
Em Caxias do Sul assim como em outras cidades, a fé também tem um papel econômico. No comércio local, o chamado “mercado da religião” — que reúne ervanárias, lojas de santos e artigos espirituais — representa um segmento que, apesar das transformações no consumo e do avanço do comércio eletrônico, mantém vitalidade e acompanha a diversidade cultural e espiritual do município.
De acordo com o Sindilojas Caxias, há nove ervanárias associadas à entidade. Já a Secretaria Municipal do Turismo e Desenvolvimento Econômico informa que o município conta com 16 lojas voltadas ao segmento religioso, com produtos que vão de imagens de santos, velas e terços a incensos, livros e itens ligados a diferentes tradições espirituais.
Segundo o presidente do Sindilojas Caxias, Rossano Boff, trata-se de um setor que enfrenta os mesmos desafios dos demais ramos do varejo, mas que se destaca pela amplitude e pela ligação direta com a espiritualidade e fé das pessoas.
— É um segmento que também sofre algumas dificuldades, pela diversidade de produtos e conceitos. Mas cada um tem a sua fé, o santo protetor, e isso mantém o interesse e a procura — observa Boff.
Ele destaca que as ervanárias, especialmente, têm ampliado o público consumidor por atenderem múltiplas crenças e práticas.
— Elas não discriminam nada. Estão abertas para todos os segmentos da fé, da religiosidade, do que cada um acredita para se sentir melhor, seja espiritualmente, seja em busca de equilíbrio e saúde — explica.
A força das tradições religiosas também se reflete nas datas comemorativas. Boff cita o Dia de Nossa Senhora de Caravaggio, celebrado em 26 de maio, como exemplo da mobilização que a fé provoca entre os caxienses.
— É uma data extremamente importante. Os devotos fazem a caminhada, pedem bênçãos, acendem velas. Isso movimenta o comércio e reforça o quanto a religiosidade está presente na vida das pessoas — comenta.
Além das tradições, o dirigente do Sindilojas observa que o perfil dos consumidores tem se diversificado — inclusive entre os mais jovens.
— A diversidade do público é muito grande, e até esse segmento vem inovando e se atualizando. Os jovens também estão dando mais atenção à religião, e isso se reflete nas lojas. É uma questão cultural, transmitida pelas famílias — diz Boff.
Assim como outros setores do varejo, o mercado religioso também enfrenta os impactos da digitalização. O comércio eletrônico ampliou as possibilidades de compra, mas trouxe novos desafios às lojas físicas.
— O e-commerce é muito forte hoje, e nesse segmento também representa bastante. As lojas físicas acabam tendo uma redução de rentabilidade por conta dessa competição. Nosso papel é mostrar que cada lojista pode avançar dentro das suas condições, buscando diferenciais e novas estratégias — afirma o presidente do Sindilojas.
Apesar do cenário econômico incerto, Boff acredita que ainda há espaço para quem quiser investir no setor — desde que com criatividade e cautela.
— O mercado está aberto para todos, mas muito competitivo. O país vive uma insegurança econômica que faz muitos segurarem investimentos. Mesmo assim, quem tiver uma ideia diferente, um ponto de venda atrativo, pode se destacar. Tudo isso pode ser determinante para o sucesso ou não de novos empreendimentos — conclui.
Ervanária mantém viva a fé e o empreendedorismo há 55 anos

A Ervanária Central carrega não apenas a história de uma família, mas parte da trajetória do comércio ligado à espiritualidade na cidade. Fundada em 1970 por Getúlio Antônio Tomasi, 83 anos, e Sebastiana Pereira Tomasi, 81, o empreendimento nasceu de uma ideia familiar e se consolidou como a primeira loja do gênero em Caxias do Sul. Daiane Pereira Tomasi, 44, filha do casal, é quem comanda o empreendimento atualmente.
Mesmo sendo um negócio consolidado, Daiane conta que o setor sempre enfrentou desafios — muitos deles relacionados ao preconceito e à falta de informação de parte das pessoas.
— As lojas do ramo eram muito malvistas. A gente ainda é, de certa forma. Isso faz parte da realidade. Sempre foi difícil. Mas, com o passar dos anos, as pessoas começaram a evoluir, a entender melhor o que a gente faz — afirma.
Com formação em Administração de Empresas pela UCS, Daiane ajudou a modernizar a gestão e a ampliar a base de fornecedores — hoje, são cerca de 450. Segundo ela, apesar da fase de retração do mercado, o faturamento mensal gira em torno de R$ 60 mil. A concorrência, segundo ela, aumentou nos últimos anos, assim como o comércio online. A empresária observa também que o público muda constantemente.
— O cliente é variado. Vem gente de mais idade, que reza pelos filhos e netos, e vem o jovem buscando espiritualidade, curiosidade ou uma resposta para algum problema pessoal — descreve.
Na Ervanária Central, os incensos e velas continuam sendo os produtos mais procurados.
— São itens muito simbólicos, porque o ser humano precisa materializar a fé. Mas, economicamente, são produtos de baixo retorno. Vendemos muito, mas o lucro é pequeno. Ainda assim, são essenciais, porque é o que movimenta o dia a dia — diz.

A sazonalidade, segundo ela, também mudou.
— Antes, a gente vendia muito em datas específicas, como o dia de São Jorge. Hoje, isso reduziu. As pessoas não compram mais porque é o dia do santo, mas porque alguém indicou, ou porque sentem que precisam de uma proteção. A fé se tornou mais individualizada.
Daiane se define como universalista, alguém que transita entre crenças, com forte ligação à umbanda. Para ela, a religião, mais do que um dogma, é uma forma de autoconhecimento.
— As pessoas querem se entender. A religião é uma filosofia, uma busca. Cada um procura uma justificativa, uma explicação para o que viveu ou está vivendo — reflete.
Franquia católica aposta em produtos personalizados

Instalada há dois anos na Rua Os Dezoito do Forte, a poucos metros da Catedral de Caxias do Sul e cercada por dois colégios católicos, a loja Espaço Católico Divino Amor tem se consolidado como uma das referências no segmento religioso da cidade. O empreendimento é comandado por Karla Caron, 34 anos, e faz parte da primeira franquia católica do Brasil, uma rede que nasceu no Mato Grosso, tem matriz em Balneário Camboriú (SC) e já soma 87 unidades no país.
A fundadora, Priscila Piatti, deu início ao sistema de franquias em 2019. No Rio Grande do Sul, além de Caxias, há lojas em Soledade, Santa Maria e Marau.
Karla é natural de Casca e formada em Serviço Social. O desejo de empreender, aliado à fé, acabou levando-a à franquia Divino Amor. A localização da loja, próxima a espaços de devoção e de formação católica, ajudou a consolidar o negócio.
— Quando encontramos esta sala, vimos que era perfeita. É um ponto movimentado e tem essa conexão espiritual, com a Catedral e as escolas próximas — explica, destacando que, desde a inauguração, o movimento tem crescido de forma gradual, impulsionado pelas indicações entre as pessoas e pelas redes sociais.

Ao contrário do que imaginava no início, o público principal do Divino Amor não é formado apenas por devotos de mais idade.
— A gente pensou que seriam pessoas acima dos 50 anos, mas o nosso maior público é de 20 a 50 anos, adultos jovens. Tem muito jovem buscando algo ligado à fé, mas também querendo presentear — explica.
A loja tem um catálogo diversificado — imagens, camisetas, livros, terços, adornos, artigos de mesa e carro —, mas um dos destaques é o trabalho de personalização de terços, com nomes e dedicatórias.
— É um diferencial nosso. É presente e, ao mesmo tempo, uma forma de evangelizar — comenta.
Os produtos seguem o padrão de identidade da franquia, e alguns são exclusivos da marca. O faturamento médio mensal é de R$ 60 mil, com oscilações ao longo do ano. As melhores datas, segundo ela, são Natal e Dia das Mães, seguidas por Páscoa e Dia dos Pais.
O público da Divino Amor, segundo Karla, é variado. Ativa no Movimento de Casais Jovens (MCJ), ela acredita que o futuro do setor religioso está justamente na capacidade de unir tradição e modernidade.
— Pessoas de várias religiões procuram a loja para presentear e a Divino Amor é aberta a todos os públicos, religiões, com respeito e amor — diz.
Casal se consolida com loja voltada à moda evangélica

A história da Majúli Modas é marcada por fé, resiliência e o espírito empreendedor do casal Licie Batecini Viganó, 32, e Marcos dos Santos, 39. A loja, especializada em moda casual e evangélica, nasceu da necessidade do casal de encontrar roupas adequadas às doutrinas de sua igreja, a Assembleia de Deus. O sonho começou em 2018.
O negócio começou de forma simples, com Licie vendendo roupas em uma pequena loja em casa. O sucesso do atendimento e a repercussão entre os fiéis ajudaram o empreendimento a crescer.
Em 2020, já com uma base sólida de clientes, o casal decidiu dar um passo maior e abrir o espaço físico da Majúli Modas, na área central de Caxias. O desafio veio logo na sequência:
— Em uma semana inauguramos a loja e, na outra, tivemos que fechar por causa da pandemia. Mas conseguimos nos manter porque já tínhamos um público fiel — lembra Marcos.
Mesmo com as dificuldades iniciais, a loja se fortaleceu. Hoje, o espaço conta com 200 metros quadrados, estoque próprio e um público fiel que ultrapassa mil clientes cadastrados. O casal relata que, mesmo com o aumento da concorrência, o negócio segue em expansão.
— O ano passado foi o melhor da loja. A gente se destaca pela qualidade, variedade e atendimento, além da credibilidade conquistada ao longo dos anos — afirma Marcos, destacando que o faturamento mensal da loja gira entre R$ 60 mil e R$ 80 mil.
O negócio também lançou recentemente o seu e-commerce.

O público da Majúli é diverso: vai desde adolescentes que participam ativamente das atividades da igreja até mulheres mais maduras que buscam peças discretas e elegantes. Os vestidos e saias estão entre os produtos mais vendidos, mas o casal também ampliou o catálogo com uma linha masculina, atendendo à demanda dos clientes.
— A gente procura agradar desde a mais jovem até a senhora. Temos vestidos, saias e blusas que seguem a moda, mas recatados. As festividades religiosas também impulsionam as vendas, já que cada congregação organiza eventos com cores temáticas. Isso movimenta bastante — explica Licie.
Além da loja física, o casal pensa em expandir a atuação com uma linha própria de confecção.
— Eu amo vender, gosto de atender as clientes, de ver elas se sentirem bem. Acho que Deus preparou tudo. Cada experiência da vida nos trouxe até aqui — sintetiza Licie, destacando que a loja é um espaço onde o público evangélico encontra identidade, conforto e acolhimento.

