumante brasileiro — resume o presidente da Uvibra.
Foco em espumantes de longa maturação
Com 40 anos de experiência na enologia e passagem por grandes vinícolas da região, Gilberto Pedrucci comanda desde 2001 a Casa Pedrucci, instalada em um pavilhão histórico de 1890, no interior de Garibaldi. A vinícola familiar é dedicada quase exclusivamente aos espumantes.

— Temos uma linha extensa, com produtos de 12, 24 e até 36 meses de maturação — conta.
A empresa possui cinco colaboradores e mantém foco em nichos premium: lojas especializadas, restaurantes e hotéis de luxo — entre eles o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e o Palácio Tangará, em São Paulo.
— As vendas da vinícola cresceram 10% neste fim de ano, acompanhando o aumento de procura no mercado. Assim como no setor, o último trimestre concentra metade da comercialização anual — diz.
Além do bom desempenho comercial, 2025 foi um ano de destaque nas premiações. A Casa Pedrucci foi eleita pelo Guia Descorchados com o melhor espumante brut do Brasil para 2025. Outro destaque é o espumante Millésime 2021, com 48 meses de maturação, elaborado somente em safras excepcionais.
— São quatro anos de cuidado. Esse acompanhamento faz toda a diferença — comenta o enólogo.
Na etapa final do ano, a vinícola está dedicada ao giro das garrafas, ao processo de dégorgement e à rotulagem.
— Nosso método clássico não prevê envase agora. O que está sendo trabalhado foi envasado há um ano e meio ou dois. Agora fazemos a remoagem, congelamos o bico, colocamos o licor e arrolhamos. É um período bem intenso — explica Pedrucci.

O carro-chefe é o blanc de blancs brut, com ao menos 12 meses de maturação. A vinícola também investe em nature e extra-brut.
A maior fatia das vendas está no Rio Grande do Sul, mas há expansão consistente para Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Pernambuco. Após uma exportação para a Holanda em 2022, a empresa planeja retomar vendas externas e negocia entrada no Uruguai, especialmente em Punta del Este.
Quanto ao consumidor, Pedrucci destaca que o contato próximo é essencial.
— Visitas, degustações, jantares harmonizados e feiras fortalecem o relacionamento e ajudam a mostrar o nosso diferencial.
Empresa vê forte demanda do setor corporativo
Com raízes que remontam a 1929, a Vinícola Cainelli, em Bento Gonçalves, retomou as operações em 2012 após um processo de reconversão de vinhedos iniciado em 2004. Atualmente, a empresa familiar — que conta com 12 colaboradores — registra forte movimentação neste fim de ano.
— O segmento corporativo cresceu muito. As empresas estão presenteando colaboradores e clientes. Esse ano foi o melhor nesse sentido — explica o diretor Roberto Cainelli.

Em novembro, a vinícola já identificava aumento nas vendas de espumantes em relação ao ano passado, e a expectativa é de mais um pico em dezembro. A Cainelli projeta crescimento geral entre 30% e 40% em 2025, e, dentro desse total, o espumante deve fechar o ano com alta de cerca de 10%.
Cainelli reforça que o comportamento do consumidor mudou:
— Por muito tempo, o moscatel foi o mais vendido. Mas o paladar evoluiu. Entramos o ano com o brut e o rosé na frente. No segundo semestre, o glera (Prosecco) despontou muito, porque harmoniza com quase tudo. E o espumante zero álcool está crescendo bastante. É uma tendência forte.
A produção anual da vinícola chega a cerca de 60 mil garrafas, entre vinhos e espumantes. Só de espumantes, são aproximadamente 7 mil garrafas por rótulo.
A Cainelli atende todo o Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro e crescente demanda no Nordeste. Embora ainda não exporte por limitações de capacidade, a empresa já iniciou contatos com Estados Unidos e Paraguai.
— É algo ainda jovem, mas é um vislumbre importante — afirma.
Varejo especializado registra alta acima do esperado
No varejo, a Boccati, referência em Caxias do Sul, também registra movimento intenso neste fim de ano. De janeiro a novembro de 2025, foram 27,7 mil garrafas de espumante vendidas, crescimento de 11% em relação ao ano anterior.
— Não esperávamos tanto. Mas fizemos muitas campanhas e ações ao longo do ano. Os resultados estão aí. E o último mês do ano representa o ápice para a loja. A expectativa é que dezembro venda mais do que três meses juntos — afirma o fundador e diretor, Julio D’Agostini.

A preferência dos consumidores acompanha a tendência nacional: o espumante brut lidera, seguido pelo nature.
— Quando a pessoa passa a tomar brut, já mostra evolução do paladar, pois o moscatel é mais uma bebida de entrada. E vemos isso claramente aqui — afirma.
D’Agostini revela que há também demanda crescente por bebidas com menos álcool ou não alcoólicas. Ele afirma também que as estratégias aplicadas pela loja contribuem para que a bebida seja consumida o ano inteiro, não apenas nas festas de final de ano.
A coordenadora de marketing da empresa, Letícia Santos, destaca o papel das redes sociais, com conteúdo de harmonização e promoção de eventos.
— Nossos circuitos enogastronômicos fomentam a celebração e democratizam o vinho e a espumante. A pessoa que só bebia moscatel tem outras opções, prova, percebe que o paladar evoluiu e passa a comprar mais — sintetiza.
D’Agostini destaca que no fim do ano o carro-chefe da loja, que conta atualmente com 66 funcionários, são os brindes corporativos.
— Especialmente os brindes com personalização na hora, um dos nossos diferenciais.



