
O agronegócio da Serra segue demonstrando resiliência e vitalidade mesmo em um cenário nacional de incertezas. Conforme o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, a região apresenta desempenho consistente em diferentes segmentos, impulsionada por boas condições climáticas, preços mais favoráveis e exportações sustentadas.
— Temos uma safra boa e resultados consistentes para o setor da uva e do vinho. Já nas proteínas (suínos e aves), as exportações seguem sustentando o crescimento. Esse é um segmento que deve continuar avançando de forma sólida — avaliou Da Luz, que nesta semana participou de reunião-almoço na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias).
A região da Serra é sede de várias empresas do ramo frigorífico, que se destacam na produção de aves para consumo interno e exportação. Além de aviários e produção de ovos.
Nas áreas de grãos, o economista avalia que, especialmente nas regiões mais altas da Serra, o desempenho também tem superado a média estadual.
— Não tivemos estiagens severas como em outras partes do Estado. Manter o tamanho da safra já é uma conquista, e os preços indicam um cenário mais favorável para o próximo ano — acrescenta.
O economista confirmou ainda que o setor vitivinícola, um dos símbolos da economia serrana, deve colher nova safra positiva em 2026.
O setor vitivinícola gaúcho trabalha, neste momento, com uma expectativa positiva para a safra de 2026, sustentada por um inverno frio e regular e uma brotação uniforme nos vinhedos. Segundo o presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), Luciano Rebellato, espera-se um aumento em torno de 50 milhões de quilos na colheita em relação ao ano anterior.
— Nós tivemos um bom período de frio, que resultou em uma boa brotação dos nossos vinhedos, uma brotação bem uniforme ali na saída da primavera, com muitos brotos, e como o inverno foi, digamos assim, frio e normal, uma boa fertilidade. Então, significa que temos muitos cachos nesses brotos. Maior número de brotos, maior número de cachos, automaticamente a gente prevê uma safra boa — destaca o dirigente.
A primavera também vem favorecendo o ciclo, segundo Rebellato.
— Nós tivemos uma regularidade. Esse frio (dos últimos dias) causa alguns danos, mas são muito pontuais, não chegam a afetar os números.
Com base nos levantamentos feitos por cooperativas, produtores e indústria, o setor estima uma safra entre 750 e 800 milhões de quilos de uva.
— A previsão ainda diz que teremos um período de tempo com menos chuvas, ou chuvas abaixo do normal, com o La Niña. E para a viticultura, menos chuva é interessante, porque também reduz o número de doenças, de pragas, principalmente as doenças fúngicas que se desenvolvem com umidade e calor. Período seco significa menos pragas, automaticamente um período maior de permanência da uva no pé e uma maturação mais plena — explica.
Essa combinação aumenta a possibilidade de uvas de melhor qualidade, impactando positivamente os vinhos e demais derivados.
Sobre o comportamento das diferentes variedades, Rebellato afirma que todas estão se desenvolvendo bem. No mercado, ele identifica uma mudança no perfil de consumo e, consequentemente, na estratégia da indústria.
— Percebemos um interesse maior por vinhos leves, como vinhos brancos e moscatéis. A indústria está mais focada em trabalhar esse tipo de produto que o consumidor está buscando com mais interesse — sintetiza.
Safra de grãos com boa perspectiva
A safra de verão na região de abrangência da Emater-RS Regional de Caxias do Sul ainda está na fase inicial de semeadura, mas a expectativa também é positiva. Segundo o engenheiro agrônomo João Villa, a projeção para este ciclo é de manutenção da área cultivada em relação ao ano passado, sem grandes alterações.
— Na safra de verão ainda estamos na fase de semeadura. A perspectiva é de manutenção de área em relação ao ano passado. Não tem muita alteração de área em relação à última safra. A última safra nós tivemos impacto negativo por conta da estiagem. Neste ano, espero que a safra ocorra dentro da normalidade. É cedo ainda para ter uma posição para saber se a safra vai ser boa — afirmou.

Villa explica que, no caso do feijão, a região deve manter cerca de 10,7 mil hectares, concentrados principalmente nos Campos de Cima da Serra, especialmente em Vacaria.
— Enquanto as outras regiões (do país) já semearam o feijão, aqui ele é semeado a partir de 15 de dezembro até a primeira semana de janeiro — diz.
Já o milho apresenta expectativa de área de 93 mil hectares, com projeção de rendimento de 7,5 mil quilos por hectare, além de lavouras bem estabelecidas dos grãos.
— O milho está com 80% da área semeada já. E tem um bom estabelecimento inicial de lavouras, apresenta um bom aspecto, mantém um potencial produtivo alto ainda, não tem nada que tenha prejudicado a safra até agora, então é boa expectativa — acrescenta Vila.

Além disso, o milho de silagem deve ocupar cerca de 35 mil hectares, seguindo o mesmo padrão de desenvolvimento do milho grão. Somadas, as áreas alcançam 128 mil hectares entre grão e silagem.
A soja, cultura de maior área na região, iniciou a semeadura há poucos dias e deve ter ritmo acelerado ao longo de novembro, acrescenta o engenheiro agrônomo.
— A semeadura agora vai avançando num ritmo bem acelerado. No mês de novembro é onde concentra quase toda a soja semeada na região — diz.
Outro fator que tem ajudado até o momento são as condições climáticas, que têm favorecido o início do ciclo.
— Por enquanto, tudo dentro da normalidade, tem umidade disponível no solo para garantir uma boa germinação. A safra está bem no início, é claro, mas vem numa boa perspectiva até o momento — comemora.
Villa reforça que o desempenho final dependerá do clima ao longo dos próximos meses.
— Tem uma previsão de La Niña, que é menos chuva. Então vai depender de todas as condições de clima até a colheita — finaliza o engenheiro.
Desafios fiscais e risco de desaceleração nacional
Apesar do bom desempenho regional, o cenário macroeconômico brasileiro inspira cautela, na avaliação dos palestrantes que estiveram em Caxias do Sul. Os economistas da Farsul e da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Antônio da Luz e Giovani Baggio, respectivamente, alertam para uma possível desaceleração da economia e agravamento do desequilíbrio fiscal entre 2026 e 2027.
— Estamos gastando de um jeito que não tem como sustentar. É como usar todo o cheque especial e depois o cartão de crédito. As chances de isso dar certo são muito baixas — compara Da Luz.

O economista destaca que o governo gasta mais do que arrecada e não tem conseguido gerar superávit primário, o que aumenta o endividamento e pressiona os juros.
Segundo ele, o volume de títulos públicos que vencem em um ano chega a cerca de R$ 2,4 trilhões, praticamente o mesmo valor da arrecadação anual. A tendência, conforme o economista, é de que 2026 consolide a desaceleração já em curso, com impactos diretos sobre o ritmo de investimentos.
— A economia vem desacelerando e deve permanecer assim. Em 2027, há risco de deterioração dos serviços públicos e de retração dos investimentos — alertou.
Indústria sob pressão
Economista da Fiergs, Giovani Baggio reforçou o diagnóstico de preocupação fiscal, sustentado em dados do Banco Central e do Tesouro Nacional. A dívida bruta do governo federal já chega a 80% do PIB, e para estabilizá-la seria necessário um superávit primário de 4,4% — cenário que ele considera improvável no curto prazo.
— O governo tenta resolver o problema fiscal aumentando a carga tributária, que já chega a 34,2% do PIB, sem contrapartida em serviços de qualidade — afirmou.
Além disso, Baggio destacou a escassez de mão de obra qualificada como um dos principais gargalos da indústria gaúcha.
— Hoje, 85,5% das indústrias têm dificuldade de contratar trabalhadores qualificados. É o maior índice já registrado — observa.

Outro ponto de atenção é o impacto das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos, que reduziram drasticamente as exportações gaúchas em 2025. Setores como tabaco (-94,1%), produtos de metal (-63,6%), papel e celulose (-65,8%) e alimentos (-66,6%) foram os mais atingidos.
Na Serra, o economista vê riscos para o setor metalmecânico, tradicional motor da economia regional.
— Esse setor produz bens de capital (máquinas, equipamentos) e depende de condições de crédito e juros baixos. Com a Selic elevada por tanto tempo, os efeitos sobre o investimento industrial aparecem com atraso, mas virão. A manutenção dessa política monetária deve atingir em cheio as empresas da região — adverte.
O setor moveleiro também sente os reflexos da desaceleração global e das barreiras americanas.
— Não é só a exportação direta que sofre. Toda a cadeia de fornecedores dessas empresas também é afetada — acrescenta.
Reformas e perspectivas
Mesmo com o cenário desafiador, Baggio vê na reforma tributária um avanço estrutural importante.
— Vamos sair de um sistema que era um manicômio tributário, cheio de regras e complexidade, para algo mais racional. O projeto não é perfeito, perdeu potencial de ganho com as exceções incluídas durante a tramitação, mas é melhor do que o modelo atual — avaliou.
Ele alertou, contudo, que a transição até 2033 será turbulenta.
— Vai dar muita dor de cabeça para empresas e contadores, porque todos terão de adaptar seus sistemas e práticas. E há um risco real de, ao fim da transição, vermos aumento de carga tributária, caso o governo siga gastando além do que arrecada. O problema não é o sistema, é o gasto público— frisou.
Para Da Luz, o reequilíbrio fiscal depende de medidas concretas de contenção de despesas e eficiência no uso dos recursos públicos.
— É possível chegar ao equilíbrio sem trauma, desde que se cumpra o arcabouço fiscal e se façam reformas para revisar despesas obrigatórias e benefícios indevidos — defendeu.


