
Quatorze empresários, alguns mais artistas do que outros, atravessaram neste ano um período de imersão, fruto de um projeto que completa agora cinco anos, realizado pelo Sebrae, chamado Feito na Serra Gaúcha. Como se fossem inseridos dentro de um universo paralelo, esses empresários vivenciaram experiências que vão além da criação de um produto e de colocá-lo à venda nas vitrines e redes sociais.
Parte dessa jornada foi interior, porque provocou um mergulho n’alma, à procura das mais profundas raízes que pudessem revelar a identidade dessas marcas, muitas delas criadas há 30 anos. Ou mais. Outras, mesmo as mais recentes, estavam se sentindo à deriva, pois seus timoneiros continuavam a conduzir suas embarcações pelos mesmos trajetos, usando os mesmos mapas desde sempre.
Mais do que um curso padronizado, que vende fórmulas prontas, o Feito na Serra Gaúcha chega ao quinto ano colhendo mais uma boa safra, introduzindo revoluções dentro dessas empresas. Muitas delas, aparentemente sutis, mas que abrem novas portas, sinalizando novos mundos. Sem perder de vista, é claro, a meta de toda empresa: vender mais para lucrar e prosperar.
— O nosso desafio é fazer com que esses criadores tenham uma precificação de valor maior. Como realmente merecem. Também ajudamos a decodificar os canais de venda, criando outras formas de vender, que não é só para o lojista, nem só para o consumidor final. São várias as formas. Lembrando, é claro, de contar a história do produto — explica Fabiana Zin, gestora de projetos do Sebrae e responsável pelo Feito na Serra Gaúcha.
A “história do produto”, diz Fabiana, é a moeda do futuro.
— A precificação do artesanato, por exemplo, passa pelo que é intangível, como a mão de obra e o conhecimento para produzir uma peça dessas. Porque a precificação envolve custos fixos e custos variáveis, como esse intangível do artesanato, que é difícil de mensurar. Por isso eu falo que o valor está em contar uma história, porque é isso que aumenta a precificação do produto — enfatiza.
Esse acompanhamento proporcionado pelo Feito na Serra Gaúcha resulta ainda em um selo que é conferido a cada produto, a cada coleção desenvolvida pelas marcas participantes. É trabalho de um ano todo, acompanhado por Fabiana, gestora do projeto, e também pelas mentoras, Bernardete Venzon (estudiosa em moda, cultura e identidade) e Tatiane Alves (pesquisadora de comportamento e consumo). Fabiana diz que “é um atendimento personalizado, conforme a realidade, a necessidade e o momento de cada marca”.

"O futuro é colaborativo"
Em meio à compreensão do momento atual de cada empresa, suas realidades, desafios e ambições, um dos pilares do projeto é vasculhar as gavetas da memória em busca da identidade que torna cada marca única, especial, com as raízes cravadas na região, mas também fortes o suficiente para ultrapassar fronteiras.
— Nós temos uma cultura riquíssima e um legado muito importante. E precisamos entender que, além de criar produtos, o mais importante são as histórias, a alma, a paixão, a entrega e a forma como são feitos os produtos. Por isso, nós, como consumidores, queremos saber quais são os processos, o que contêm, qual a história e como é traduzida essa paisagem, esse lugar. Isso tudo para que as pessoas queiram levar para casa um recorte desse lugar. Seja por meio de uma peça de madeira, couro, dresssa ou cerâmica, criadas sempre com novas expressões — avalia Bernardete Venzon.
No final do processo, as marcas recebem um selo que atesta, sim, qualidade e capacidade criativa para se diferenciar no mercado. E, não só isso. Os empresários, artesãos e designers aprendem a precificar melhores seus produtos a partir da avaliação do mercado onde estão inseridos ou desejam conquistar. Essa visão é despertada pelo olhar interior, em busca das raízes que revelam identidade e pertencimento.
— A cada ano, percebemos uma evolução muito grande na vontade de criar. E criatividade a gente tem muita — enfatiza Bernardete, que acrescenta:
— Buscamos exaltar quem somos, no sentido de estendermos isso para além das fronteiras do Estado. Sempre falo que, no momento em que respeitamos um legado, vivemos o presente, mas também desenvolvemos o futuro. Porque precisamos sempre pensar o futuro. E o futuro é colaborativo, é de soma, é de união.

Entrelaçando passado e presente com afeto
No dia 11 deste mês, as 14 marcas que participaram da 5ª edição do programa de desenvolvimento Feito na Serra Gaúcha, expuseram as respectivas coleções. Entre elas, a Casa de Tecelagem, de Bento Gonçalves, que participa pela primeira vez do projeto.
À mesa (foto acima), as proprietárias apresentaram a coleção Café da Nona, sintetizada pelo singelo e doce convite: “Bem-vindos ao café da nona, onde as lembranças afetivas ecoam na memória e aquecem o coração”.
— Apesar de termos uma história linda e maravilhosa na nossa família, na própria casa onde temos o ateliê, que é histórica, a gente seguia automático. A gente ia mais atrás da demanda do cliente do que pensar e criar algo que tivesse mais a ver com as nossas raízes. E estávamos meio perdidas no nosso propósito e agora voltamos a ter esse olhar para a nossa identidade — avalia Vanessa Cavalet, 43 anos, designer da Casa de Tecelagem, que tem como sócio fundadora da empresa Justina Inês Foresti, e a diretora comercial, Vivian Cavalet.
Depois dessa primeira experiência, as três já confirmaram presença no Feito na Serra Gaúcha de 2026.
— A tecelagem tem 30 anos, mas esse olhar de identidade, de parar e pensar no nosso propósito, só veio por causa do projeto — diz Vivian, 42.
— Agora começamos a pensar fora da caixa, porque a criatividade estava estagnada. Estávamos presas à rotina — complementa Justina, 63.

Selo que abre portas e aumenta o faturamento
Das 14 marcas que apresentaram suas coleções após um ano de mentoria por meio do Feito na Serra Gaúcha, a única que está desde o início é a Moni, empresa de Flores da Cunha.
Anualmente, a marca se reinventa, afirma sua identidade e amplia o mercado consumidor. E, naturalmente, o faturamento. Mônica Zampieri, 40, diretora da Moni, não revela, mas, segundo prospectam as mentoras, seu faturamento triplicou nesse período, visto que não vende apenas o mercado gaúcho, como era a realidade de cinco anos atrás. Atualmente a Moni atende, pelo menos, consumidores de oito Estados brasileiros.
— Viemos de uma pós-pandemia e foi um marco para a Moni, porque só fazíamos casacos de lã. Não tínhamos o conceito de alfaiataria. E vendíamos apenas para o consumidor final, em feiras. Quando entramos no primeiro projeto, queríamos buscar novos mercados e nos reposicionarmos. Desde então, buscamos nos reconhecer como marca para saber quais eram nossos pilares — explica Mônica.
Mesmo depois de cinco anos, a empresária diz que vai seguir dentro do projeto em 2026. E por quê?
— Eu acredito muito no selo. Só entendemos isso quando saímos do Rio Grande do Sul. Porque quando nos pedem de onde somos e respondemos que somos da Serra gaúcha todos nos olham de uma forma diferente. Então, ver isso no olhar das outras pessoas e ver o quanto a Serra carrega uma força tão grande pelo país nos estimula a seguirmos no projeto.

Cinco anos de projeto
Veja o alcance do projeto Feito na Serra Gaúcha, realizado pelo Sebrae, nestes cinco anos de existência da proposta que visa fomentar o desenvolvimento regional com foco em reconhecer e criar a identidade das marcas, contribuindo para a ampliação do mercado consumidor:
- 50 empresas atendidas até hoje
- 10 setores criativos e áreas de atuação
- 10 cidades da Serra já atendidas: Caxias do Sul, Flores da Cunha, Farroupilha, Bento Gonçalves, Garibaldi, Guaporé, Gramado, Pinto Bandeira, Nova Petrópolis e São Francisco de Paula.
Em 2025
Participaram da 5ª edição do projeto 14 pequenos negócios de Caxias do Sul, Flores da Cunha, Bento Gonçalves, Nova Petrópolis, Gramado, Pinto Bandeira e São Francisco de Paula.
Todas as marcas abaixo expuseram coleções na última terça-feira (11), no Espaço Sebrae, em Caxias do Sul:
- Alla design - @alladesignoficial
- Aluminiée - @alumniee
- Ateliê Mãos de Palha - @maos.depalha
- Casa de Tecelagem - @casadatcelagem
- Confecções Naturin - @naturinconfeccoes
- Flo Arte em Cerâmica - @floarteemceramica
- Guggê - @guggebolsas
- Maria Flor - @mariaflor.leather
- Mês - @mesoficial
- Moni - @use.moni
- Roder Couro - @rodercouro
- Tábuas de São Chico - @tabuasdesaochico
- Trecos com Arte - @trecoscom
- V79 - @v79.se
Inscrições para 2026
- Interessados em participar do projeto Feito na Serra Gaúcha, em 2026, já podem se inscrever.
- O pré-requisito é ter o processo de criação voltado para vestuário, acessórios, calçados, artesanato, móveis ou home design.
- Mais informações no Instagram @feitonaserragaucha ou pelo WhatsApp (54) 99945-0577.


