
Um projeto em andamento na Serra gaúcha pretende registrar o queijo colonial com Indicação Geográfica (IG). Trata-se de um selo concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a produtos que têm ligação direta com o território onde são produzidos. A iniciativa busca reconhecer oficialmente o modo de fazer típico da região, preservando a história e o valor cultural do alimento.
Para isso, o projeto percorre propriedades para realizar pesquisas. Serão ao menos 50 visitas, em vários municípios da Serra, que devem ser concluídas até o final de 2026.
— Vamos trabalhar em várias frentes: desde a análise histórica, microbiológica e físico-química dos queijos, até a caracterização do território, incluindo solo, clima e, especialmente, os fatores humanos — explica Danilo Gomes, médico veterinário da Secretaria Estadual da Agricultura.
Segundo ele, é justamente o conhecimento tradicional das famílias que dá exclusividade ao queijo colonial da Serra gaúcha, diferenciando-o de outros produtos similares como o queijo Canastra, em Minas Gerais, ou o queijo Serrano, típico dos Campos de Cima da Serra, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
A pesquisa em campo reúne entrevistas, coleta de dados e amostras em diversas propriedades. Depois, o material será enviado ao INPI para avaliação.
— O que buscamos aqui é mais do que um selo. É o reconhecimento de um patrimônio cultural e alimentar do povo gaúcho — conclui Danilo Gomes.
De geração para geração
No interior de Carlos Barbosa, a produção do alimento atravessa seis gerações da família Lorenzon. A atividade começou com o bisavô de Sérgio Lorenzon, imigrante italiano que chegou à região em 1890.
— Nossa família, historicamente, é produtora de leite. E desde os primeiros anos aqui no Brasil já produzíamos queijo — conta Sérgio, que hoje mantém a agroindústria ao lado do filho Gabriel.

A produção mensal passa de duas toneladas, mas a receita segue fiel às origens: preparo artesanal, mão de obra familiar e uso de ingredientes locais.
— Fazemos o queijo como se faz em casa: sal na massa, fermentos próprios da propriedade, tudo com base no leite que nós mesmos produzimos — explica Gabriel Lorenzon.
Na propriedade, todo o processo é controlado internamente: da alimentação das vacas à criação dos bezerros, passando pela ordenha e produção do queijo.

Para o produtor, o reconhecimento do selo trará valorização econômica e cultural.
— A indicação geográfica é fundamental para a região, para nossa propriedade, para o estado. O queijo colonial é um patrimônio. Esse selo vai mostrar que ele é nosso, que vem daqui — reforça Gabriel Lorenzon.
História, cultura e sabor

Embora o queijo colonial seja produzido em todo Sul do Brasil, as raízes estão na Serra gaúcha, fruto da imigração europeia. Italianos e alemães trouxeram as técnicas de produção artesanal, adaptadas ao longo do tempo à realidade local.
Em Nova Petrópolis, o queijeiro Marcos Seefeld mantém viva a tradição alemã iniciada na década de 1950. Hoje, a produção abastece hotéis da região e turistas curiosos em conhecer mais sobre o produto.
— O queijo colonial é o nosso queijo típico. Assim como o queijo Minas para os mineiros, o colonial é para nós. É um produto com história, que representa nossas origens. Precisamos proteger isso — afirma Marcos.




