
Neste ano, o suco de uva brasileiro foi padronizado internacionalmente ao ser adequado ao chamado Codex Alimentarius. Na prática, a conquista, que também ocorre junto à Organização Internacional da Uva e do Vinho (OIV), é um reconhecimento das características da bebida, que tem a Serra como principal região produtora, e um passo inicial para que o produto comece a conquistar novos mercados.
É um trabalho paralelo para a qualificação do já delicioso e consagrado produto. Ao mesmo tempo que nas últimas décadas um programa na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Uva e Vinho desenvolve novas variedades da fruta, potencializando atributos como a cor, o aroma, o sabor e até os benefícios à saúde (confira mais, abaixo).
A padronização no Codex Alimentarius se deu pelo nível mínimo do Brix, um indicador usado para a concentração de sólidos solúveis, especialmente o açúcar. A norma pedida anteriormente era um mínimo de 16 Brix, mas o suco de uva brasileiro apresenta o mínimo de 14 Brix.
O que é o Codex Alimentarius?
É um conjunto de normas globais criado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir a segurança e a qualidade dos alimentos. Um dos objetivos dele é facilitar e fortalecer o comércio internacional.
Como explica a pesquisadora do Laboratório de Referência Enológica (Laren) do Estado Fernanda Spinelli, a diferença entre o padrão anterior, baseado principalmente na Europa, e o brasileiro passa pela maturação das uvas utilizadas para a produção do suco, além das características de clima e solo do país.
No país e no Estado são utilizadas espécies da Vitis Labrusca, enquanto no Velho Continente são as Vitis Vinifera.
— A Europa não entende o porquê do nosso padrão ter que ser inferior, porque eles não produzem suco com Vitis Labrusca, mas, sim, com a Vitis Vinifera. Eles exigiram que revíssemos esse padrão. O Brasil endereçou para o Codex Alimentarius. Publicamos um artigo científico com quase 2 mil amostras para provar a nossa realidade natural da matéria das uvas — relembrou a pesquisadora, que também é delegada científica brasileira da OIV.
O projeto para a padronização se iniciou em 2016, com o trabalho sendo realizado principalmente entre 2018 e 2022, a partir de uma colaboração público privada, envolvendo entidades de produtores e o Ministério da Agricultura e Pecuária. Como destaca Fernanda, foi um trabalho científico e diplomático.
Além disso, no ano passado, a pesquisadora ministrou uma masterclass sobre o suco brasileiro no Congresso da OIV, na França. Com apoio do Consevitis, as características da bebida nacional foram apresentadas a 17 países.
Primeiro passo para explorar novos mercados
Atualmente, cerca de 12% do suco de uva brasileiro é exportado. Fernanda analisa que a mudança no Codex Alimentarius pode ser o primeiro passo para que a bebida ganhe novos mercados.
— Esse número pode crescer muito ainda, e tem todo esse trabalho de apresentação. Agora, nós quebramos essa barreira técnica, que vai nos ajudar também a exportar o suco. É um trabalho que vamos ter um resultado a longo prazo — analisou Fernanda.

Entre os desafios para exportar o produto está a próprio consumo ao redor do mundo. Para isso, como conta Rafael Romagna, gerente de promoção para o mercado externo do Consevitis-RS, há um projeto em andamento para aumentar o interesse em relação ao produto. Trata-se do The Real Grape Juice of Brazil (O verdadeiro suco de uva do Brasil, em tradução livre), com ações que levam informações sobre o suco, como os benefícios à saúde, por exemplo.
A primeira etapa foi estabelecer redes sociais e a comunicação (@Therealgrapejuiceofbrazil). Em seguida, como adianta Romagna, ações promocionais devem ser realizadas nos mercados potenciais. Entre elas, participação em feiras, projeto comprador e o intercâmbio de jornalistas na região. A campanha é executada pela Consevitis em parceria com a Apex Brasil.
— Quando apresentamos esse produto, em projetos compradores, por exemplo, que é quando trazemos o comprador para o Brasil, para fomentar o comércio internacional, percebemos que é uma surpresa muito grande no sentido positivo. E quando ele sabe que é um produto que tem total benefício em relação à saúde, eles realmente percebem a questão de que o produto tem muito potencial no mercado internacional — destacou Romagna.
Entre 2023 e 2024, o Brasil até registrou aumento nas exportações, segundo Romagna. A alta foi de 26%, passando de US$ 2,4 milhões para cerca de US$ 3 milhões.
Entre os mercados que são vistos como potenciais para o produto estão Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes e China.
Mercado a ser explorado
Uma das produtoras que olham com atenção ao mercado Exterior é a Cooperativa Vinícola Aurora. O enólogo responsável da área de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa, Christian Bernardi, diz que 99% do volume de suco de uva fica no mercado interno. Contudo, percebe como importante o início dessa exploração de novos consumidores.
— É toda uma questão de cultura de consumo que não foi explorada, não foi desenvolvida ainda em outros países, onde a uva sempre foi encaminhada quase que unicamente para a produção de vinhos — analisou Bernardi.
Nesses países, como relatou Bernardi, os consumidores ainda têm mais familiaridade com sucos como o de laranja ou maçã.

Já Giorgia Mezacasa Forest, supervisora de exportação da Vinícola Aurora, recorda que o trabalho envolvendo a exportação do suco de uva é relativamente recente, tendo iniciado nos anos 2010. O primeiro país a comprar o produto foi o Paraguai, em 2013.
Inicialmente, inclusive, a exportação era ligada a consumidores brasileiros que residem fora do país. Giorgia credita isso ao suco de uva ter caído no gosto de consumidores de todo o Brasil:
— No Brasil, a exportação teve muitas demandas. Sempre fomos conhecidos nacionalmente. O suco teve, desde sempre, distribuição nacional e foi caindo no gosto das pessoas por esse consciente coletivo, todo mundo falando sobre isso e lendo que é saudável. Então, o consumo foi naturalmente crescendo, e no Brasil a Aurora tem distribuição nacional, e sempre no início da exportação as demandas que surgiam eram ligadas a um brasileiro.
Hoje, a Aurora já conta com importadores que distribuem para pontos de vendas nesses mercados, como nos Estados Unidos e na China, líder de exportação da cooperativa. O suco geralmente exportado é o integral feito 100% com uva, que, como destaca Giorgia, possui alto valor agregado.
Na China, a empresa adotou uma estratégia diferente ao estudar e ouvir o mercado chinês. Para lá, foi desenvolvido o suco de uva gaseificado. O produto deu tão certo que, depois, a Aurora passou a comercializar a bebida no Brasil:
— Escutamos o mercado e entendemos que estava na hora de fazer algo. Tinha sucos gaseificados de outros países, mas eles eram com muita reconstituição, uma lista de ingredientes muito grande. E o nosso acabou entrando como um suco de uva apenas. Não tem água, não tem nada na lista dos ingredientes. Então, o chinês viu como uma alternativa interessante. Desenvolvemos esses dois sucos gaseificados, inicialmente para o mercado externo e vimos que funcionou, ficou saboroso. E depois foi lançado no mercado interno.

Mais benefícios à saúde e produtividade: melhoramento genético da uva
Na Embrapa Uva e Vinho, com sede em Bento Gonçalves, outro trabalho que contribui para o reconhecimento e qualificação do suco é feito há décadas: o melhoramento genético da fruta. Até hoje, a partir do Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil, a empresa pública desenvolveu 22 novos cultivares, sendo que sete foram criadas com a finalidade de produzir suco.
Na safra de 2026, a Embrapa lançará, inclusive, dois novos cultivares: a BRS Lis, que se destaca pela qualidade dos sucos, alto conteúdo de açúcar e sabor aframboesado, e a BRS Antonella, que possui alta produtividade e é tolerante às principais doenças que afetam os vinhedos. O lançamento deve acontecer em fevereiro. Em julho, viveiristas devem ter as plantas disponíveis para comercializar aos produtores.
Estudos recentes demonstram que as variedades de uva desenvolvidas no Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil apresentaram um aumento de 14% na produtividade e 20% no teor de sólidos solúveis — de açúcares — em comparação a cultivares tradicionais. Elas são utilizadas tanto no suco de uva, quanto nos vinhos.
— Quando posteriormente avaliamos as cultivares em relação às tradicionais, observamos que houve um avanço bastante grande no conteúdo de compostos funcionais dessas novas cultivares, o que é uma coisa bastante boa para o produtor — celebrou a pesquisadora da Embrapa, Patrícia Ritschel.
Resultados além do esperado
Ao lado da pesquisadora Vera Quecini e do técnico do programa Wanderson Araujo Ferreira, Patrícia contou que muitos benefícios foram percebidos em análises posteriores. Não eram atributos buscados ativamente, mas que demonstraram evolução.
— Por exemplo, o conteúdo de antocianinas, que é o que determina a cor. Fizemos uma seleção indireta para a cor, só avaliando visualmente. Mas o teor de antocianinas aumentou duas vezes em relação às tradicionais — descreveu Patrícia.
Nesse caso, as uvas Violeta 2006 e a Magna 2012 se destacaram. As pesquisadoras também notaram mudanças no aroma, por exemplo.
Contudo, há características que vão além e são consideradas até raras. As pesquisadoras relataram que vinhos produzidos com as uvas Rúbia, Magna e Violeta da Embrapa apresentaram um volume três vezes maior de uma substância chamada de hidroxitirosol, que geralmente é encontrado em grandes quantidades em azeites de oliva extra virgem.
— É considerada um dos antioxidantes mais poderosos da natureza, um composto funcional dos melhores antioxidantes naturais — detalhou Vera.
Ou seja, além de qualificar atributos dos produtos, também são benefícios para a saúde do consumidor.

Ao mesmo tempo, o programa também avançou na produção de uva em áreas de clima tropical. São casos de variedades como a BRS Cora, BRS Magna e Isabel Precoce, que apresentaram essa adaptação.
— Elas têm uma ampla adaptação. Elas se adaptam tanto em regiões mais frias, como em regiões mais quentes — afirma Patrícia.
Como funciona o desenvolvimento de novos cultivares
O programa se iniciou nos anos 1970 com o pesquisador Umberto Camargo. Inicialmente, foram reunidas coleções de diferentes tipos de videiras que estavam estabelecidas no Brasil e também plantas internacionais. Esse banco de dados tornou-se a base para a pesquisa de melhoramento genético das uvas.

O desenvolvimento começa com a definição de um objetivo para uma planta. Por exemplo, o ponto de partida pode envolver ouvir demandas do setor. A pesquisa possui diferentes etapas, que envolvem o laboratório e o campo, e pode levar décadas para uma nova variedade ser gerada.
— Para o suco de uva, duas coisas bastante importantes são o conteúdo de açúcar, por exemplo, e a coloração do suco, o conteúdo de matéria corante que esse suco tem. Então, se eu quero desenvolver uma cultivar que reúne essas duas características, eu procuro nessa coleção quais são aqueles materiais que eu mantenho e que se destacam por essas duas características. E aí fazemos um cruzamento, uma polinização controlada — exemplificou Patrícia, pesquisadora da Embrapa.
A partir desse processo são geradas centenas de plantas. Na primeira etapa, elas são introduzidas em um campo chamado de híbrido. Elas são analisadas e as que correspondem ao objetivo determinado continuam para a próxima fase. Nesse exemplo, se possuem as características buscadas da quantidade de açúcar e coloração. Ou seja, é uma seleção.
Para isso, as pesquisadoras detalham e listam as características de cada planta. No segundo campo, chamado de seleções intermediárias, aumenta-se o cultivo das plantas selecionadas. Com isso, podem ser analisadas características como resistência a doenças e alta produtividade.
Novamente, uma seleção é realizada. As plantas vencedoras são levadas para um terceiro campo, de seleções avançadas. Durante as etapas, uma produção experimental do suco de uva é realizada, também para analisar as característica e qualidade da fruta gerada.
— Nisso, já se passaram uns 12, 13 anos — descreve Vera.
Geralmente, das centenas de plantas que iniciaram o processo, surge uma que pode ser qualificada para produção. Com ela, chega-se a etapa da validação. Viticultores parceiros são escolhidos para experienciar como seria o cultivo dessa planta no dia a dia em uma produção comercial.
— Essa escolha tem que ser muito criteriosa porque tem que ser um produtor que tenha esse interesse pelo novo e que tenha também a disponibilidade de repartir com os outros produtores a sua experiência — continuou a pesquisadora.

Como relatam as pesquisadoras, a última etapa é considerada de risco. Pode acontecer de a planta não ser aprovada na área do produtor.
Das variedades criadas para o suco, cinco foram desenvolvidas por esse método.
Outra forma é a seleção clonal, em que plantas agronomicamente diferentes são basicamente clonadas. Os cultivares desenvolvidos dessa forma foram a Isabel Precoce e a Concord Clone 30.
— Às vezes, quando eu vou andando num vinhedo antigo de Isabel, eu identifico plantas que são diferentes. São diferentes do comportamento agronômico da Isabel. Por exemplo, temos a Isabel Precoce, que é uma dessas que foram desenvolvidas pelo programa por seleção clonal. O ciclo dela (da Isabel Precoce) é 30 dias menor do que o ciclo da Isabel original — contou Patrícia.
Simultaneamente ao trabalho no laboratório e no campo, há os trâmites junto ao Ministério da Agricultura.
— Paralelamente, tem que andar tudo isso no ministério. Você não pode sair com uma coisa e falar, "está aqui uma coisa nova". Tem que fazer todo o processo do Ministério da Agricultura para você mostrar que o cultivar não é nada do que já existe. Então, você tem que caracterizar exaustivamente, tem que registrar e tem que proteger — detalha a pesquisadora da Embrapa, Vera Quecini.
Das plantas desenvolvidas para o suco de uva, as pesquisadoras acreditam que o cultivar preferido atualmente dos produtores é a Magna, com conteúdo de açúcar alto, sabor afromboesado e a possibilidade da produção de um suco varietal.


